Thursday, 12 November 2015

Resenha - Raízes do Brasil

Introdução

Raízes do Brasil é uma obra escrita por Sergio Buarque de Hollanda, publicada originalmente em 1936 e que se transformou num clássico da política nacional, pois em seu conteúdo o autor conseguiu desvendar a alma do homem brasileiro, assim como transcrever de forma impressionante a transformação de um Brasil rural em um país eminentemente urbano.
Podemos comparar a obra de Sergio Buarque de Hollanda à de outros autores brasileiros renomados, como: Gilberto Freyre, Caio Prado Junior, Victor Nunes Leal e Celso Furtado. A leitura das obras desses autores é capaz de nos fornecer de forma objetiva a identidade brasileira.
Raizes do Brasil é um auto-retrato da personalidade do brasileiro: o que somos, do jeito que somos, porque somos e como fomos construídos, mas não apenas através de uma perspectiva histórico. Hollanda foi capaz de escrever sobre a mentalidade brasileira e mais do que uma interpretação sociológica, sua obra representa a psicologia do jeito de ser brasileiro.
Parte I
Fronteiras da Europa

O capítulo I analisa a colonização da América através da perspectiva de Portugal e Espanha, estabelecendo de certa forma, a distinção entre ambas;
·         Frouxidão das instituições;
·         Falta de coesão social;
·         Ausência de hierarquia;
·         Exaltação do prestígio pessoal com relação ao privilégio;
·         Mania geral de fidalguia;
·         Repulsa ao trabalho e às atividades utilitárias;
·         Falta de organização;
·         Vontade de mandar e de cumprir ordens (propensão à ditadura);

Hollanda inicia Raízes do Brasil estabelecendo a seguinte questão: as formas de convívio, as instituições, e as idéias que pairam em Terra Brasilis, são construídas com autenticidade dentro do território brasileiro? Não. O que o brasileiro é, é fruto da herança recebida por meio de uma nação ibérica, Portugal.
A personalidade do homem brasileiro foi moldada por traços existentes nos portugueses – essa personalidade vai ser decisiva para designar quem é realmente o povo brasileiro e qual o seu caráter. Na realidade, Hollanda vai traçar um perfil psicológico do que é o brasileiro a partir da personalidade do homem português.
Personalidade que possui como característica central a não propensão para o desenvolvimento de ações visando o bem coletivo e sim, as individualistas – as ações para a solidariedade são inexistentes.
Nesse contexto, é notório a dificuldade de se desenvolver no Brasil diferentes classes sociais. “Em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”.
Portugal atuou de forma implacável para manter seu poder sobre a colônia, por isso, sufocou com voracidade as iniciativas de caráter coletivo. Era necessário separar os homens e dificultar a sua união. Com essa forma de agir, Portugal vai colaborar de forma significativa para ampliar a ausência de coesão social, resgatando uma filosofia conservadora e tradicional onde o epicentro era Deus, ou seja, estava fora do mundo real e dos homens.
De acordo com a visão portuguesa, o mundo era organizado segundo as leis divinas e eternas e portanto, indiscutíveis, abrindo parênteses para a construção “equivocada” de uma suposta hierarquia baseada na obtenção de privilégios e na manutenção do prestígio pessoal.
É notório salientar a flexibilidade da hierarquia estabelecida pela nobreza. A nobreza não constituiu uma hierarquia fechada – ela sempre esteve aberta a novos adeptos, desde que esses pretendentes não estivessem ligados aos trabalhos mecânicos e às atividades utilitárias – o significativo para a nobreza era o ócio, era mais o dinheiro do que o próprio sangue. Vale salientar a prevalência das questões econômicas sobre as relações sociais e políticas.
Não era necessário a nobreza transformar o seu estilo de vida e a sua visão de mundo para se sobrepor à vida dos colonos. Os colonos detinham uma certa relação de subserviência e buscava a todo instante participar da vida da própria nobreza, por isso a construção e o desenvolvimento do que Hollanda chama de fidalguice.
A mentalidade portuguesa sempre valorizou o mérito pessoal e o livre arbítrio dificultando a criação de laços na sociedade e dificultando as associações dos homens.
Hollanda traça a comparação entre os protestantes e os portugueses quando menciona a mentalidade do homem português com relação ao trabalho. Segundo o autor, os protestantes preconizavam e aceitavam os trabalhos manuais e os portugueses “uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia”.
De uma forma geral, a ausência da moral do trabalho revela a incapacidade de se organizar socialmente, o que torna cada vez mais difícil encontrar resquícios de solidariedade na sociedade.
Outro aspecto importante a ser mencionado é a exaltação à individualidade – essa característica vai ser determinante, uma vez que, vai abrir caminho para as ditaduras que vão se desencadear historicamente no Brasil. A vontade de mandar e a disposição ao cumprimento de ordens contrapõem a obediência e a disciplina.

Parte II – Trabalho e aventura

Segundo o autor, a exploração da Terra Brasilis por Portugal não aconteceu de forma racional e organizada, mas através do desleixo e de certa forma, do abandono. O povo português que veio habitar a colônia pode ser caracterizado como aventureiro de certa forma, pois não havia diretrizes e regras estabelecidas, valia todo e qualquer tipo de relação em busca do maior lucro possível – é sobre esse contexto que as relações de trabalho se desenvolvem na colônia.
Hollanda utiliza a comparação entre os aventureiros e os trabalhadores. O aventureiro é o ser audacioso, irresponsável, vagabundo e o trabalhador justamente aquele que apresenta qualidades contrárias ao aventureiro. O autor ressalta o papel limitado desempenhado pelo “trabalhador” na conquista da colônia e a prevalência  das ações dos aventureiros justamente por causa da valorização pessoal e do livre arbítrio, características tão valorizadas pelo povo português.
Apresenta-se como característica fundamental do aventureiro, a ânsia pela prosperidade sem custo algum, a busca por riqueza fácil – esse foi o espírito dos homens que para cá vieram e fizeram a colonização brasileira. Nesse contexto, como esperar que fossemos obter fortes laços de organização?
Um fator facilitador para os portugueses foi a flexibilidade em se adaptar a uma cultura estranha à sua.  Nenhum povo se adaptou de forma tão simples e fácil como os portugueses se adaptaram à cultura indígena – “os instrumentos de caça e pesca, as embarcações de casca ou tronco escavado, o modo de cultivar a terra atendo fogo aos matos”, esses elementos foram fundamentais para os portugueses e facilitaram o processo de colonização.
Portugal não tinha muita opção quando decidiu transformar a colônia em exportador de produtos agrícolas – até porque, a Europa ainda não era um grande centro industrial e isso de certa forma, contribuiu para o desenvolvimento agrícola da colônia. O problema estava relacionado justamente na mão de obra – havia duas opções: os índios e os negros. Os índios não se adaptavam a grandes extensões de cultura agrícola, no caso a cana-de-açúcar, por isso, a opção pelo negro no trabalho da monocultura canavieira. Como cita Hollanda (p.52) “os métodos que puseram em vigor no Brasil não representam nenhum progresso essencial sobre o que, antes deles, já praticavam os indígenas do país.
Os portugueses não foram capazes de introduzir novos processos técnicos para a exploração da terra. Os métodos utilizados podiam ser caracterizados como primitivos, uma vez que usaram as técnicas ultrapassadas ou mesmo copiavam o modelo dos nativos aqui existentes – de certa forma, os portugueses queriam explorar demais as terras fazendo pouco esforço.
Não houve uma identificação com a terra por parte dos portugueses e dos espanhóis. A administração das terras foi facilitada por parte dos portugueses, não havia regras e foi permeada por uma plasticidade social: ausência de orgulho racial, inimigo de compromissos.
É notável o comportamento discrepante do homem português com relação aos índios e os negros. O português se identificou com alguns traços indígenas: a indolência, a ausência de regras por isso, os tratava com certos privilégios sociais, muito mais do que os negros. Os negros eram discriminados cabalmente, enquanto os indígenas recebiam tratamento diferenciado.
A sociedade colonial era marcada por fortes traços personalistas, dificultando a agregação entre as pessoas, isso porque o que sempre prevaleceu foi a irracionalidade nas relações sociais e o agir passional, os quais são traços diferentes de quem age de forma ordenada, racionalizada e disciplinadora. A disciplina, o agir racional e a ordem são quesitos fundamentais para quem quer desenvolver politicamente uma sociedade.

Parte III – Herança Rural

De certa forma toda a estrutura da sociedade colonial brasileira foi organizada tendo como base o meio rural. E esse fato vai influenciar a construção das cidades brasileiras, tendo em vista que todos os costumes, idéias, modos de comportamento e ideologias foram trazidos do meio rural para o urbano. Em linhas gerais, a mentalidade da casa-grande vai invadir as cidades e assim destilar todo o seu conservadorismo.
Quem vai habitar as cidades, são os filhos dos fazendeiros que estudaram em Coimbra ou em qualquer outra universidade européia e depois voltaram para desenvolvê-las. De certa forma, a maior influência da estrutura rural sobre a urbana está centralizada na construção de uma política conservadora.
O comércio negreiro no período colonial colocou o rural e o urbano frente-a-frente na luta política. De um lado, os ruralistas que defendiam o comércio negreiro porque alcançavam altas rendas e de outro lado os urbanistas, modernos com uma nova concepção de mundo e também de economia, já que tinham como idéia a abolição da escravidão, chamados de liberais.
Mas, havia um impasse, quem detinha o poder político eram os ruralistas – nesse contexto, como alterar os rumos da política nacional? Os ruralistas serão retirados do poder apenas em 1930 pelo Governo Getúlio Vargas, após a quebra da bolsa de valores de 1929.
A entidade privada se sobrepõe à entidade pública. Todas as relações sociais são organizadas através de laços afetivos. A família colonial vai se tornar espelho de poder através da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os homens e essas relações sociais vão determinar toda a vida social, até mesmo a dominação do Estado pela família que Victor Nunes Leal vai trabalhar de forma significativa em sua obra Coronelismo, enxada e voto.
Parte IV
O Semeador e o Ladrilhador

A Colonização portuguesa no Brasil:
·         Renuncia a normas imperativas
·         Governo de conveniências
·         Busca de riqueza fácil
·         Ausência de construção racional de uma sociedade
A construção das cidades no Brasil se estabeleceu através do espírito da vontade na luta contra a natureza – ao contrário de muitos outros lugares no mundo onde a cidade foi construída através de órgãos locais de poder.
Portugal fez das cidades brasileiras palco da exploração comercial, diferente das colônias espanholas, onde se procurou fazer das cidades imagem e semelhança das suas. A colonização brasileira se caracterizou como litorânea e tropical. Portugal dificultava a penetração para o interior do país, pois de certa forma, despovoaria a região litorânea e também ampliaria os preços dos produtos. Caso houvesse a exploração do interior os produtos chegariam mais caros aos portos, inviabilizando tanto a produção quanto a exportação.
Apenas com a descoberta do ouro e dos metais preciosos durante os anos de 1700 é que o interior começa a ser habitado efetivamente por Portugal e vai força-lo a tomar medidas mais rígidas para manter intacto os interesses da coroa. Segundo Hollanda  (p. 103) “ o descobrimento da minas de diamantes, foi, pois, o que determinou finalmente Portugal a por um pouco mais de ordem em sua colônia, ordem mantida com artigíficio pela tirania dos que se interessavam em ter mobilizadas todas as forças econômicas do país para lhe desfrutarem, sem maior trabalho, os benefícios”.
As colônias não podiam produzir nada que fosse competir com os produtos do reino. Essa era a regra fundamental entre as colônias e as metrópoles. Portugal tinha uma política até certo ponto flexível com relação à mão de obra, pois permitia a entrada de espanhóis, italianos e etc, desde que viessem para trabalhar.
As cidades brasileiras na visão de Hollanda foram construídas através do desleixo, sem organização e sem padronização alguma. Foram desenvolvidas sem nenhum tipo de rigor, nenhum método e nenhuma previdência.
Na medida em que a população ascende socialmente, deixa para trás a sua mentalidade para aderirem à dos grupos dominantes.
Notas do capítulo IV
I - Comparação entre Portugal e Espanha sobre os números produzidos pelas Universidades. As Universidades nas colônias espanholas apresentam números muito mais significativos do que o da colônia portuguesa. A imprensa teve muito mais Liberdade nos paises de colonização espanhola, assim como a produção da imprensa escrita. Na colônia portuguesa ocorreu um desenvolvimento tardio sobre essas questões.
II – A língua que se falava na colônia teve a influência significativa da língua tupi, falada pelos índios;
III – Escrevendo sobre as relações econômicas, Hollanda enfatiza a baixa capacidade de racionalização nos negócios por parte de espanhóis e portugueses. O que se caracteriza importante não são as condições racionais que regem os contratos, mas sim o valor afetivo da amizade, pois através dela, se é capaz de cobrar vantagens pessoais, indicações de parentes etc.
Parte V
O Homem Cordial
Para iniciar o capítulo referente ao homem cordial, Hollanda traça o paralelo entre o Estado e a família. Distinguindo aquilo que é público daquilo que é privado. Uma forte influência do privado sobre as questões públicas.
Ressalta a significância do papel da família na formação dos indíviduos – sempre lembrando que a tradição nas terras da colônia portuguesa, a família se constitui como patriarcal. Fatores como o processo de educação patriarcal influenciou de forma significativa nas condutas dos homens da colônia.
A relevância adquirida para o desenvolvimento das cidades se fazia necessária uma nova forma de conduta, tendo em vista que os valores citadinos não se assemelhavam com os valores do campo. As particularidades e o privado precisavam ser deixados de lado em benefício do bem coletivo.O que Hollanda quer dizer é que há um excesso de tutela da família sobre os seus filhos, dificultando o desenvolvimento de um processo de cidadania.
Hollanda desenvolve a tese de que a contribuição brasileira para a civilização foi a criação do homem cordial sendo a  hospitalidade e a generosidade são características marcantes do homem brasileiro. A vocação do homem da colônia para desenvolver as relações de afetos e emocionais e a  baixa capacidade de compreender as relações racionais – esses  são pontos fulcrais do conceito de homem cordial de Hollanda. As relações de amizade são usadas como forma de interferir sobre as relações sociais – seja na obtenção de vantagens ou mesmo de aceitação do “privado”.
A ética do homem cordial é uma ética de fundo emocional e não racional - de base individual e não coletiva – fortemente personalista, fruto do desenvolvimento e da influência da família patriarcal.
Parte VI
Novos tempos

Com o desenvolvimento das cidades na colônia e a certa decadência do modus operandi ruralista, desencadeou uma nova colônia. A sociedade de classes começou a se desenvolver nas cidades e com ela o surgimento das diferentes profissões.
Nesse contexto, Hollanda tece comentários sobre o desenvolvimento da sociedade de bacharéis na colônia, que vai de certa forma, contribuir para ampliar o personalismo patriarcal que assola as relações sociais. O personalismo que vai jogar para baixo do tapete o papel fundamental do Estado que é cuidar das questões coletivas e desenvolver a simpatia pela filosofia positivista. O positivismo se encaixa na sociedade brasileira porque se trata de uma caixa de ressonância do espírito personalista que reveste a psicologia social no trópico.
De uma certa forma, a democracia era vista como um processo de acomodação dos interesses de uma aristocracia rural para a manutenção dos seus próprios interesses sociais e comerciais. E os movimentos reformadores que assolaram a colônia tiveram uma característica de imposição, ou seja, uma verticalização das relações na medida em que eram colocadas de cima para baixo, abrindo o caminho que posteriormente se chamará de período populista brasileiro.
Parte VII
Nossa Revolução
Hollanda marca como significativo o ano de 1888. Esse ano registrou o marco entre duas épocas – a transição entre o velho e o novo, entre o rural e o urbano.
Esse ano representou um divisor de águas porque de certa forma entra em decadência a produção da cana de açúcar e emerge a lavoura cafeeira. O café se transforma em produção industrial que proporciona o desenvolvimento das cidades pelas novas necessidades existentes: a construção da linhas férreas e a produção de mantimentos necessários para a manutenção do sistema cafeeiro. A cultura do café abriu as  portas para o emprego remunerado, gerando os assalariados, diferente do período anterior a 1888 onde predominava as relações escravocratas.
Até a postura do fazendeiro do café é diferente, uma vez que ele se torna mais citadino e a fazenda é mera questão de visita. As relações se invertem quando se pensa no período anterior, onde o senhor residia na fazenda. Nesse contexto, o café transforma o Brasil em um país com caracteríticas mais urbanas.
A urbanização continuou e avassaladora e diminuiu a influência do regime ruralista e modificou a realidade brasileira.
O Brasil não foi capaz de se organizar como país de forma autêntica, seguindo os seus próprios valores e a sua própria moral. O modelo de legislação foi copiado da França, onde os valores estavam estabelecidos sobre uma determinada racionalidade. O homem brasileiro da época se encantou com a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mas esse “encantamento” se caracterizou apenas como fachada. Não havia qualquer possibilidade de dar certo em terras brasileiras, tendo em vista a personalidade e as condições sociais, baseadas nas relações emotivas e da amizade.  
Na verdade, aconteceu uma adaptação nada convencional do sistema legislativo francês, onde prevaleceu as relações do personalismo  brasileiro e o desenvolvimento do positivismo comteano, baseado na autoridade e nas relações de força, abrindo caminho para as futuras ditaduras.



Blog Archive

ASSESSORIA POLÍTICA

UM BLOG QUE VAI SERVIR DE REFERÊNCIA PARA QUEM QUER SE COLOCAR NO MUNDO DA POLÍTICA.