Ele
já era aposentado, bem de vida e dono do próprio tempo. Ela, uma jovem que
alimentava um desejo antigo, quase cinematográfico: sempre sonhara em fazer
amor em um hotel. Já conhecia motéis de pernoite, casas de todos os tipos e os
assentos dos mais variados modelos de carros. Mas achava que hotel tinha outra
classe, outro charme. De tanto sussurrar a ideia no ouvido dele, o homem acabou
cedendo.
Era
uma noite de sábado castigada pelo frio. O ponto de encontro marcado foi a
praça central da cidade. Como o dia era especial, ela resolveu fazer charme e
atrasar — queria se sentir desejada, a "tal". O plano funcionou, mas
custou caro à paciência dele: esperou por quase uma hora sob o vento gelado, o
que só fez aumentar seu apetite e sua irritação. Quando ela finalmente surgiu,
a cena se armou. Ele ficou nervoso, falou alto, gesticulou, brigou com o vento.
Passada a tempestade, o estômago reclamou e ele a convidou para jantar antes do
destino final.
Homem
casado e conhecido na região, ele sabia que não podia frequentar qualquer
esquina. A solução era a Taverna do Alemão: um lugar discreto, afastado do
centro, de comida excelente. Acima de tudo, o Alemão era um túmulo. O
cinquentão já havia levado outras tantas mulheres ali e o proprietário nunca
abrira o bico; não seria agora, acompanhado daquela jovem deslumbrante, que o
velho taberneiro mudaria de hábito.
Na
mesa, os pedidos foram feitos:
Ele:
Espaguete robusto.
Ela:
Peixe assado, regado a vinho branco seco.
A
conversa flutuou entre amenidades. Curiosa, ela tentava cavar os problemas
dele, mas o homem, reticente, esquivava-se mudando de assunto. Diante da
insistência dela, ele desconversava no gogó enquanto, por baixo da mesa,
passava lentamente a mão pelas pernas da amante.
—
Nós já vamos, querido. Não seja afobado — disse ela, com uma meiguice
calculada.
Ao
pagarem a conta, veio o jogo do esconde-esconde social. Ela tentou segurar sua
mão; ele a recolheu rapidamente para o bolso. Ela tentou enlaçar seu braço; ele
se esquivou e disparou com os olhos brilhando: — Hoje quero comê-la da cabeça
aos pés!
Ela
o olhou de soslaio, reticente, e caminharam até o carro estacionado logo ao
lado.
O trajeto
foi engolido por um silêncio denso, quebrado apenas pela música baixa do rádio.
A expectativa flutuava no ar. Ao cruzarem as portas do tão sonhado hotel, ele
assumiu o controle: dirigiu-se à recepção, pegou a chave e, num gesto de posse,
abraçou-a pela cintura enquanto apertava o botão do elevador.
A
campainha soou e as portas metálicas se abriram. O mundo dele caiu em segundos.
Saindo
do elevador, alegre e abraçada com dois rapazes, estava a sua própria sobrinha.
O choque foi mútuo e congelou o tempo no saguão. Tio e sobrinha se encararam no
mais absoluto flagrante de suas vidas secretas.
Antes
que qualquer palavra pudesse arruinar os dois lados, a jovem agiu rápido: levou
o dedo indicador à boca, selando um pacto mudo. Ele, com os olhos ainda
arregalados de espanto, baixou a cabeça lentamente. Quando a levantou,
sustentou o olhar e piscou de volta para ela, repetindo o gesto de silêncio.
A
porta do elevador se fechou novamente, deixando para trás a moral da família e
abrindo caminho para a cumplicidade.
