Tuesday, 26 May 2026

Ele, ela e o silêncio

 


Ele já era aposentado, bem de vida e dono do próprio tempo. Ela, uma jovem que alimentava um desejo antigo, quase cinematográfico: sempre sonhara em fazer amor em um hotel. Já conhecia motéis de pernoite, casas de todos os tipos e os assentos dos mais variados modelos de carros. Mas achava que hotel tinha outra classe, outro charme. De tanto sussurrar a ideia no ouvido dele, o homem acabou cedendo.

Era uma noite de sábado castigada pelo frio. O ponto de encontro marcado foi a praça central da cidade. Como o dia era especial, ela resolveu fazer charme e atrasar — queria se sentir desejada, a "tal". O plano funcionou, mas custou caro à paciência dele: esperou por quase uma hora sob o vento gelado, o que só fez aumentar seu apetite e sua irritação. Quando ela finalmente surgiu, a cena se armou. Ele ficou nervoso, falou alto, gesticulou, brigou com o vento. Passada a tempestade, o estômago reclamou e ele a convidou para jantar antes do destino final.

Homem casado e conhecido na região, ele sabia que não podia frequentar qualquer esquina. A solução era a Taverna do Alemão: um lugar discreto, afastado do centro, de comida excelente. Acima de tudo, o Alemão era um túmulo. O cinquentão já havia levado outras tantas mulheres ali e o proprietário nunca abrira o bico; não seria agora, acompanhado daquela jovem deslumbrante, que o velho taberneiro mudaria de hábito.

Na mesa, os pedidos foram feitos:

Ele: Espaguete robusto.

Ela: Peixe assado, regado a vinho branco seco.

A conversa flutuou entre amenidades. Curiosa, ela tentava cavar os problemas dele, mas o homem, reticente, esquivava-se mudando de assunto. Diante da insistência dela, ele desconversava no gogó enquanto, por baixo da mesa, passava lentamente a mão pelas pernas da amante.

— Nós já vamos, querido. Não seja afobado — disse ela, com uma meiguice calculada.

Ao pagarem a conta, veio o jogo do esconde-esconde social. Ela tentou segurar sua mão; ele a recolheu rapidamente para o bolso. Ela tentou enlaçar seu braço; ele se esquivou e disparou com os olhos brilhando: — Hoje quero comê-la da cabeça aos pés!

Ela o olhou de soslaio, reticente, e caminharam até o carro estacionado logo ao lado.

O trajeto foi engolido por um silêncio denso, quebrado apenas pela música baixa do rádio. A expectativa flutuava no ar. Ao cruzarem as portas do tão sonhado hotel, ele assumiu o controle: dirigiu-se à recepção, pegou a chave e, num gesto de posse, abraçou-a pela cintura enquanto apertava o botão do elevador.

A campainha soou e as portas metálicas se abriram. O mundo dele caiu em segundos.

Saindo do elevador, alegre e abraçada com dois rapazes, estava a sua própria sobrinha. O choque foi mútuo e congelou o tempo no saguão. Tio e sobrinha se encararam no mais absoluto flagrante de suas vidas secretas.

Antes que qualquer palavra pudesse arruinar os dois lados, a jovem agiu rápido: levou o dedo indicador à boca, selando um pacto mudo. Ele, com os olhos ainda arregalados de espanto, baixou a cabeça lentamente. Quando a levantou, sustentou o olhar e piscou de volta para ela, repetindo o gesto de silêncio.

A porta do elevador se fechou novamente, deixando para trás a moral da família e abrindo caminho para a cumplicidade.