Friday, 30 January 2026

Patrimonialismo em voo: o uso de aviões da FAB e o legado cultural da corrupção no Brasil

O uso de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) por autoridades públicas tem gerado debates sobre ética, moralidade e o uso do bem público. Casos recentes envolvendo Deputados, Senadores e membros do Judiciário brasileiro reacendem a discussão sobre o patrimonialismo - um traço histórico da política brasileira que confunde o público com o privado.

Os membros da Câmara Federal, do Senado e do Judiciário, costumam utilizar aeronaves da FAB para transportar familiares e amigos para passeios. Geralmente, as viagens são custeadas com recursos públicos. A utilização de aeronaves da FAB por parte desse pessoal, ilustra o comportamento de apropriação do Estado por parte de quem o administra, prática que Raymundo Faoro, em Os Dono do Poder, define como patrimonialismo - a confusão entre o público e o privado.

Recentemente, um nobre deputado utilizou um avião da FAB para comparecer a um casamento em Trancoso, na Bahia. O deputado justificou o ato alegando prerrogativas do cargo e afirmou não pretender devolver os valores gastos. A coincidência geográfica - Trancoso, região próxima ao Monte Pascoal, onde Pero Vaz de Caminha escreve ao rei pedindo um "emprego" para um parente - reforça simbolicamente a ideia de que o patrimonialismo é um traço cultural persistente desde o início da colonização.

Os episódios de utilização das aeronaves brasileiras por parte de políticos e de membros do judiciário para fins particulares, nos aponta que o patrimonialismo não é apenas um conceito teórico, mas uma prática enraizada na cultura política brasileira. A apropriação de bens públicos para fins privados demonstra a dificuldade de romper com um legado histórico que atravessa séculos.

A pergunta que emerge é inevitável: as leis conseguem superar o peso da cultura patrimonialista? a resposta talvez esteja nas ruas, na reação popular e na cobrança por transparência e ética na gestão pública.

O patrimonialismo, como descreve Faoro, continua a se manifestar nas atitudes de muitos representantes do  poder. Enquanto o uso indevido de recursos públicos for tratado com naturalidade, a corrupção permanecerá como herança cultural. Romper com esse ciclo exige não apenas leis mais rígidas, mas também uma mudança de mentalidade coletiva - um novo pacto ético entre Estado e sociedade.

Thursday, 22 January 2026

Conversas do Podcast Uniara sobre o Sporting Benfica de Araraquara com Lelei e Pepa!!

 

 

Muito obrigada Alexandre, vamos bater um papo aqui, falar um pouquinho sobre o nosso Benfica, que faz parte da nossa história.

O Benfica foi fundado mesmo no dia 22 de agosto de 1963, no aniversário de Araraquara. Era um grupo de amigos que ficava na praça em frente ao Estádio Municipal, reunidos à noite, batendo papo. Todos gostavam muito de futebol e resolveram montar um time.

Na época, o futebol português estava em alta, com o Benfica e o Sporting em destaque. Então decidiram unir os dois nomes e criaram o Esporte em Benfica. As cores também vieram dessa fusão: o vermelho e branco do Benfica e o verde e branco do Sporting, formando o tricolor vermelho, verde e branco.

O campo do Benfica sempre foi ali no Quitandinha. A área era propriedade da Lupo, e o Rômulo Lupo doou o espaço para o time, em homenagem ao irmão falecido, Rolando. O campo recebeu o nome dele. Tudo foi feito de forma artesanal, com ajuda da comunidade. Seu Álvaro Fleuryfina foi quem cuidou do gramado e da drenagem, que até hoje é elogiada.

O Benfica começou a participar dos campeonatos amadores da cidade e foi crescendo. Chegou a ser campeão várias vezes. Muitos jogadores profissionais passaram por lá, como Dudu (ex-Palmeiras), Dorival Júnior, Galo, Vica, entre outros.

O time sempre teve uma diretoria atuante. Hoje, o Benfica se mantém com a ajuda dos amigos e associados, que contribuem com mensalidades e organizam eventos, como costeladas e rachões. O dinheiro arrecadado ajuda a pagar as despesas e manter o campo.

Há também uma escolinha de futebol, administrada por Edmilson e Douglan, que trabalha com a molecada e mantém viva a tradição do clube.

Com o tempo, o campo grande foi adaptado para mini campos, por causa da diminuição de times e jogadores. Hoje, o Benfica tem times de sábado e domingo, com gerações diferentes — pais, filhos e até netos jogando juntos.

A administração é feita de forma colaborativa. O presidente atual é o Herbert, o vice é o Pezinho, e há um grupo de amigos que mantém tudo funcionando.

O Benfica participa de campeonatos de futebol society e vem subindo de divisões. O time é conhecido pela amizade e pelo espírito de união. Futebol vem depois — o principal é a convivência.

Além do futebol, o Benfica tem uma forte ligação com o samba. Muitos dos jogadores e amigos são sambistas. Essa tradição vem desde os tempos da WL, quando o grupo Alma Brasileira surgiu e ajudou a consolidar o samba em Araraquara.

O futebol e o samba sempre caminharam juntos. Depois dos jogos, há sempre resenha, música e confraternização. O Benfica também mantém laços com outros times de cidades como Piracicaba e Limeira, promovendo intercâmbios e eventos com futebol, churrasco e samba.

O clube sobrevive com a força da amizade e da tradição. O maior desejo é que os filhos e netos continuem o legado, mantendo o Benfica como um espaço de convivência, lazer e história.

O Benfica é mais do que um time: é uma família, um símbolo de amizade, esporte e cultura em Araraquara.

 

Conversas do Podcast Uniara com Marcelo Teroca - músico, professor e escritor

 

Marcelo Teroca é músico, compositor, professor de matemática e agente cultural da cidade de Araraquara. Ele conta que sua ligação com a música começou ainda na infância, quando acompanhava o pai e o tio aos jogos da Ferroviária. Nos intervalos das partidas, tocavam músicas que despertaram seu interesse. Mais tarde, na década de 1960, o rádio se tornou seu companheiro e foi através dele que ouviu, pela primeira vez, um samba de João Nogueira, interpretado por Eliana Pittman. A partir desse momento, o samba passou a fazer parte de sua vida.

Durante a juventude, Teroca formou um grupo de amigos que se reunia para tocar samba na calçada. Com o apoio do pai, comprou seus primeiros instrumentos de percussão. Mais tarde, ganhou de presente um cavaquinho de um comerciante local, o que o motivou a aprender o instrumento e manter viva a roda de samba. Assim nasceram suas primeiras composições e o início de uma trajetória musical que se consolidaria com o tempo.

Teroca sempre se identificou com o samba de terreiro, no estilo de Paulinho da Viola, mas também compôs sambas de roda e partido alto. Suas principais referências incluem João Nogueira, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione e Roberto Ribeiro. Ele destaca que, nas décadas passadas, cada artista tinha uma identidade própria, algo que considera raro na música atual.

Segundo ele, o samba continua vivo, embora com pouca visibilidade na grande mídia. A confusão entre samba e pagode, surgida no final dos anos 1980, contribuiu para o enfraquecimento do gênero tradicional. Para Teroca, o samba verdadeiro é um cronista social, que retrata a vida e a cultura do povo.

Em 1996, ele fundou o Clube do Samba em Araraquara, um espaço dedicado à preservação e divulgação do gênero. O local funcionava como ponto de encontro para músicos e apreciadores, com rodas de samba e um acervo de discos. No mesmo ano, começou a apresentar o programa Clube do Samba na Rádio Araraquara FM, que mais tarde passou para a Rádio Cultura. O programa alcançou grande audiência e recebeu ligações de ouvintes de várias partes do Brasil.

Paralelamente, Teroca escrevia uma coluna sobre samba no jornal O Imparcial e viajava ao Rio de Janeiro para reencontrar sambistas que estavam fora da mídia. Dessa convivência nasceram amizades e parcerias com nomes importantes do samba, como Monarco, Wilson Moreira, Zé Luiz do Império Serrano, Luiz Grande, Fabiana Cozza e Maria Marta.

Seu primeiro disco surgiu de forma inesperada, após uma apresentação no projeto Boteco do Cabral, do Sesc. Ele foi convidado a cantar um samba em homenagem a João Nogueira, o que emocionou o público e resultou na gravação de seu primeiro álbum em 2003. O segundo disco, Semba Coara – Morada do Samba, lançado em 2014 com apoio do ProAC e patrocínio da Lupo, reuniu músicos e intérpretes de Araraquara.

Teroca também é autor de mais de 500 sambas ainda inéditos. Suas composições nascem de momentos de inspiração, muitas vezes ligados a experiências pessoais e simbólicas. Ele relata, por exemplo, que a música “Até um Dia” surgiu após a morte de João Nogueira, inspirada pela aparição de um sabiá e um ipê amarelo em flor.

Outra história marcante é a da música “Bamboleio”, composta durante uma viagem a Jaú. A canção acabou se tornando um sucesso e rendeu a ele e à cantora Dona Iná o prêmio de melhor samba e melhor intérprete no Festival de Samba do Estado de São Paulo, em 2007.

Na Rádio Uniara, Teroca apresenta desde 2005 o programa Do Quintal ao Municipal, criado em parceria com o saudoso Tecão. O nome foi inspirado em um livro sobre chorinho de Henrique Cazes. O programa, transmitido aos sábados, já ultrapassou mil edições e é um espaço dedicado à valorização do samba e da música brasileira.

Além da música, Marcelo Teroca teve uma trajetória ligada ao futebol. Jogou nas categorias de base de Araraquara, atuando ao lado de Antônio Careca. Chegou a receber convites para jogar no Santos, na Ferroviária, no Comercial de Ribeirão Preto e no Guarani de Campinas, mas optou por seguir a carreira acadêmica. Formou-se em Engenharia Civil pela USP de São Carlos e se dedicou ao ensino da matemática.

Como professor e pesquisador, desenvolveu um trabalho que resultou em dois livros: A Arte da Coincidência – O Código Matemático da Existência (2020) e A Arte da Coincidência – O Código Depurado na Essência (2023). Nessas obras, ele explora a relação entre matemática, natureza e espiritualidade, analisando números como π (pi), e (número de Euler), φ (razão áurea) e outros conceitos ligados à teoria do caos e à física quântica. Para ele, a matemática é a linguagem universal da criação e revela a harmonia presente em todos os aspectos da vida.

Wednesday, 21 January 2026

Conversas do Podcast Uniara com Arace - Artista Plástico

 

 


O artista plástico Arace compartilha sua trajetória e reflexões sobre a arte de rua. Ele conta que se formou em Publicidade em 2013 pela Uniara e que a faculdade foi essencial para o desenvolvimento de sua carreira. Trabalhou em agência de publicidade, na área de direção de arte, antes de se dedicar integralmente às artes plásticas.

Desde criança, Arace demonstrava interesse pelo desenho. Aos 13 anos, conheceu o grafite por meio de revistas especializadas e se encantou com a estética autoral e urbana dessa forma de expressão. Começou a praticar com amigos, utilizando tintas vencidas que conseguiam em lojas, e enfrentou preconceitos e abordagens policiais por causa da confusão entre grafite e pichação.

Com o tempo, passou a compreender melhor o papel do grafite e a diferença entre as duas linguagens. Para ele, a pichação é uma forma de comunicação entre pichadores, enquanto o grafite é uma arte voltada à sociedade, com o objetivo de transmitir mensagens visuais e reflexivas.

Arac começou a receber convites para trabalhos comerciais e, após um período conciliando a agência e os murais, decidiu se dedicar exclusivamente à arte. A partir daí, construiu uma rede de clientes e passou a viver de suas criações. Ele destaca a importância de equilibrar o trabalho autoral — que expressa sua identidade artística — com o trabalho comercial, voltado às demandas de empresas e clientes.

Hoje, Arac realiza murais de grande escala em várias cidades do país, incluindo obras para empresas de energia e indústrias. Ele também participa de editais e festivais de arte urbana, como o Museu de Arte de Rua (MAR), em São Paulo, um dos maiores do Brasil.

O artista utiliza principalmente tintas acrílicas e sprays, escolhendo o material conforme o tipo de obra. É patrocinado pela Brasil Tintas, empresa de Matão, com a qual mantém parceria e atua como embaixador da marca.

Além dos murais, Arac também pinta telas e realiza oficinas de arte urbana. Em Araraquara, é responsável por diversas obras espalhadas pela cidade, incluindo a primeira empena de grafite da região, feita com apoio da prefeitura. Ele também organizou eventos coletivos, como o encontro de grafiteiros no muro do Clube Araraquarense, reunindo artistas de diferentes gerações.

Sobre o cenário atual, Arac acredita que a arte de rua vive um momento de amadurecimento e reconhecimento. O grafite, antes marginalizado, hoje é valorizado e incorporado à estética urbana. Ele ressalta a importância da ética entre os artistas e da preservação da cultura do grafite, que vai muito além da pintura em si.

Arac também reflete sobre o impacto das tecnologias digitais e da inteligência artificial na criação artística. Para ele, essas ferramentas podem servir como apoio, mas o valor do trabalho manual e autoral tende a crescer, justamente por sua autenticidade e singularidade.

O artista vê o futuro da arte de rua no Brasil com otimismo: mais estruturada, profissional e reconhecida. Seu objetivo é continuar ampliando o alcance de seu trabalho autoral e contribuir para o fortalecimento da cena artística urbana no país.

Tuesday, 20 January 2026

Conversas do Podcast Uniara com Max Carrasco - ex jogador de futebol

 

Sou natural de Belo Horizonte, Minas Gerais. Nasci em BH quando meu pai, Wilson Carrasco, ainda atuava pelo Cruzeiro. Vim de lá muito pequeno para Américo Brasiliense, onde fui criado com meus dois irmãos. Desde cedo, sempre adorei futebol — nasci praticamente com a bola debaixo do braço. Meu pai foi minha grande inspiração, e isso me levou a seguir o mesmo caminho.

Atuei em Américo Brasiliense na escolinha até os 12 ou 13 anos, depois fui para a Ferroviária, onde meu pai era treinador do Juniores. Fiquei lá por quase um ano, treinando e estudando em Araraquara. Meus pais sempre exigiram que eu mantivesse os estudos.

Com 16 para 17 anos, tive a oportunidade de ir para o Garça, através da empresa American Sports, que depois comprou o Marília. Fui aprovado no teste, mas o treinador me pediu para jogar como lateral-direito, embora eu fosse meia. Aceitei o desafio e comecei a trilhar meu caminho profissional.

Quando a empresa comprou o Marília, todos os jogadores do Garça foram levados para lá. O time subiu da segunda para a primeira divisão do Paulistão e manteve-se na Série C do Brasileiro. Eu ainda era juvenil, mas já treinava com o profissional.

Depois, passei pela Portuguesa, Itano e Atlético Sorocaba. Em 2004, voltei para a Ferroviária, que havia se tornado SAF. Fiquei três anos no clube, cursando Educação Física na Uniara. Fomos campeões da Copa Federação Paulista em 2006.

Em 2007, voltei ao Marília, onde meu pai também estava. Estreei no profissional sob o comando dele, em um jogo contra o Ituano. Fui eleito o melhor em campo e, a partir daí, minha carreira decolou. Enfrentei grandes clubes e cheguei a receber proposta do Málaga, da Espanha.

Depois, joguei no Grêmio Barueri, onde vivi uma grande fase. Subimos para a Série A e fomos campeões paulistas do interior em 2008. O clube tinha uma estrutura excelente, e trabalhei com grandes treinadores, como Márcio Araújo.

Mais tarde, atuei no Noroeste e depois fui para o Ipatinga, onde fiquei três anos. Fomos campeões mineiros do interior e vencemos o Cruzeiro na semifinal. Apesar das conquistas, o clube enfrentava sérios problemas financeiros, e até hoje tenho salários atrasados daquela época.

Em 2010, fui emprestado ao Japão, para o Vegalta Sendai. Vivi uma experiência marcante, pois estava lá quando ocorreu o terremoto e o tsunami. Foi uma situação de pânico, mas conseguimos retornar ao Brasil em segurança. Voltei ao Japão depois, mas sofri uma lesão na coluna e precisei passar por cirurgia.

Após a recuperação, retornei ao Ipatinga, mas a situação financeira era ainda pior. Depois, joguei no Vila Nova, Luverdense, Anápolis, Asa de Arapiraca e outros clubes. No Asa, enfrentei o Palmeiras em Londrina — o primeiro gol do Gabriel Jesus como profissional foi contra nós.

Trabalhei com grandes treinadores, mas o maior de todos foi meu pai. Ele me ensinou tudo — dentro e fora de campo. Joguei com atletas incríveis, como Renato Cajá, Fernandinho, Thiago Humberto e Val Baiano.

Encerrei minha carreira por desgaste mental, não físico. O futebol exige foco constante, e, no fim, o cansaço é mais psicológico do que corporal. Hoje, trabalho com categorias de base em Araraquara, junto ao Vica Sports, e priorizo estar perto da minha família.

O tempo que passei longe foi valioso, mas agora quero aproveitar o que realmente importa: estar com quem amo e retribuir tudo o que o futebol me deu.

Conversas do Podcast Uniara - Odair Peta - jornalista esportivo

 

Peta, jornalista araraquarense de coração, contou que chegou de São Paulo a Araraquara em 1993. Trabalhava com peças de tratores e decidiu mudar-se para o interior para criar os filhos. Montou uma loja de peças de trator no bairro Quitandinha, mas após um assalto e um golpe, perdeu o trator e ficou sem recursos. Mesmo assim, decidiu permanecer na cidade.

Por ser esportista, começou a jogar futebol em clubes locais como Melusa e Avar, o que o ajudou a criar amizades e se integrar à comunidade. Após recuperar o trator roubado, enfrentou dificuldades financeiras e começou a ajudar a esposa a vender salgados.

A virada aconteceu quando conheceu o professor Ylton Telaroli, dono de uma escolinha de futebol. Peta passou a trabalhar com ele e, posteriormente, assumiu a escolinha Chute Inicial Corinthians, que chegou a ter 700 alunos.

Durante os treinos, começou a filmar os jogos das crianças para corrigir os movimentos dos goleiros. Um dia, improvisou uma narração e foi elogiado por ter talento para o rádio. Em 1998, narrou a Copa Cultura de Futsal, evento que marcou o início de sua trajetória como narrador esportivo.

A partir daí, passou a filmar e narrar jogos amadores, chegando a realizar mais de 450 gravações. Foi convidado por Elídio Pinheiro para trabalhar na Rádio Brasil FM, onde aprendeu a operar mesa de som e criou o programa Esporte e Lazer. O sucesso foi tanto que o programa passou de duas para quatro horas de duração.

Depois, foi convidado por Virgílio Quintão para trabalhar na Rádio Morada do Sol, onde permaneceu por sete anos e meio. O programa era voltado ao esporte amador e recebia dezenas de ligações dos ouvintes. Peta organizava sorteios e eventos esportivos, chegando a realizar um programa de sete horas ao vivo com torneios e apresentações musicais.

Trabalhou ao lado de Wilson Luiz, narrador esportivo que considerava um professor e grande amigo. Juntos, chegaram a fazer transmissões de 12 horas seguidas.

Peta também teve forte envolvimento com o esporte amador de Araraquara, cobrindo diversas modalidades como atletismo, basquete, judô, taekwondo, tênis e bocha.

Sua relação com a Ferroviária começou quando seu filho jogava nas categorias de base. Ele doava uniformes e bolas para os times, mas acabou se afastando após sentir falta de reconhecimento e apoio da nova gestão.

Manteve boas relações com ex-jogadores como Donato, Julimar, Edmilson, Rosa, Hermínio e Bazani, com quem viveu muitas histórias. Recordou com carinho o treinador Armando Clemente, a quem ajudava em ações sociais e que faleceu pouco tempo após uma entrevista emocionante concedida a ele.

Peta lamenta o enfraquecimento do esporte amador em Araraquara, especialmente do futebol, que, segundo ele, “acabou” com o fim da liga e a falta de espaços adequados para treinos e jogos. Criticou a ausência de políticas públicas e a falta de união entre dirigentes e clubes.

Apesar das dificuldades, ele mantém viva a paixão pelo esporte e pela comunicação, lembrando com orgulho de sua trajetória construída com esforço, improviso e amor pelo que faz.

 

Monday, 19 January 2026

Conversas do Podcast Uniara - Ex Presidente da Associação Ferroviária de Esportes - Dr. Mario Joel Malara

 


Dr. Mário Joel Malara, ex-presidente da Associação Ferroviária, diretor de futebol, enfim, uma vida toda ligada à Associação Ferroviária de Esportes.

A honra é minha de receber, há muito tempo que eu não tenho relacionamento mais com o pessoal da Uniara e eu fico muito honrado com a presença dos senhores para conversar sobre a Ferroviária aqui. Sejam bem-vindos e estou à disposição dos senhores.

Já existia a paixão pela Ferroviária, porque a Ferroviária praticamente existia, mas ela tinha um campo muito antigo e disputava o Campeonato Paulista. Araraquara tinha quatro times profissionais: Ferroviária, Paulista Futebol Clube, São Paulo Futebol Clube e um time do DR que disputavam a segunda divisão. Os dérbis municipais eram disputadíssimos e com grande público.

Eu tinha um amigo, Antônio Salomão, e nós íamos juntos assistir à construção do estádio. Conheci o fundador da Associação Ferroviária, Dr. Antônio Tavares Pereira Lima, engenheiro-chefe da Fepasa em Araraquara. Ele viajava conosco para Bauru e era muito ligado ao Dr. Flávio Ferraz de Carvalho.

Lembro-me da ADA, dos dérbis com a Ferroviária. Eram disputadíssimos no antigo estádio municipal. A torcida da ADA era do pessoal do Carmo e a da Ferroviária do resto da cidade. Havia uma rivalidade constante. A ADA tinha uma camisa azul celeste muito bonita.

Eu já gostava da Ferroviária desde sempre. Primeiro fui torcedor, depois diretor. Entrei como diretor na época do Antônio Nogueira Gama. Fui convidado para participar da diretoria e acabei sendo presidente por influência do então prefeito Valdemar de Santi.

A Ferroviária era um clube artesanal financeiramente, vivia de patrocínios locais. Quando comecei, não havia patrocínio, nem propaganda em camisa ou campo. Sobrevivia das mensalidades dos sócios e da renda dos jogos.

A relação com Aldo Comito era excelente. Ele foi um dos grandes presidentes da Ferroviária, levou o time à primeira divisão duas vezes.

Contratar jogadores era difícil, pois já custava caro. Buscávamos amadores e formávamos jogadores na base. Grandes nomes nasceram dos clubes amadores da cidade. Às vezes íamos pessoalmente buscar jogadores, como o Fogueira em Rio Preto.

A renda dos jogos com clubes grandes era dividida e ajudava muito financeiramente.

Basani foi um marco na história da Ferroviária, jogador e depois treinador. Era honesto, religioso e ajudava a organizar o clube.

A pensão do São Geraldo dava muita despesa. Havia problemas de gestão, mas corrigimos. Os jogadores moravam lá. A Ferroviária perdeu a pensão por problemas trabalhistas e falta de resposta judicial.

O Lua já estava lá quando cheguei, uma figura folclórica. Foi mandado embora e depois readmitido após campanha no jornal.

As categorias de base eram bem cuidadas, com Basani à frente. Dali saíram jogadores como Douglas Onça e Valdir.

Minha relação com os jogadores era próxima. Fazíamos reuniões semanais. A maioria era da base, mas também havia jogadores de fora.

O diretor Álvaro Valdemar Colino Júnior ajudava muito, conhecia futebol e trazia jogadores.

A relação com a Federação Paulista era boa. O presidente Nabi Abi Chedid era meu amigo. Conseguimos manter a Ferroviária na Federação após problemas jurídicos.

Nunca paguei árbitros por fora. Houve um caso com José de Assis Aragão, que prejudicou a Ferroviária contra a Portuguesa. Fiz representação contra ele.

Acompanhei a campanha de 1983, quando a Ferroviária disputou a Taça de Ouro. O presidente era Antônio Parelli Filho, um apaixonado pelo clube.

Claudinho Macalé foi um dos craques daquele time.

Em 1985, o time tinha Paulo Martins, Serginho Dourado e Cardim. O Colino contratou muitos jogadores.

Tivemos bons jogadores como Fogueira e Bani.

Viajar com os jogadores era tranquilo, todos disciplinados.

Treinadores eram demitidos por resultados. Basani era o reserva e também treinador.

Sérgio Cléic foi meu treinador, um sujeito espetacular. Saiu para o Palmeiras após boa fase.

Mazinho veio do Santos, trazido por Colino. Um sujeito espetacular.

O vereador Mazinho, meu amigo, também foi uma figura marcante.

Dr. José Wellington Pinto foi um grande presidente e advogado, me ajudou muito.

Sinto falta de homenagens a figuras históricas de Araraquara, como Valdemar De Sant e José Wellington Pinto.

A Ferroviária perdeu parte de sua identidade ao se tornar uma S.A. Muitos torcedores se afastaram.

Eu não assisto aos jogos por emoção. Sofro muito.

A Ferroviária me deu alegrias, mas também muito sofrimento e decepção.

Minha família sofreu junto. Meu filho não gosta de futebol por causa disso.

Mas guardo com carinho tudo o que vivi pela Ferroviária.

Conversas do Podcast Uniara - Fabio Leite - ex jogador de futebol

 

Fábio Leite iniciou sua trajetória no futebol nas categorias de base da Ferroviária, em Araraquara. Antes disso, jogou por times da cidade, como o Palmeirinha, onde atuou por cerca de sete anos. Naquela época, os campos eram de terra e as condições bem diferentes das atuais, mas a paixão pelo esporte era o que movia os jovens atletas.

Em 1991, Fábio começou no futsal da Ferroviária e, dois anos depois, foi levado para o campo pelo então presidente Parelli, que o viu jogar como pivô e o convidou para atuar como centroavante. Aos 16 anos, ingressou nas categorias de base da Ferroviária, treinando com nomes importantes e, em 1996, chegou ao time profissional. Sua estreia foi contra o União São João de Araras, pelo Campeonato Paulista da Primeira Divisão.

Aquele ano, no entanto, foi difícil para o clube, que acabou sendo rebaixado. Fábio relembra que muitos jogadores experientes deixaram o time, e os jovens da base assumiram a responsabilidade de encerrar a temporada. Apesar das dificuldades, ele considera que o momento abriu portas para que novos talentos tivessem oportunidades no futebol profissional.

Após o término do contrato com a Ferroviária, Fábio seguiu para a Matonense, em 1997, onde viveu uma das fases mais marcantes da carreira. Sob o comando de Roberto Brida e, posteriormente, de Luiz Carlos Ferreira, conquistou o acesso e o título da Série A2 do Campeonato Paulista. Em 1998, foi levado por Ferreira para o São Caetano, junto com outros 14 jogadores da Matonense. Lá, participou de campanhas vitoriosas, conquistando títulos da Série A3 e da Série C do Campeonato Brasileiro.

Fábio permaneceu no São Caetano até 1999, quando sofreu uma lesão no joelho. Depois disso, passou por clubes como Barretos, Taubaté, Garça, Mirassol e São Carlense. Encerrou a carreira aos 28 anos, em 2003, após enfrentar dificuldades financeiras e problemas físicos. Ele conta que, em alguns clubes, chegou a jogar por renda, sem receber salário fixo, o que o levou a repensar o futuro.

Mesmo após pendurar as chuteiras, Fábio não se afastou do esporte. Formou-se em Educação Física e passou a atuar na área, mantendo o vínculo com o futebol por meio de projetos e escolinhas. Ele destaca que, na época em que jogava, as condições eram precárias: campos ruins, falta de estrutura médica e física, e pouca valorização dos atletas. Hoje, reconhece que o cenário melhorou, com mais profissionalismo, melhores salários e infraestrutura.

Entre os treinadores que mais o marcaram, Fábio cita Luiz Carlos Ferreira, conhecido como “rei do acesso”, pela capacidade de montar equipes competitivas e disciplinadas. Ele também relembra com carinho os companheiros de equipe e os momentos vividos em clubes do interior paulista, que, segundo ele, moldaram seu caráter e sua visão de vida.

Atualmente, Fábio participa do grupo de ex-atletas da Ferroviária, os Veteranos, que realiza jogos beneficentes e confraternizações pela região. Para ele, é uma forma de manter viva a amizade, o amor pelo futebol e a história construída dentro de campo.

“Sou grato pela minha carreira. Foi simples, mas digna. O futebol me ensinou muito sobre esforço, superação e companheirismo. E é isso que levo comigo até hoje”, conclui Fábio Leite.

 

Conversas do Podcast Uniara - Tadeu Alves - Repórter

 

O podcast Uniara recebe uma lenda do jornalismo esportivo araraquarense, Tadeu Alves, que compartilha sua trajetória e memórias marcantes do esporte local. Ele relembra o início de sua carreira na década de 1980, quando realizou sua primeira transmissão esportiva em Araraquara, ainda nos tempos em que o rádio era o principal meio de comunicação e as transmissões eram feitas com cabos e fios.

Tadeu conta que começou cobrindo corridas de pedestrianismo, o que hoje chamamos de atletismo, e aos poucos foi se aproximando das rádios locais, como a Rádio Cultura e a Rádio Morada do Sol. Sua primeira experiência como repórter de campo foi marcada por nervosismo e emoção, mas também por aprendizado e paixão pelo jornalismo esportivo.

Ele relembra momentos históricos da Ferroviária, destacando o quanto o time representa para Araraquara e para o futebol paulista. Fala sobre o orgulho de ver a bandeira da Ferroviária em lugares distantes, como Buenos Aires e Portugal, e ressalta a importância de preservar a memória e o valor histórico do clube.

Durante sua carreira, Tadeu acompanhou a ascensão da Matonense, que saiu da quarta divisão e chegou à elite do futebol paulista, e viveu experiências intensas, como sair de um estádio escoltado pela polícia após um jogo acirrado. Ele também recorda o convívio com dirigentes e jogadores, as dificuldades enfrentadas e as transformações do jornalismo esportivo ao longo dos anos.

Sobre a Ferroviária, Tadeu destaca o vínculo afetivo que vem desde a infância, já que seu pai era ferroviário. Ele relembra os tempos em que o estádio da Fonte Luminosa lotava, as arquibancadas de madeira, os treinos puxados e o entusiasmo da torcida. Cita nomes históricos como Bazani, Bebeto, Peixinho e Teia, artilheiro do Campeonato Paulista de 1969, mesmo competindo com Pelé.

O jornalista também comenta os altos e baixos da Ferroviária, os acessos e descensos, e a importância de valorizar o passado glorioso do clube. Ele defende a retomada da ligação entre o time e a população, lembrando que, no passado, a Ferroviária promovia ações em escolas e distribuía ingressos para atrair torcedores.

Tadeu observa que a modernidade e as transmissões televisivas afastaram o público dos estádios, e que é preciso resgatar o espírito comunitário do futebol. Ele lamenta a burocracia e as restrições que dificultam o acesso dos torcedores e critica a falta de liberdade da imprensa esportiva atual, que hoje tem acesso limitado aos treinos e entrevistas.

Com bom humor, relembra episódios curiosos, como entrevistas em vestiários, confusões com técnicos e dirigentes, e até um tapa recebido de um preparador físico após uma brincadeira com um jogador. Apesar dos desafios, ele afirma que o jornalismo esportivo é uma profissão apaixonante e essencial para a preservação da história do esporte.

Tadeu também fala sobre o futebol amador de Araraquara, que sempre foi um celeiro de talentos e base para a Ferroviária. Recorda jogos memoráveis entre Palmeirinha e Benfica, a antiga Liga Araraquarense de Futebol e o envolvimento da comunidade com os times locais. Defende que o futebol amador precisa ser valorizado novamente, pois é nele que nascem os grandes jogadores e se fortalecem os laços entre esporte e sociedade.

Ao final, Tadeu reforça a importância de respeitar o passado e de manter viva a memória esportiva de Araraquara. Para ele, o futebol é mais do que um jogo: é parte da identidade da cidade e da vida de quem o viveu intensamente, dentro e fora dos gramados.

Sunday, 18 January 2026

Conversas do Podcast Uniara - Chico Santoro - Arquiteto

  


Chico Santoro, arquiteto e amante da música popular brasileira, fala sobre sua trajetória e reflexões sobre arquitetura, urbanismo e música.

O arquiteto, pela sua gênese, tem uma ligação muito grande com a arte, a engenharia, as exatas e o social. É formado para dar soluções sociais à população de forma geral. No entanto, é pouco utilizado em construções de aspecto social, como grandes conjuntos habitacionais, que muitas vezes são padronizados e sem áreas verdes.

Para Chico, a arquitetura moderna ainda prevalece, mesmo em 2025. Ele cita Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas, Ruy Ohtake e Le Corbusier como grandes nomes. Acredita que o arquiteto deve criar, não seguir modas, pois a moda pode ser passageira e até “burra”.

Ele critica a falta de modernidade em muitos prédios brasileiros, que ainda utilizam elementos clássicos ultrapassados. Destaca o edifício Copan, de Niemeyer, como exemplo de arquitetura moderna e funcional.

Chico defende que um bom projeto não é necessariamente mais caro e que o arquiteto pode até economizar recursos ao cliente com um bom planejamento. Ele observa que muitas casas em condomínios são semelhantes, resultado de modismos e não de arquitetura verdadeira, que deve unir beleza e função.

Ao falar sobre o espaço urbano, critica a “arquitetura de campo de concentração”, com muros altos e cercas elétricas, reflexo da insegurança e da violência. Ele também comenta sobre a poluição visual causada por fios e postes nas cidades, defendendo o embutimento da fiação, ao menos nas áreas centrais.

Chico considera que as cidades brasileiras são feias por falta de planejamento. Cita Brasília como exemplo de cidade planejada e organizada. Para ele, o planejamento urbano é uma ferramenta essencial, mas depende da vontade política para ser efetivo.

Ele relembra sua experiência como secretário de planejamento, quando trabalhou na criação de leis para evitar a especulação imobiliária e melhorar a qualidade de vida urbana. Defende a importância de áreas verdes, permeabilidade do solo e fiscalização constante.

Chico cita o conceito de “acupuntura urbana”, de Jaime Lerner, que propõe pequenas intervenções capazes de transformar a cidade. Ele lamenta a perda da arborização em Araraquara e defende o replantio e a manutenção das árvores.

Sobre Curitiba, destaca o papel do IPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) e o legado de Jaime Lerner, que transformou a cidade em referência mundial de urbanismo. Para ele, Araraquara deveria ter um instituto semelhante, com técnicos dedicados exclusivamente ao planejamento urbano.

Chico acredita que é possível fazer boa arquitetura mesmo com poucos recursos, desde que haja planejamento e sensibilidade estética.

Além da arquitetura, Chico é apaixonado pela música popular brasileira. Ele conta que sua paixão começou ouvindo a Rádio Nacional e se consolidou com a chegada da Bossa Nova, especialmente com João Gilberto.

Ele apresenta o programa “A Bossa Brasileira” na Rádio Uniara desde 2005, dedicado à Bossa Nova e suas vertentes. O programa ultrapassou mil edições. Chico prepara pessoalmente as músicas e informações, valorizando os compositores e o contexto histórico de cada canção.

Para ele, a música popular brasileira perdeu espaço na mídia tradicional, que prioriza modismos e músicas fáceis. No entanto, acredita que ainda há espaço para a MPB nas redes sociais e plataformas digitais.

Chico cita novos artistas e produtores que mantêm viva a tradição da Bossa Nova e da boa música, como Gustavo Cisneiros e Arnaldo DeSouteiro. Ele acredita que a qualidade musical ainda existe, mas precisa de espaço e valorização.

Defende também a importância das escolas de música e dos instrumentistas, que hoje são mais numerosos e qualificados graças à formação técnica.

Por fim, reflete sobre o impacto da inteligência artificial na música, reconhecendo seu potencial, mas ressaltando que nada substitui a sensibilidade humana na criação artística.

Chico Santoro encerra destacando que tanto na arquitetura quanto na música, o essencial é unir técnica, beleza e função — e que o verdadeiro artista é aquele que cria com propósito e emoção.

Conversas do Podcast Uniara - Waguinho Fiorini - Jornalista

 

Waguinho Fiorini relembra com carinho sua trajetória com a Associação Ferroviária de Esportes. Sua relação com o clube começou ainda na infância, quando era apenas um torcedor de arquibancada. Ele recorda os tempos em que o estádio da Fonte Luminosa tinha arquibancadas de madeira e uma árvore próxima ao gol de entrada. Era o início dos anos 1970, e ele já acompanhava o time com paixão, vivendo alegrias e tristezas típicas do futebol.

Waguinho conta que a Ferroviária sempre teve grandes jogadores e times que davam orgulho à cidade de Araraquara. Naquela época, o estádio estava sempre lotado, independentemente do adversário. Havia uma relação muito próxima entre o clube e a torcida. A Ferroviária ia até as escolas, distribuía ingressos e conquistava novos torcedores. Foi assim que nasceu o amor de Waguinho pelo time.

Com o passar dos anos, ele percebeu que essa relação se esfriou. Hoje, os jogadores estão mais distantes da torcida, os treinos são fechados e o contato com o público diminuiu. Além disso, a facilidade de assistir aos jogos pela televisão e pelas plataformas digitais afastou parte dos torcedores do estádio.

A paixão pelo rádio surgiu cedo. Waguinho lembra que passava os domingos ouvindo transmissões esportivas, encantado com narradores como Fiore Gigliotti. Seu sonho era trabalhar em rádio, e em 2007 conseguiu realizar esse desejo ao fazer um curso de radialista. Em 2009, ingressou na equipe “Campeões da Bola”, da Rádio Cultura, onde permanece até hoje.

Ele começou como plantonista esportivo, função que exige acompanhar todos os campeonatos, regulamentos e resultados. Apesar de ser torcedor da Ferroviária, Waguinho aprendeu a separar o lado emocional do profissional. Mantém o equilíbrio ao comentar sobre o time, mesmo nos momentos difíceis.

Ao longo da carreira, recebeu elogios e críticas, mas sempre manteve o respeito. Recorda com emoção o telefonema do então presidente Mário Joel Malara, que o parabenizou por uma homenagem feita após uma vitória marcante da Ferroviária. Também viveu momentos de tristeza, como derrotas em finais, mas sempre manteve o profissionalismo no ar.

Sua relação com a torcida é de respeito e carinho. Muitos o reconhecem pela voz, já que durante anos ele trabalhou apenas no estúdio. Com o avanço das redes sociais, passou a ser mais conhecido visualmente. Ele lamenta, porém, a ausência de jovens nos jogos da Ferroviária. Acredita que o clube precisa se aproximar das escolas e das crianças, como fazia antigamente, para formar novos torcedores.

Waguinho defende que a Ferroviária resgate sua história e identidade. Sugere que o clube produza materiais educativos e promova encontros entre ex-jogadores e alunos, para que as novas gerações conheçam a importância da equipe para Araraquara. Ele acredita que o distanciamento atual entre torcida e clube também se deve à gestão moderna, com diretores e investidores de fora da cidade, que não têm vínculo afetivo com a Ferroviária.

Sobre o futebol atual, ele avalia que a Série A2 do Campeonato Paulista tem nível técnico baixo e que o time da Ferroviária poderia render mais, considerando o elenco entrosado e a boa campanha recente na Série C do Campeonato Brasileiro. Para ele, o regulamento da A2 é ingrato, pois o mata-mata pode eliminar equipes bem classificadas.

Waguinho acredita que a Ferroviária precisa montar um novo elenco para disputar a Série B do Campeonato Brasileiro, pois enfrentará adversários fortes e tradicionais. Na sua visão, o ideal seria o clube se manter na Série B nacional e na Série A1 do Paulista, consolidando-se nessas divisões.

Ele também comenta sobre as dificuldades do torcedor em frequentar o estádio. O futebol ficou caro: estacionamento, alimentação e ingressos pesam no bolso. Além disso, regras excessivas e abordagens rígidas afastam o público. Casos como o de torcedores impedidos de entrar com objetos simples, como jornais ou batons, mostram o quanto a experiência no estádio se tornou desgastante.

Mesmo com os desafios, Waguinho mantém o amor pelo rádio e pela Ferroviária. Ele acredita que o clube ainda pode resgatar o vínculo com a cidade e voltar a viver dias de glória, desde que valorize sua história, seus torcedores e suas raízes.

Friday, 16 January 2026

Conversas do Podcast Uniara - Marcos Vinte e cinco - torcedor da Associação Ferroviária de Esportes

 

Antônio Marcos, conhecido como 25, relembra sua trajetória marcada pela paixão pela Ferroviária e pelo futebol de Araraquara. Sua história começa nas categorias de base do União Esquina, sob o comando do lendário Tota, Washington Luiz da Silva, um nome importante para o futebol local. Ele recorda com carinho os tempos de treino nos campinhos próximos ao Tiro de Guerra, as amizades e os jogos com companheiros como Adrianinho, Adilson Rock, Dinho, Dudinha, Pitanga, Lelei e tantos outros que fizeram parte de sua juventude esportiva.

A ligação de 25 com a Ferroviária nasceu cedo. Sua mãe vendia pipoca no estádio e no Gigantão, e ele a ajudava, vendendo nas arquibancadas. Foi ali que surgiu a paixão pelo time e pela torcida. Ele lembra com emoção das dificuldades que enfrentaram, mas também da alegria de viver aquele ambiente. A Ferroviária, segundo ele, era “raiz”, e o estádio era um ponto de encontro da comunidade.

Com o tempo, 25 se envolveu com a torcida organizada Coração Grená, criada por amigos como Soró e João Sedho. Ele viajou por todo o interior acompanhando o time, mesmo nas fases mais difíceis, quando a Ferroviária disputava divisões inferiores. Foram anos de estrada, ônibus lotados, desafios e amor incondicional pelo clube. “Enquanto ela não subia, a gente não parava”, recorda.

As viagens eram marcadas por histórias curiosas e emocionantes. Ele lembra das caravanas para Catanduva, das idas a Limeira, das brigas e reconciliações com jogadores e técnicos, e da convivência intensa com outros torcedores. Mesmo quando o time não vivia bons momentos, o sentimento de pertencimento e orgulho pela Ferroviária nunca diminuiu. “Não fala mal da minha cidade e nem da Ferroviária”, afirma com firmeza.

25 também viveu o futebol de dentro do campo, como gandula. Foram anos de dedicação, trabalhando em jogos masculinos e femininos, em todas as categorias. Ele se orgulha de ter conhecido grandes nomes do futebol, como Felipão, Thiago Volpi, César Sampaio e Roque Júnior, e de ter vivido momentos marcantes, como o carinho e respeito que recebeu de alguns deles.

Entre as lembranças mais fortes, ele cita o episódio com o técnico João Martins, que, após um desentendimento, o chamou para pedir desculpas pessoalmente — um gesto que 25 guarda com gratidão. Também recorda com emoção o apoio da torcida e o reconhecimento que sempre teve na cidade: “Tem gente que nem me dá bom dia, mas fala da Ferroviária comigo”.

Mesmo após tantas alegrias, ele também enfrentou decepções. Uma das mais dolorosas foi quando, após um desentendimento com o goleiro Saulo durante um jogo, acabou sendo afastado de suas funções como gandula. “Foi o que mais me doeu, porque ser gandula era o que eu mais gostava. Eu vivia aquilo com amor”, conta. Apesar disso, ele mantém o orgulho de sua trajetória e o amor pela Ferroviária intactos.

A história de 25 é também a história de sua família. Sua mãe, dona Dirce, foi uma figura conhecida nas arquibancadas, vendendo pipoca por décadas. Sua filha e seus netos herdaram o amor pelo time. “São quatro gerações de ferroviários”, diz com emoção. Ele se lembra com carinho do tempo do basquete da Uniara, dos jogos no Gigantão e da convivência com figuras queridas da cidade, como o saudoso Fernandão.

Hoje, 25 carrega consigo o legado de uma vida dedicada à Ferroviária. Entre risadas, lágrimas e memórias, ele resume sua história com simplicidade e orgulho: “Eu vivi a Ferroviária. Vivi a torcida, vivi o campo, vivi o amor por esse time. E não me arrependo de nada. Só me arrependo de estar velho e não poder acompanhar mais”.

Conversas do Podcast Uniara - Marcos Ciochini - Jornalista esportivo

 

Marcos Ciochini contou que sua história no jornalismo esportivo começou de forma curiosa. Quando tinha cerca de 14 ou 15 anos, já era ouvinte assíduo de Zé Roberto, narrador conhecido em Araraquara. Durante as transmissões da Copa Cultura de Futsal, ele costumava acompanhar os jogos no Gigantão, no ginásio da pista e até no Clube 22, quando este tinha um time de basquete no Campeonato Paulista. Desde garoto, frequentava as cabines de transmissão e ajudava Zé Roberto com as escalações dos times — uma tarefa que, segundo ele, continua fazendo até hoje.

Sempre apaixonado por rádio, esporte e pela Ferroviária, Marcos viu esse interesse se transformar em profissão. Em 2000, após um acidente de carro sofrido por Zé Roberto, ele começou a ajudar a equipe de esportes, mesmo sem fazer parte oficialmente. Pouco tempo depois, recebeu a oportunidade de trabalhar na redação, auxiliando o saudoso Wagner Belini. Naquela época, o trabalho era bem diferente: não havia placares ao vivo na internet, e as informações vinham das transmissões de rádio de outras cidades.

Com o tempo, Marcos foi ganhando espaço. Seu primeiro teste como repórter aconteceu durante uma partida de basquete da Uniara. Nervoso, gravou e regravou até conseguir. A partir daí, começou a participar das transmissões e, desde então, já são 25 anos de parceria com Zé Roberto.

Ele lembra com carinho das viagens e das dificuldades enfrentadas no início da carreira, quando as transmissões eram feitas com equipamentos analógicos e as viagens para o interior eram longas e cansativas. Mesmo assim, guarda boas lembranças de cada cobertura, especialmente das partidas da Ferroviária, clube que aprendeu a amar desde criança.

Como setorista da Ferroviária desde 2014, Marcos comenta que o jornalismo esportivo mudou muito. Segundo ele, o futebol se tornou mais fechado e burocrático, com restrições de acesso a treinos e entrevistas. Ainda assim, elogia a atual gestão do clube pela boa relação com a imprensa.

Para ele, a distância entre o time e a torcida é um dos grandes desafios. Acredita que o marketing tem trabalhado para reaproximar o torcedor, mas que a cidade também precisa valorizar mais o esporte local.

Sobre sua relação com os torcedores, Marcos diz que é muito boa. Usa as redes sociais principalmente para divulgar o trabalho e manter contato com ouvintes e amigos. Ele também comenta as mudanças trazidas pela internet, que tornou o trabalho mais dinâmico, mas também mais desafiador, já que as informações circulam rapidamente.

Ao longo dos anos, Marcos construiu uma ampla rede de contatos com empresários, jogadores e dirigentes. Conta que, muitas vezes, as informações sobre contratações chegam primeiro por meio dessas fontes. Apesar disso, reconhece que lidar com jogadores é mais difícil, pois muitos preferem manter sigilo até que os contratos sejam oficializados.

Entre as histórias marcantes, ele lembra das dificuldades enfrentadas pela Ferroviária nas divisões inferiores, especialmente nas campanhas da Série B1 em 2001 e 2004, quando o time jogava em estádios sem estrutura. Também recorda viagens longas, como a ida a Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, para cobrir um jogo da equipe.

Marcos destaca que, apesar das transformações tecnológicas, o rádio continua tendo um papel especial. Para ele, ouvir o jogo no rádio é uma experiência única, que desperta a imaginação do ouvinte.

Sobre a torcida da Ferroviária, afirma que é fiel e apaixonada, embora pequena. Os torcedores mais assíduos estão sempre presentes, independentemente da fase do time. Ele mesmo cresceu no meio da torcida organizada Boca do Lixo e carrega esse amor até hoje, mesmo atuando como jornalista.

Entre os times que mais o marcaram, cita o de 2015, campeão da Série A2, e o de 2019, que chegou às quartas de final do Campeonato Paulista e foi eliminado pelo Corinthians nos pênaltis. Também lembra do time de 2016, que começou bem, mas se perdeu por problemas internos.

Marcos comenta ainda sobre a arbitragem, destacando a importância de dar mais estrutura e apoio psicológico aos árbitros, que muitas vezes não são profissionalizados e enfrentam pressões intensas. Ele cita o caso do amigo Thiago Duarte Peixoto, que teve a carreira abalada após um erro em um clássico, e defende que as federações ofereçam mais suporte aos profissionais da arbitragem.

Por fim, fala com entusiasmo sobre o futuro da Ferroviária. O novo centro de treinamento, que está sendo construído na estrada Araraquara-Américo Brasiliense, deve oferecer uma estrutura moderna, com quatro campos, alojamentos, hotel e miniestádio. Ele acredita que o clube tem potencial para fazer uma boa campanha na Série B do Campeonato Brasileiro, desde que mantenha a base e faça contratações pontuais.

Para Marcos, o importante é que a Ferroviária se mantenha firme, fortalecendo sua estrutura e sua relação com a torcida. Com humildade e trabalho, acredita que o clube pode voltar a ocupar o espaço que merece no futebol brasileiro.