Friday, 16 January 2026

Conversas do Podcast Uniara - Marcos Vinte e cinco - torcedor da Associação Ferroviária de Esportes

 

Antônio Marcos, conhecido como 25, relembra sua trajetória marcada pela paixão pela Ferroviária e pelo futebol de Araraquara. Sua história começa nas categorias de base do União Esquina, sob o comando do lendário Tota, Washington Luiz da Silva, um nome importante para o futebol local. Ele recorda com carinho os tempos de treino nos campinhos próximos ao Tiro de Guerra, as amizades e os jogos com companheiros como Adrianinho, Adilson Rock, Dinho, Dudinha, Pitanga, Lelei e tantos outros que fizeram parte de sua juventude esportiva.

A ligação de 25 com a Ferroviária nasceu cedo. Sua mãe vendia pipoca no estádio e no Gigantão, e ele a ajudava, vendendo nas arquibancadas. Foi ali que surgiu a paixão pelo time e pela torcida. Ele lembra com emoção das dificuldades que enfrentaram, mas também da alegria de viver aquele ambiente. A Ferroviária, segundo ele, era “raiz”, e o estádio era um ponto de encontro da comunidade.

Com o tempo, 25 se envolveu com a torcida organizada Coração Grená, criada por amigos como Soró e João Sedho. Ele viajou por todo o interior acompanhando o time, mesmo nas fases mais difíceis, quando a Ferroviária disputava divisões inferiores. Foram anos de estrada, ônibus lotados, desafios e amor incondicional pelo clube. “Enquanto ela não subia, a gente não parava”, recorda.

As viagens eram marcadas por histórias curiosas e emocionantes. Ele lembra das caravanas para Catanduva, das idas a Limeira, das brigas e reconciliações com jogadores e técnicos, e da convivência intensa com outros torcedores. Mesmo quando o time não vivia bons momentos, o sentimento de pertencimento e orgulho pela Ferroviária nunca diminuiu. “Não fala mal da minha cidade e nem da Ferroviária”, afirma com firmeza.

25 também viveu o futebol de dentro do campo, como gandula. Foram anos de dedicação, trabalhando em jogos masculinos e femininos, em todas as categorias. Ele se orgulha de ter conhecido grandes nomes do futebol, como Felipão, Thiago Volpi, César Sampaio e Roque Júnior, e de ter vivido momentos marcantes, como o carinho e respeito que recebeu de alguns deles.

Entre as lembranças mais fortes, ele cita o episódio com o técnico João Martins, que, após um desentendimento, o chamou para pedir desculpas pessoalmente — um gesto que 25 guarda com gratidão. Também recorda com emoção o apoio da torcida e o reconhecimento que sempre teve na cidade: “Tem gente que nem me dá bom dia, mas fala da Ferroviária comigo”.

Mesmo após tantas alegrias, ele também enfrentou decepções. Uma das mais dolorosas foi quando, após um desentendimento com o goleiro Saulo durante um jogo, acabou sendo afastado de suas funções como gandula. “Foi o que mais me doeu, porque ser gandula era o que eu mais gostava. Eu vivia aquilo com amor”, conta. Apesar disso, ele mantém o orgulho de sua trajetória e o amor pela Ferroviária intactos.

A história de 25 é também a história de sua família. Sua mãe, dona Dirce, foi uma figura conhecida nas arquibancadas, vendendo pipoca por décadas. Sua filha e seus netos herdaram o amor pelo time. “São quatro gerações de ferroviários”, diz com emoção. Ele se lembra com carinho do tempo do basquete da Uniara, dos jogos no Gigantão e da convivência com figuras queridas da cidade, como o saudoso Fernandão.

Hoje, 25 carrega consigo o legado de uma vida dedicada à Ferroviária. Entre risadas, lágrimas e memórias, ele resume sua história com simplicidade e orgulho: “Eu vivi a Ferroviária. Vivi a torcida, vivi o campo, vivi o amor por esse time. E não me arrependo de nada. Só me arrependo de estar velho e não poder acompanhar mais”.

Conversas do Podcast Uniara - Marcos Ciochini - Jornalista esportivo

 

Marcos Ciochini contou que sua história no jornalismo esportivo começou de forma curiosa. Quando tinha cerca de 14 ou 15 anos, já era ouvinte assíduo de Zé Roberto, narrador conhecido em Araraquara. Durante as transmissões da Copa Cultura de Futsal, ele costumava acompanhar os jogos no Gigantão, no ginásio da pista e até no Clube 22, quando este tinha um time de basquete no Campeonato Paulista. Desde garoto, frequentava as cabines de transmissão e ajudava Zé Roberto com as escalações dos times — uma tarefa que, segundo ele, continua fazendo até hoje.

Sempre apaixonado por rádio, esporte e pela Ferroviária, Marcos viu esse interesse se transformar em profissão. Em 2000, após um acidente de carro sofrido por Zé Roberto, ele começou a ajudar a equipe de esportes, mesmo sem fazer parte oficialmente. Pouco tempo depois, recebeu a oportunidade de trabalhar na redação, auxiliando o saudoso Wagner Belini. Naquela época, o trabalho era bem diferente: não havia placares ao vivo na internet, e as informações vinham das transmissões de rádio de outras cidades.

Com o tempo, Marcos foi ganhando espaço. Seu primeiro teste como repórter aconteceu durante uma partida de basquete da Uniara. Nervoso, gravou e regravou até conseguir. A partir daí, começou a participar das transmissões e, desde então, já são 25 anos de parceria com Zé Roberto.

Ele lembra com carinho das viagens e das dificuldades enfrentadas no início da carreira, quando as transmissões eram feitas com equipamentos analógicos e as viagens para o interior eram longas e cansativas. Mesmo assim, guarda boas lembranças de cada cobertura, especialmente das partidas da Ferroviária, clube que aprendeu a amar desde criança.

Como setorista da Ferroviária desde 2014, Marcos comenta que o jornalismo esportivo mudou muito. Segundo ele, o futebol se tornou mais fechado e burocrático, com restrições de acesso a treinos e entrevistas. Ainda assim, elogia a atual gestão do clube pela boa relação com a imprensa.

Para ele, a distância entre o time e a torcida é um dos grandes desafios. Acredita que o marketing tem trabalhado para reaproximar o torcedor, mas que a cidade também precisa valorizar mais o esporte local.

Sobre sua relação com os torcedores, Marcos diz que é muito boa. Usa as redes sociais principalmente para divulgar o trabalho e manter contato com ouvintes e amigos. Ele também comenta as mudanças trazidas pela internet, que tornou o trabalho mais dinâmico, mas também mais desafiador, já que as informações circulam rapidamente.

Ao longo dos anos, Marcos construiu uma ampla rede de contatos com empresários, jogadores e dirigentes. Conta que, muitas vezes, as informações sobre contratações chegam primeiro por meio dessas fontes. Apesar disso, reconhece que lidar com jogadores é mais difícil, pois muitos preferem manter sigilo até que os contratos sejam oficializados.

Entre as histórias marcantes, ele lembra das dificuldades enfrentadas pela Ferroviária nas divisões inferiores, especialmente nas campanhas da Série B1 em 2001 e 2004, quando o time jogava em estádios sem estrutura. Também recorda viagens longas, como a ida a Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, para cobrir um jogo da equipe.

Marcos destaca que, apesar das transformações tecnológicas, o rádio continua tendo um papel especial. Para ele, ouvir o jogo no rádio é uma experiência única, que desperta a imaginação do ouvinte.

Sobre a torcida da Ferroviária, afirma que é fiel e apaixonada, embora pequena. Os torcedores mais assíduos estão sempre presentes, independentemente da fase do time. Ele mesmo cresceu no meio da torcida organizada Boca do Lixo e carrega esse amor até hoje, mesmo atuando como jornalista.

Entre os times que mais o marcaram, cita o de 2015, campeão da Série A2, e o de 2019, que chegou às quartas de final do Campeonato Paulista e foi eliminado pelo Corinthians nos pênaltis. Também lembra do time de 2016, que começou bem, mas se perdeu por problemas internos.

Marcos comenta ainda sobre a arbitragem, destacando a importância de dar mais estrutura e apoio psicológico aos árbitros, que muitas vezes não são profissionalizados e enfrentam pressões intensas. Ele cita o caso do amigo Thiago Duarte Peixoto, que teve a carreira abalada após um erro em um clássico, e defende que as federações ofereçam mais suporte aos profissionais da arbitragem.

Por fim, fala com entusiasmo sobre o futuro da Ferroviária. O novo centro de treinamento, que está sendo construído na estrada Araraquara-Américo Brasiliense, deve oferecer uma estrutura moderna, com quatro campos, alojamentos, hotel e miniestádio. Ele acredita que o clube tem potencial para fazer uma boa campanha na Série B do Campeonato Brasileiro, desde que mantenha a base e faça contratações pontuais.

Para Marcos, o importante é que a Ferroviária se mantenha firme, fortalecendo sua estrutura e sua relação com a torcida. Com humildade e trabalho, acredita que o clube pode voltar a ocupar o espaço que merece no futebol brasileiro.

 

Conversas do Podcast Uniara: Cidinha Pavanelli

 

A história do Colorado começou na Câmara Municipal, na Praça Pedro Toledo, que antigamente era um grande espaço aberto. Ali, Tota e outros treinadores se juntaram e acabaram montando o time do Colorado. É uma história muito grande, com várias pessoas que participaram. Depois, o Tota foi para um lado, outro foi para outro, e acabou permanecendo o Zé Alemão.

O Colorado nasceu nas bases da Praça Pedro Toledo, lá pelos anos 60. O sonho do Zé sempre foi ter um campo próprio, um espaço para as crianças, porque ele vivia pedindo emprestado campos para treinar. Às vezes combinava jogos e, de última hora, tinha que voltar porque outro time ocupava o campo.

O Zé chegou a ficar na Atlética, junto com meu irmão Adair, e tomava conta do Colorado e da escolinha da Atlética. O forte do Colorado foi o futsal, porque o Zé trabalhava no Clube Araraquarense e tinha acesso à quadra. Ele também trabalhou na Liga de Futebol, a LAF, onde organizava campeonatos e torneios com tudo muito bem planejado — horários, punições, juízes, mesários.

Ele era muito organizado e fazia tudo com amor. Lavava os uniformes sozinho, cuidava de tudo. Morava no CECAP e, mesmo com dificuldades, levava as crianças para jogar em vários lugares. Às vezes faltava gasolina, e ele fazia de tudo para não deixar de cumprir os compromissos.

O Zé era uma figura. Brincalhão, mas muito sentimental e carente. Tinha uma amizade muito forte com o Clemente, o Maú, o Mil e o Tonhão. Eles competiam dentro de campo, mas fora dele eram grandes amigos.

O Colorado sempre teve esse espírito de união. Hoje, quem continua o trabalho sou eu, com o apoio do David, meu vice-presidente. Mantemos o mesmo princípio do Zé: não cobrar das crianças. O objetivo é social, não financeiro.

Atualmente, temos 87 crianças e uma lista de espera com mais de 100. Atendemos meninos e meninas de diferentes realidades, sem distinção. Todos são tratados da mesma forma. As mães ajudam com pequenas contribuições voluntárias, e o professor Diogo é voluntário.

O Colorado tem um campo próprio, construído com muito esforço. Fizemos mutirões, compramos terra e grama, e montamos toda a estrutura com ajuda da comunidade. Ainda estamos melhorando o espaço, buscando patrocínios para construir vestiários e banheiros.

As crianças aprendem não só futebol, mas também disciplina e respeito. Antes de cada amistoso, cantamos o Hino Nacional. Exigimos juiz, mesário e ficha de jogo, porque acreditamos que o esporte deve ser levado a sério.

O Colorado revelou grandes jogadores, como Marinho Rã e Antônio Careca. O Zé tinha uma relação próxima com o Careca, que nunca esqueceu suas origens e sempre manteve contato.

O Zé faleceu em 14 de fevereiro de 2015. Foi um momento muito difícil, mas o legado dele continua vivo. Eu prometi que manteria o sonho dele, e é isso que faço até hoje.

O Colorado é mais do que um time. É um projeto de vida, um espaço de inclusão e aprendizado. As crianças aprendem valores, convivem com diferentes realidades e crescem com respeito e amor ao esporte.

Agradeço a todos que apoiam o Colorado e convido para conhecer nosso trabalho. O sonho do Zé Alemão continua vivo em cada criança que veste a camisa vermelha e branca.

Thursday, 15 January 2026

Conversas do Podcast Uniara: Alessandro Gianinni - Ciclista

 

Olá pessoal, vamos dar início a mais um podcast Uniara. Hoje o podcast recebe aqui Alessandro Giannini, membro da comissão de arbitragem da Federação Paulista de Ciclismo e participante da Federação.

É um prazer enorme estar aqui, poder falar um pouco sobre a trajetória do ciclismo não só araraquarense, como paulista e nacional, e algumas das funções que a gente desempenha em prol do nosso esporte.

Na verdade, para eu ser um dos precursores está longe, porque a história do ciclismo remete a bem antes da década de 40, quando começaram a surgir os primeiros ciclistas e a primeira equipe organizada de Araraquara, que começou a participar das provas com o próprio Anésio Argenton, seu Adolfo Féccio e outros. Esses foram de fato os precursores.

Nos anos 90, iniciei no ciclismo como atleta, exatamente em 1990, e competi até o final da década. A partir de 1995, assumi a equipe de ciclismo da Fundesport de Araraquara, permanecendo até o final de 2001 no comando da equipe como técnico e coordenador.

Em 1995, no meu primeiro ano de faculdade, assumi a equipe como técnico, uma função que estava vaga, e iniciei o trabalho com muita vontade e interesse.

O ciclismo não é um esporte muito difundido no Brasil, e minha entrada foi por paixão. Quando criança, vi uma prova em São José do Rio Preto, minha cidade natal, e aquilo me encantou. Meu pai prometeu uma Caloi 10 quando eu tivesse 10 anos, e essa bicicleta marcou minha história.

Comecei a treinar com 15 para 16 anos e competir aos 16. Na época, não havia muitos técnicos especializados, e o treinamento era baseado na experiência dos mais velhos.

Minhas referências foram o Anésio Argenton, em Araraquara, e grandes nomes internacionais como Greg LeMond e Miguel Indurain. O Anésio foi um ídolo local, um pistar de velódromo, e tive o privilégio de conviver com ele, já que morávamos próximos.

Ele foi um dos maiores ciclistas do Brasil e do mundo em sua especialidade, velocidade e quilômetro contra o relógio, sendo considerado um dos 100 maiores atletas do século 20 pela revista Época.

Nos anos 90, o ciclismo era mais rústico. Treinávamos com base na tentativa e erro, sem tecnologia, sem protetor solar, sem acompanhamento nutricional. Com o tempo, fui me especializando em fisiologia do exercício, unindo o conhecimento acadêmico à prática.

Fui um dos pioneiros no desenvolvimento de testes de campo de lactato para ciclismo no país, junto com o grupo de estudos da UFSCar.

Organizar competições em Araraquara sempre foi tranquilo, pois a cidade tem tradição no ciclismo. A Via Expressa sempre foi o palco principal das provas.

Nos anos 80 e 90, o número de participantes era muito maior. Provas chegavam a reunir 400 ciclistas. Hoje, há mais modalidades e divisões, como mountain bike, BMX e ciclismo de estrada, o que dispersa os atletas.

A prova “Troféu Anésio Argenton” é uma das mais tradicionais, criada em 1998 e oficializada em 2001 como lei municipal. Desde 2009, integra a Copa São Paulo de Ciclismo, válida para o ranking paulista e, em alguns anos, nacional.

A Copa São Paulo é o maior campeonato de ciclismo por etapas do país, com provas em várias cidades. Já tivemos até 17 etapas por temporada.

O ciclismo tem várias modalidades: estrada, pista (velódromo), mountain bike e BMX. Cada uma exige treinos e bicicletas específicas.

A formação de base é essencial. Quanto antes o jovem começa, melhor. Com o tempo, o técnico identifica se ele tem perfil para velocidade, montanha ou resistência.

Minha entrada na Federação Paulista foi natural, resultado do trabalho com a Copa São Paulo e da experiência acumulada. Hoje, além de organizador, sou comissário de arbitragem.

A Copa São Paulo revelou grandes talentos, como Lauro Chaman, campeão mundial de paraciclismo, e jovens que hoje competem na Europa, como Vitor César, da equipe Movistar.

As provas da Copa acontecem em cidades de diferentes portes, como Araraquara, São Carlos, Bauru, Barretos e Lençóis Paulista. As distâncias variam conforme o circuito, com média de 50 km para as categorias principais.

Como árbitro, controlo as provas, registro voltas, fiscalizo fugas e chegadas, e uso sistemas de fotofinish para definir resultados. É um trabalho intenso e detalhado, com apoio de motos e rádios.

A arbitragem é desafiadora, mas gratificante. Lidar com atletas, pais e o público exige paciência e atenção.

Sobre o doping, infelizmente ainda existe, principalmente em provas de alto nível. As substâncias mais comuns são a eritropoetina (EPO) e os esteroides anabolizantes. O controle é feito pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, mas nem todas as provas têm fiscalização.

O ciclismo evoluiu muito, mas o desafio de manter o esporte limpo e profissional continua.

Foi um prazer compartilhar um pouco dessa trajetória e da história do ciclismo paulista e nacional.

 

Conversas do Podcast Uniara - Gil Leite - Fotografo e jornalista

Olá, pessoal. Vamos para mais um podcast Uniara. Hoje o podcast Uniara recebe Gil Leite, ícone da cultura araraquarense.

Gil conta que nasceu e foi criado em Araraquara, no centro da cidade, em meio a máquinas de costura, pois seu avô era técnico nessa área. Ele mora até hoje no mesmo local, onde há mais de 70 anos funciona a loja da família.

Seu interesse pelo jornalismo começou ao visitar o jornal Diário de Araraquara, de Roberto Barbieri. Mais tarde, foi convidado por Paulo Silva para escrever uma coluna social no jornal Imparcial, onde chegou a ter duas páginas diárias e três aos domingos, totalizando cerca de 900 páginas publicadas.

Gil relembra que frequentava muito o Clube Araraquarense, o que o inspirou a criar uma página dedicada ao clube. Ele recebia mais de mil fofocas por semana, que eram selecionadas e publicadas. O sucesso foi tanto que as edições se esgotavam nas bancas, mas também geravam polêmicas, o que acabou levando à suspensão da coluna.

Após isso, Gil criou sua própria revista, chamada Viver, lançada em 1984. A revista era feita de forma artesanal: ele escrevia os textos à máquina, levava para Ribeirão Preto para composição e fotolito, e depois imprimia. As capas traziam personalidades locais, e a revista se tornou um marco da cultura araraquarense.

Além da revista, Gil produziu o Guia de Ruas de Araraquara, lançado em 1988, totalmente desenhado à mão por uma equipe de desenhistas. O guia foi um sucesso entre taxistas e moradores, esgotando rapidamente.

Gil também é conhecido por seu vasto acervo fotográfico, com mais de 75 mil fotos históricas de Araraquara, incluindo registros de clubes, bares, festas e futebol amador. Ele digitaliza e compartilha essas imagens em suas redes sociais, preservando a memória da cidade.

Entre os locais mais marcantes de sua trajetória estão o Clube 22 de Agosto, o Clube Araraquarense, o Melusa e bares lendários como o Barril, Café Nice e Bar Casais. Ele relembra com carinho a efervescência cultural dos anos 1980, quando a vida social girava em torno desses espaços.

No esporte, Gil jogou futebol de salão por 30 anos e acompanhou de perto o futebol amador da cidade, registrando times, jogadores e campeonatos. Seu trabalho resultou em uma revista de 300 páginas sobre a história do futebol araraquarense, com fotos e relatos desde os anos 1950 até os 2000.

Hoje, Gil continua ativo, publicando fotos e memórias nas redes sociais, onde mantém milhares de seguidores. Ele colabora com páginas como Araraquara Encantadora, de Eduardo, e segue promovendo a cultura e a história local.

Reconhecido pela Câmara Municipal de Araraquara, Gil Leite é considerado um verdadeiro guardião da memória da cidade, preservando e divulgando a história de seus personagens, clubes, bares e tradições.

“Meu foco sempre foi Araraquara e região. É importante valorizar quem constrói a cidade, quem faz parte da nossa história”, afirma Gil.


Conversas do Podcast Uniara - João Comito - filho do ex-Presidente da Associação Ferroviária de Esportes - Aldo Comito

 


Olá, pessoal. Hoje o podcast Uniara recebe João Comito, filho do lendário ex-presidente da Associação Ferroviária de Esportes, Dr. Aldo Comito.

Eu que te agradeço a lembrança. Fiquei muito feliz e é sempre bom relembrar, ainda mais quando se trata do meu pai. Ele não foi muito reconhecido, até hoje não é, e não sei por quê. Política é sempre complexa. Então fico muito feliz quando há esse tipo de lembrança.

Meu pai sempre foi uma figura agregadora. Gostava de reunir pessoas, montar grupos, criar eventos. Desde jovem, ele participava de tudo: ajudava no asilo, no Instituto dos Cegos, no CESC, sempre ativo. Foi diretor do time do Santana, junto com o Dr. Cross e outros. Nunca jogou bola, jogava mal, mas era um grande dirigente.

Ele virou presidente da Ferroviária em 1965, quando o time foi rebaixado. Era ferroviário, trabalhava na estrada de ferro, e já tinha um histórico lá dentro. Foi discípulo e amigo de Pereira Lima, fundador da Ferroviária. Tinham uma amizade de irmãos. Pereira Lima era uma sumidade, falava vários idiomas, tinha memória incrível e era muito inteligente.

Meu pai se espelhava nele. Quando Pereira Lima faleceu, foi um baque. Lembro que meu pai ficou muito abalado. Eles tinham uma relação de admiração mútua.

Meu pai aposentou cedo da Fepasa, com 46 anos, e foi estudar Direito na primeira turma da Uniara. Depois abriu uma imobiliária. Era um homem ativo, sempre criando e participando.

Ele montou grandes times na Ferroviária. Presidiu de 1965 a 1970 e voltou em 1985 como gerente de futebol, montando outro timaço. Tinha trânsito com empresários e jogadores, tratava diretamente com eles, sem intermediários. Revelou muitos talentos, como o Nei, que veio de Nova Europa.

Meu pai era muito econômico e honesto. Quando viajava com a diretoria, comiam pão com mortadela para não gastar o dinheiro do clube. Ele nunca me deu uma camisa da Ferroviária, porque achava que não devia tirar do time. As camisas eram reutilizadas, lavadas e passadas para o próximo jogo.

Fui gandula da Ferroviária em 1968 e 1969. Entrei em campo com o time e vi grandes jogadores de perto, como Pelé, Gerson e Pedro Rocha. Tenho fotos com eles. Vi o Pelé jogar várias vezes, inclusive em 1971, quando a Ferroviária ganhou do Santos por 4 a 1.

Como gandula, vivi muitas histórias. Uma vez, quase fui expulso por causa do Marinho Peres, da Portuguesa. Outra vez, fiz um “gol” acidental: a bola entrou por fora da rede, e eu chutei outra bola para dentro. O juiz deu o gol, e a Ferroviária empatou o jogo.

Meu pai tinha ótimo relacionamento com árbitros. Era político, educado, sabia lidar. Mandava frutas e presentes para o vestiário. Em 1966, quando a Ferroviária subiu para a primeira divisão, ele descobriu que o jogo estava armado para o 15 de Piracicaba ganhar. Foi até a Federação e exigiu que Armando Marques apitasse. A Ferroviária empatou o primeiro jogo e ganhou o segundo, subindo de divisão.

Ele tinha trânsito com todos os grandes clubes e dirigentes. Chegou a ser cotado para presidente da Federação Paulista, mas não quis se mudar para São Paulo.

Ganhou o troféu de melhor presidente de 1966, oferecido pela Folha de São Paulo. Sob sua gestão, a Ferroviária foi tricampeã do interior (1967, 1968 e 1969).

A diretoria era formada por nomes como Dr. Wellington Pinto, Dr. Augusto Cardillo, Dr. Lawand, Walter Ferreira, Genaro Granata, Vicente Miceli, Antônio de Pádua Lopes, Dorival Silvestre e Carlos Cotinho.

Ele tinha relação próxima com os jogadores, quase paternal. Cuidava da pensão no bairro São Geraldo, onde os atletas moravam. Ia pessoalmente resolver problemas, buscar jogadores na estação, garantir que tudo estivesse certo.

Trouxe grandes times para Araraquara, como Cruzeiro, Internacional e até o Napoli da Itália, que perdeu de 4 a 0 aqui. O goleiro era o lendário Dino Zoff, que veio, mas não jogou.

Em 1967, trouxe a atriz Jaqueline Mirna, estrela da TV Record, para dar o pontapé inicial em um jogo contra o São Paulo. A cidade parou. Houve festa na Praça Pedro de Toledo e recepção no restaurante Jimba.

Meu pai sempre promoveu eventos para atrair público. Fazia sorteios, promoções, desfiles. A Ferroviária sempre teve dificuldade de encher o estádio, mas ele dava um jeito.

Os jogadores recebiam em dia. Era tudo no fio do bigode. A Ferroviária era respeitada, revelava craques e mantinha uma estrutura sólida.

O futebol naquela época era mais romântico. A bola era pesada, o uniforme de algodão, o campo irregular. Mesmo assim, os jogadores eram geniais. O Pelé, por exemplo, jogava em qualquer condição e seria craque em qualquer época.

Meu pai cuidava até da grama do estádio. Soltava cabras no campo para aparar a grama naturalmente.

A Ferroviária era o orgulho da cidade. E meu pai, Dr. Aldo Comito, foi um dos maiores dirigentes da história do clube — um homem de visão, honestidade e amor pelo esporte.

 

Conversas do Podcast Uniara - Edimar Claro - Goleiro do futebol amador de Araraquara

 

 

Edmar foi goleiro de vários times de Araraquara e região. Sempre foi apaixonado por futebol desde pequeno. Morava no Quitandinha, onde havia um campo e um time local. O Antônio Raimundo, conhecido como Baixinho, o convidou para jogar, e assim começou sua trajetória no futebol amador. Apesar de não ser muito alto, tinha habilidade no gol e se destacou. Foi campeão em 1974 pelo Quitandinha, quando o time subiu de divisão.

Trabalhou em Campinas, na Robert Bosch, e jogava pelo time da empresa. Depois, foi contratado pelo Primavera de Indaiatuba, onde jogou campeonatos regionais. Recebia para jogar, mesmo não sendo profissional. Posteriormente, voltou para Araraquara e passou a jogar pelo Santana Futebol Clube, onde viveu uma das melhores fases da carreira. O Dr. Croch, presidente do clube, era uma figura muito querida e incentivava os jogadores com pequenas recompensas.

Edmar também jogou pelo Paulista, clube presidido por Mazinho e Dr. Alonso, ambos grandes incentivadores do futebol amador. Recorda-se de um jogo beneficente contra o time dos Milionários, de São Paulo, em que enfrentou Garrincha. A seleção amadora venceu por 1 a 0, e Edmar foi o goleiro titular.

Entre as lembranças marcantes, destaca a final de 1979 entre Santana e Tamoio, no Estádio Municipal, com público de mais de mil pessoas. O jogo terminou 3 a 2 para o Tamoio, em uma partida transmitida por Wilson Luiz e Osnei Montanari. Edmar guarda até hoje fitas com a narração desse jogo.

A arbitragem era intensa e, muitas vezes, polêmica. Os árbitros locais, como Tutu e Santo Gileno, eram conhecidos e respeitados, mas também havia desconfianças, o que levou à vinda de árbitros de outras cidades. A Liga Araraquarense de Futebol organizava os campeonatos e julgava os jogadores em caso de infrações.

Edmar lembra com carinho dos treinadores e dirigentes que marcaram época, como Clemente, Zé Alemão e Tota, que revelaram muitos talentos. O futebol amador era movido por paixão, e os jogadores jogavam por amor à camisa. Os treinos eram raros; a maioria dos times se reunia apenas no dia do jogo.

Ser goleiro no futebol amador era um desafio. Os campos eram irregulares, e muitas vezes sem grama. Edmar conta que jogou em campos onde um goleiro não via o outro, e que em algumas fazendas o público ficava bem próximo, incentivando e até provocando os jogadores.

Disputou várias finais pelo Santana, mas só foi campeão amador pela Atlética, jogando ao lado de grandes nomes como Coca, Pita e Leonel. Depois, continuou jogando nos campeonatos do Clube Náutico, onde foi campeão e muito respeitado. Mesmo sem ser sócio, era sempre convidado para jogar, até que comprou um título e permaneceu por muitos anos participando das competições.

Edmar também disputou a Copa Interbairros, representando o São José, e lembra com saudade da época em que o futebol amador era forte e movimentava a cidade. Hoje, lamenta a falta de campos e o fim dos grandes clubes amadores, substituídos por mini campos.

Para ele, o futebol mudou muito. Antigamente, havia amor à camisa e comprometimento. Hoje, os jogadores pensam mais na parte financeira. Ainda assim, reconhece o trabalho das escolinhas e projetos sociais que mantêm viva a tradição do futebol em Araraquara.

Com bom humor, Edmar recorda as viagens de caminhão para jogos em fazendas, as festas após as partidas e as histórias curiosas do futebol amador. Para ele, foi um tempo de muita amizade, paixão e aprendizado — uma época inesquecível da vida e da história esportiva de Araraquara.

 

 

 

 

Conversas do Podcast Uniara - Renata Crespi - Bailarina

 

Renata Crespi conta que seus pais eram cantores de coral e que seu primeiro contato com a dança foi aos três anos, quando ganhou uma caixinha de música com uma bailarina girando. Encantada, começou a imitar a bailarina e, em uma apresentação do coral, entrou rodopiando com flores nas mãos. O maestro, impressionado, sugeriu aos pais que ela estudasse balé.

A partir daí, iniciou sua trajetória. Foi para Ribeirão Preto, onde um tio artista a encaminhou para uma escola de dança. Mais tarde, em Araraquara, começou a estudar com Cleusa de Souza Dias, bailarina do Teatro Municipal de São Paulo, e descobriu sua grande paixão.

Aos 12 anos, recebeu uma proposta para dar aulas em Taquaritinga. Com a autorização de um juiz, começou a lecionar e, no ano seguinte, fundou o Balé Renata Crespi.

Renata relembra que, naquela época, Araraquara era uma cidade conservadora, mas sua escola foi bem recebida. Ela destaca que o espaço sempre teve um ambiente familiar e acolhedor, onde a dança é o centro, mas o afeto e a união são fundamentais.

Com o tempo, o balé clássico foi se transformando e incorporando novas vertentes, como o balé neoclássico, a dança contemporânea e o sapateado. Renata ressalta que hoje a dança é para todos os corpos e que a rigidez do passado deu lugar à liberdade de expressão.

Ela explica que, embora o balé clássico seja a base de todas as danças, cada aluno encontra seu próprio caminho. Alguns seguem para o profissionalismo, outros dançam por prazer. Para os que desejam seguir carreira, a dedicação é intensa, com muitas audições e desafios.

Renata também fala sobre o papel do artista e as dificuldades de reconhecimento e patrocínio. Para ela, o artista é um trabalhador como qualquer outro, mas ainda luta por valorização. Mesmo assim, ela se orgulha de seus 50 anos de escola e de ter formado gerações de bailarinos e profissionais.

A coreógrafa compartilha histórias sobre o processo criativo, que pode surgir de qualquer lugar — de uma paisagem, de uma lembrança ou até de uma frase. Conta que já criou espetáculos inspirados em cenas do cotidiano, como as estações do ano representadas pelas esculturas do cemitério de Araraquara.

Durante a pandemia, adaptou-se e produziu espetáculos virtuais, aprendendo sobre vídeo e edição para manter viva a arte da dança. Em 2023, comemorou o jubileu de ouro da escola com um espetáculo sincronizado com cortina de LED, resultado de meses de trabalho e criatividade.

Renata acredita que criar é um ato divino. Para ela, dançar é se conectar com Deus e com a própria essência. Apesar de também ser diretora e professora, afirma que nada se compara à emoção de estar no palco.

Leitora assídua, diz que suas ideias surgem de livros, revistas, gibis e até bilhetes de restaurante. Ensina seus alunos a ler e a transformar histórias em movimento, incentivando a criatividade e a expressão pessoal.

Além da escola, Renata atua há mais de 12 anos em um projeto social, onde usa a dança como ferramenta de transformação. Lá, trabalha temas como respeito, convivência e superação, ajudando crianças e adolescentes a se expressarem e acreditarem em si mesmos.

Ela faz questão de não diferenciar alunos bolsistas dos demais, acreditando que todos devem ser tratados com igualdade e dignidade.

Renata também compartilha experiências internacionais, como o período em que estudou na Rússia e na Suécia, e fala sobre suas inspirações — entre elas, Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov.

Para ela, a dança é uma linguagem universal que ensina disciplina, respeito e sensibilidade. E, acima de tudo, é uma forma de curar almas.

Renata encerra dizendo que, se tivesse seguido o sonho de ser médica, talvez curasse corpos, mas que, com a dança, curou muito mais corações.

Wednesday, 14 January 2026

Conversas do Podcast Uniara: Josafa Dantas - Músico

 



Muito obrigado. Eu fico muito honrado com esse convite, poder falar um pouco da minha trajetória musical e da minha vida aqui em Araraquara, a cidade que escolhi para morar e fazer minha vida profissional.

Eu represento um pouco da cultura das músicas de barzinho de Araraquara. Atravessamos os anos 80, 90 e 2000. Tenho toda uma trajetória desenvolvida aqui.

A minha história com a música começa desde criança. Eu vivia muito em casa pela minha deficiência visual. Tive catarata congênita, fiz uma cirurgia e fiquei com uma deficiência bastante profunda. Isso me deixou muito em casa, e eu queria fazer coisas. Começou mais ou menos com Hermeto Pascoal. Eu pegava facas, garfos, colheres e ficava batucando. Improvisava batucando. Eu queria ser baterista naquela época.

Eu fazia essas brincadeiras batendo faca nas cadeiras de madeira. Era interessante porque precisava ser uma faca e uma colher, ou uma faca e um garfo, porque isso dava sons diferentes. Eu nem conhecia Hermeto Pascoal na época e já tinha essa percepção sonora.

Comecei cantando em casa, depois participei de festivais de calouros na minha cidade. Sou sul-mato-grossense, de Paranaíba. Morei também em Cassilândia, depois passei por Ilha Solteira, São Paulo e Três Lagoas. Em 1985 vim para Araraquara, onde de fato comecei minha vida profissional. Vim para fazer mestrado em Letras, mas acabei não concluindo porque comecei a trabalhar com música em bares.

O primeiro bar em que trabalhei em Araraquara foi o Texas Bar, que ficava na Rua Itália, esquina com a Avenida Brasil. Comecei cantando ali com a ajuda da minha queridíssima Jusara Vargas, que também estava começando a cantar naquela época.

Meu pai me deu um violão quando eu tinha uns 12 anos. Fiquei emburrado porque queria uma bateria. Mas acabei aprendendo com um vizinho as primeiras notas e comecei a tocar violão. Participei de festivais de calouros, tirava notas baixas porque estava mudando a voz. Cantava músicas do lado B, aquelas que as pessoas não conheciam.

Nunca fui muito de estudar violão. Hoje me acompanho porque é necessário, mas sou mais da emoção. Gosto mesmo é de cantar. Quando comecei a tocar em bares, fui me entrosando com músicos como Bonini, Ailton Bonini, Johnny e Abi. Formamos uma banda e tocamos bastante tempo. Depois, quando eles seguiram outros caminhos, fui obrigado a tocar e cantar sozinho.

Nos anos 80, com o surgimento do rock nacional, tocávamos muito em banda. Depois voltei a trabalhar sozinho. Tenho também uma banda de samba, o Samba Trio, com César Marelo e João Vieira. Tocamos sambas antigos de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros.

Curiosamente, eu não gostava muito de samba. Aprendi a cantar e tocar com o tempo, ouvindo João Gilberto e outros mestres. Fiz apresentações em Sescs de várias cidades e no projeto Choro das Águas da Secretaria de Cultura.

Meu repertório é variado: MPB, pop rock e um pouco de internacional. Quando se toca em bar, é preciso navegar por todos os estilos. Isso ajuda a criar uma linguagem própria.

Nos anos 80, tocar na noite era muito diferente. Havia muitos bares e liberdade para cantar o que quiséssemos. Hoje, o público quer ouvir sempre as mesmas músicas. Para sobreviver, é preciso equilibrar o repertório: 70% de músicas conhecidas e 30% de músicas que gostamos.

Tenho 40 anos de carreira na noite e continuo trabalhando. Acredito que é possível mostrar ao público que existe um universo musical além do que toca nas rádios e TVs.

Já fui apresentador de rádio, no programa Estúdio, na Rádio Uniara, no início dos anos 2000. Entrevistava artistas de várias áreas.

Hoje, há muitos músicos bons, mas é preciso garimpar. As plataformas digitais ajudam a descobrir novos talentos. Ainda há grandes nomes da MPB produzindo, e os bares continuam tocando muito dos anos 80.

Sou intérprete, não compositor. Já rabisquei algumas coisas, mas nunca finalizei. Tenho vontade de gravar um projeto com compositores locais.

Minhas influências são muitas: comecei ouvindo Jovem Guarda — Roberto Carlos, Leno, Lílian — e depois conheci Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola. Milton foi um divisor de águas, me ensinou a soltar a voz.

O mercado musical em Araraquara é competitivo. Há muitos músicos, mas poucos espaços para MPB e pop rock. O samba e o pagode voltaram com força.

Trabalho com equipamentos de qualidade, porque acredito que o som é essencial. Os cachês poderiam ser melhores, mas a alegria de cantar compensa.

A Secretaria de Cultura tem projetos importantes, como o Choro das Águas e apresentações em feiras. Os músicos concorrem por editais e precisam ter MEI. Isso garante transparência e abre portas para outros editais.

Nos restaurantes, a MPB ainda tem espaço. O samba domina os bares, mas a MPB resiste. Muitos músicos têm outras profissões e conciliam com a música.

Hoje ensaio mais do que antes, para manter o repertório afiado. Esquecer letras é natural com o tempo, mas o importante é continuar.

Viver de música no Brasil é difícil. Os cachês são baixos e o mercado é restrito. A grande mídia massifica o gosto popular, e as rádios tocam pouco do que é novo e autoral.

Ainda assim, há muitos compositores bons surgindo. O problema é a visibilidade. A inteligência artificial traz novas questões — já existem vozes criadas digitalmente —, mas acredito que a música humana, feita com emoção, sempre terá seu espaço.

As plataformas digitais são práticas e acessíveis, mas ainda não sei como funcionam financeiramente. Gosto de ouvir vinis e plataformas, cada um tem seu valor.

O futuro da música noturna em Araraquara depende da economia e da valorização da cultura. Gostaria que houvesse mais espaços para estilos diferentes, mas sou realista: o cenário deve continuar como está.

Os bares que mais marcaram minha trajetória foram o Texas Bar, o Revanche e o Celeiro. No Texas, tive liberdade total e até fiz uma noite brega. No Revanche, toquei com banda. No Celeiro, fiquei muitos anos, e foi um dos lugares mais importantes da minha carreira.

Minha relação com os empresários sempre foi boa. Tive poucos problemas com pagamento. Uma vez, não recebi e “paguei” o cachê bebendo whisky no bar.

Hoje, sigo cantando, com a mesma paixão de sempre. Represento a cultura noturna de Araraquara, com muito orgulho, e fico feliz em poder contar essa história.