Sunday, 26 April 2026

"As coisas tão mais lindas"

 


Os lábios vermelhos acendem a noite como um farol em meio à penumbra. Há algo de hipnótico nesse contraste com os cabelos pretos, lisos, que caem como véu sobre os ombros. Não há imaginação que resista a essa presença — ela não precisa dizer nada, basta existir. As noites têm sido longas nos últimos dias. Talvez seja o cansaço, talvez seja o fascínio. 

Há quem diga que o tempo se estende quando algo ou alguém ocupa demais o pensamento. E ela ocupa. Com seus gestos contidos, com o olhar que parece medir o mundo antes de se entregar a qualquer palavra.

Os óculos, de armação fina, são quase uma provocação. Revelam mais do que escondem. Há neles um brilho de quem lê o que os outros não percebem, de quem entende o silêncio e o transforma em discurso. Intelectual, sim, mas não fria. Há fogo por trás da lógica, há desejo disfarçado de serenidade.

Talvez seja essa a essência do mistério: a firmeza de propósito que não se explica, apenas se sente. Ela caminha com a segurança de quem sabe o que quer, mas deixa no ar a dúvida se o que quer é ser compreendida ou apenas admirada.

E assim, entre o vermelho dos lábios e o negro dos cabelos, a noite se prolonga. O relógio insiste em avançar, mas o pensamento insiste em ficar. Porque há presenças que não passam — apenas se transformam em lembrança, em crônica, em desejo que se escreve sozinho.

 

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