Wednesday, 22 August 2007

Lábios cor de sangue

Elas se prepararam como se fossem ir à festa. Salto alto, chapinha no cabelo, batom nos lábios e bolsa a tiracolo. Saíram de casa rumo ao ponto de ônibus. No caminho, um carro passou em baixa velocidade e cheio de rapazes. Um deles mais afoito fez beicinho para chamar a atenção das meninas. Leandra, a mais velha, fuçou na bolsa, tirou um calibre trinta e oito e apontou para o carro. Um dos rapazes viu a arma, pôs as mãos sobre a cabeça e o carro saiu em disparada. Leandra olhou a arma, assoprou o cano, caiu na gargalhada e disse à Marcela:
_ Esses caras não são de nada mesmo. E ainda tem a coragem de fazer biquinho. Que vão todos se foderem. Isso sim! Bando de idiotas. Guardou a arma, ajeitou o cabelo e saiu andando.
Marcela ficou calada. Nem esboçou um sorriso. Quando chegaram ao ponto, Marcela disse à Leandra:
_ Você faz o motorista. Eu faço o cobrador. Entendido?
Leandra simplesmente concordou balançando a cabeça. As duas sentaram no ponto, cruzaram as pernas. Marcela tirou um pequeno estojo de maquiagem da bolsa, retocou a maquiagem, mordeu os lábios para repassar o batom, guardou e ficou pacientemente esperando a lotação.
Quando esta chegou, estava lotada. Leandra disse:
_ É perigoso demais a gente pegar este bonde!
Marcela respondeu:
_ Viver é perigoso. Vamos nessa!
O motorista abriu a porta. Leandra sacou a arma, colocou-a na cabeça do motorista e lhe disse:
_ Não quero uma palavra, entendeu. Isso é um assalto. Diz Leandra com firmeza. Leandra olha para Marcela e faz sinal com a cabeça apontando o cobrador.
_Vamos logo! Diz Leandra para Marcela.
Um passageiro que estava ao lado, saca o rosário do bolso e começa a cantilenar aves-marias sem parar. Marcela diz para ele:
_ É melhor você parar se não ela não vai ser capaz de lhe salvar. Cale a boca. É serviço rápido. Fast-food, entendeu?
O motorista olhou atentamente a arma de Leandra, mas não se moveu. Uma senhora de idade que estava ao lado disse em voz alta:
_ É o fim do mundo. Até vocês?
Leandra respondeu prontamente:
_ Cala a boca tiazinha. Se não lhe mando para a terra do pé junto rapidinho, está ouvindo?
O cobrador assustado falou à Marcela:
_ Eu só tenho cinco reais em dinheiro. O resto é passe.
Marcela não falou nada ao cobrador apenas pegou o dinheiro e os passes em um saco plástico e ordenou o motorista que parasse. Quando ambas desceram do ônibus um policial que estava dentro do ônibus sacou a arma e quando foi atirar a arma estava travada. Apenas um tiro conseguiu dar. A arma caiu no chão. Marcela e Leandra se olharam e deram um tiro para cima.

Monday, 20 August 2007

Diálogo entre quase amantes

_Você acha que não vai me prejudicar, agindo dessa forma? Perguntou Daniela olhando nos olhos de Benito.
_E porque você acha que eu a prejudicaria? Respondeu Benito retribuindo o olhar.
_Você sabe que eu sou casada. E isso me afetará muito se você continuar agindo dessa forma! Falou Daniela com a voz bem baixa.
_De que forma? Respondeu Benito se aproximando de Daniela.
_ A única coisa que penso em lhe dar é o meu silêncio. Falou Benito colocando o indicador sobre a boca.
_ Não posso me aproximar mais de você. Você sabe disso! Falou Daniela colocando a mão sobre os ombros de Benito.
_ Você pode escolher, entendeu, Dani! Respeitarei qualquer que seja a sua posição. Vou ficar magoado e triste se tiver que ficar longe de ti, mas, ficarei. Disse Benito, colocando a mão sobre o rosto.
_ Vai ser difícil para mim também ficar longe de você. Você tem a capacidade de aumentar a minha auto-estima. Eu gosto disso. Me sinto paquerada, desejada e você me faz sentir sempre melhor. Eu gosto de ficar lhe procurando. Sempre quero saber se você esté me olhando. Sabe, não tenho ciúmes de ti, por incrível que pareça. Fiquei magoada quando passou a me ignorar. Fingir que eu não existia. Não me contive. Tive que falar com você. Disse Daniela apreensiva.
_ Eu não quero servir somente para aumentar a sua auto-estima! E eu como é que fico? Respondeu Benito, colocando as mãos sobre o peito.
_ Eu estou assustada. Você chega assim e diz sem mais nem menos que está apaixonado por mim! Eu não estava preparada para isso. Você me entende? Respondeu Daniela fazendo cara de aflita.
_ Só fiquei muito brava uma vez contigo. Uma vez que passei por você e você nem me olhou. Eu até bati firme com o pé no chão para ver se chamava a sua atenção e você nem aí...nem me deu trela. Fiquei muito brava. Falou Daniela com ternura.
_ Eu vou tirar você da minha vida! Respondeu Benito parecendo estar nervoso.
_ Você ficou dois meses sem aparecer. E quando vem quer que eu fique jogando confete para cima de você. Eu vou mesmo é fazer de tudo para tirar você da minha vida, mesmo que você nunca tenha entrado. Disse Benito, segurando na mão de Daniela.
_ Nós nunca tivemos nada. Você sabe disso, Benito! Não pode me obrigar a nada. Retrucou Daniela nervosa.
_ Por isso mesmo é que de agora em diante...quero que você fique com o seu marido...Benito retrucou nervoso.
Daniela olhou bem no olho de Benito. Deu dois passos, beijou-lhe a boca e lhe deu um abraço.
_ O que você pretende com isso, Daniela! Perguntou Benito.
_ Para você não me esquecer e sempre achar que terá a chance de ter algo comigo. É sempre...nosso eterno jogo de sedução. Respondeu Daniela sorrindo.
_ Não vou servir de massagista para o seu ego inflado. Disse desapontado Benito.
_ Eu sei que você não me resiste. Basta eu olhá-lo nos olhos e pronto. Você se derrete todo. Respondeu Daniela com empáfia.
_ Eu não teria tanta certeza. Falou Benito coçando a cabeça. Eu nunca me interessei em saber o número do seu celular. Nem ao menos o seu endereço de internet.
_ Eu jamais os daria à você. Tenho a certeza de que você seria daqueles que ficaria me amolando o tempo todo com estória de homem apaixonado. Disse Daniela segurando o celular.
Benito se aproxima de Daniela, a agarra sobre a cintura e lhe dá um beijo. Daniela tenta se esquivar, mas Benito a segura com força.
_ Me solte seu cretino, idiota. Eu sou uma mulher casada. Falou Daniela tentando empurrar Benito.
_ Isso não faz a menor diferença. Eu já lhe disse que não tenho ciúmes de você ou de quem quer que seja. Respondeu Benito confiante.
_ Eu preciso ir embora, você quer anotar o número do meu celular? Disse Daniela se aproximando de Benito.




Friday, 17 August 2007

Não me chame de amor


Antonio disse à Beatriz:
_ Meu amor, venha cá por favor, quero lhe mostrar algo.
Beatriz respondeu:
_ Eu não sou o seu amor e por favor, não me chame de benzinho. Que coisa mais idiota. Eu tenho nome, você não sabe?
Antonio disse:
_ Como você é estúpida. Eu não aguento mais esse seu jeito de ser.
Antonio anda até Beatriz a abraça fortemente e diz:
_ Por que você me trata tão mau assim? Será que eu mereço isso? Antonio beija a boca de Beatriz.
_ Esqueça isso e vamos continuar nossas compras. Respondeu Beatriz.
_ Eu estou querendo fazer o financiamento daquele importado. O que você acha? Eu tenho a certeza de que vamos ficar bem vistos. Andando de carro importado e zero. Vamos ser outros na vida a partir de agora. Disse Beatriz.
_ Pena que é financiado. Se ao menos conseguíssemos dar aquela entrada de cinquenta por cento. Respondeu Antonio colocando a mão direita no bolso da calça.
_ É, mas não temos. E não é por isso que vou deixar de andar em um carro zero. Podemos pagar em prestações de mil reais. Eu trabalho, você trabalha e pagamos tranquilos. O tempo passa e nem vamos ver, quando olharmos, já estará quitado. Disse eufórica, Beatriz.
_ É...mas o carro já estará velho até lá. Respondeu Antonio.
_ Como você é pessimista, Antonio. Vire essa boca prá lá. Respondeu nervosa Beatriz.
_ Todo mundo compra carro para pagar a perder de vista. Porque temos que ser diferentes? Fala Beatriz decidida.
_ É só uma questão de opinião. Só isso. E como você está grossa hoje! Por que falar assim comigo? Retrucou Antonio.
_ Como você é inseguro, Antonio. Disse Beatriz passando-lhe a mão sobre a cabeça.
_ Tem que ser decidido. Saber o quer quer na vida. Entendeu? Beatriz fala com complacência.
Antonio pega na mão de Beatriz e diz:
_ Sabes que eu a amo, não sabe?
_ Eu já lhe disse que não sou o seu amor, por favor! Hoje podemos estar juntos, amanhã não tenho certeza. Beatriz fala fazendo gestos e nervosa.
_ Não diga isso, vamos estar sempre juntos. Não me vejo sem você! Diz Antonio com olhar de apaixonado.
_ Que é isso Antonio. De-repente a fila pode andar ou para mim ou para você e daí as coisas mudam. Diz Beatriz com olhar de pena.
_ Agora, vamos rápido que eu ainda preciso pagar a prestação do celular que está atrasada. E se eu não pagar hoje vai ter muito juros e não estou a fim de ficar dando meu dinheiro pra ninguém.
_ Saiba que a minha grana acabou. Não tenho mais nem um tostão em minha conta. Diz Antonio resignado.
_ Não tem problema, não. Eu tenho dinheiro na minha. Diz Beatriz.



Friday, 3 August 2007

Por acaso o encontro



Ele já era aposentado e bem de vida quando resolveu sair com ela para a prática do amor. Ela, sempre sonhou em fazer amor em um hotel. Já havia freqüentado motéis, casas de todos os tipos e os mais variados modelos de carros, mas, sempre achou que em hotel fosse diferente. De tanto falar em seu ouvido, ele acabou aceitando a idéia.
Era noite de sábado e fazia muito frio. Ambos combinaram de se encontrar na praça central da cidade. Como chegara o tão esperado dia, ela para se sentir a tal, resolveu atrasar. Ele a esperou por quase uma hora e já estava com o apetite acentuado. Quando ela chegou, ele ficou nervoso. Falou alto, gesticulou, brigou com o imponderável, mas convidou-a para ir jantar antes de partirem ao destino.
Ele era casado e não podia freqüentar qualquer lugar na cidade, então, resolve levá-la na taverna do Alemão. Lugar discreto, longe do centro e segundo ele, a qualidade da comida é excelente, além de ter certeza de que o Alemão não irá comentar a passagem dele por aquelas bandas, ainda mais acompanhado daquela beleza de mulher, pois já havia estado lá com outras tantas sem que o Alemão abrisse o bico, então, não deveria se preocupar com esse detalhe.
Ele pediu espaguete. Ela, peixe assado, acompanhado de vinho branco e seco. Conversaram amenidades. Ela quis saber sobre os seus problemas. Ele, reticente, mudava sempre o assunto. Ela insistia. Ele desconversava e por baixo da mesa passava lentamente a mão sobre as pernas dela.
_ Nós já vamos querido, não seja afobado! Ela diz demonstrando meiguice.
Ele paga a conta. Ela tenta pegar em sua mão. Ele tira rapidinho e a coloca no bolso. Ela tenta pegar em seu braço. Ele se esquiva e diz:
_ Hoje quero comê-la da cabeça aos pés!
Ela o olha reticente e ambos caminham em direção ao carro estacionado ao lado. O silêncio se fez presente no carro, apenas a música ao fundo os acompanha. Quando chegam ao hotel ele pede a chave à recepcionista. Ele a abraça e chama o elevador. Quando a porta se abre ele vê a sua sobrinha saindo abraçada com dois rapazes. Ambos se olharam e a sobrinha colocou o indicador sobre a boca fazendo sinal de silêncio. Ele com cara de espantado, abaixou a cabeça lentamente e quando a levantou piscou para ela imitando o gesto.

Wednesday, 1 August 2007

A lotação


Ela se dirigiu ao ponto de ônibus. Era aproximadamente seis hora da tarde. O movimento de carros era grande. A fila para pegar o ônibus já estava composta por pelo menos vinte pessoas. Entrou na fila com duas sacolas de supermecado recheadas de compra. No ombro, carregava a bolsa com seus pertences. O ônibus demorava a chegar e a fila cada vez mais aumentando. Não podia perder aquele ônibus, afinal, havia hora para pegar o outro que dá acesso à sua casa.
O ônibus veio lotado. O motorista até parou um pouco distante para que não entrasse mais ninguém. Restava às pessoas esperar o próximo. Os mais afoitos e nervosos despejavam impropérios à mãe do motorista. Largou uma das sacolas no chão, abriu a bolsa e retirou o maço de cigarro de marca barata, acendeu-o e deu uma baforada nervosa. O homem que estava à sua frente torceu o nariz e deu uma cusparada no chão. Ela percebeu a ojeriza, mas, nem deu bola. Mexeu novamente na bolsa e tirou o celular mais moderno. Não falou nada, apenas abriu, verificou alguma coisa, fechou-o novamente e o guardou.
Batia o pé direito no chão demonstrando impaciência. Acabou o cigarro, pegou novamente a sacola que estava no chão e reclamou com a pessoa mais próxima:
_ Como está demorando este maldito, não é mesmo?
A pessoa não respondeu, apenas a olhou atenta. O ônibus chegou, o motorista abriu a porta e quando ela foi embarcar com as sacolas, uma delas ficou presa na porta. Deu um grito para o motorista. Este, abriu novamente a porta e ela a retirou. Não havia espaço para caminhar no interior do ônibus. Ficou parada e esprimida na frente do ônibus próxima ao motorista. As pessoas mais próximas, batiam nas sacolas e os seus produtos sacolejavam sem parar.
O homem que estava próximo cheirava a cachaça e não parava de falar. As janelas do ônibus estavam fechadas. Ela ficou enjoada. O ônibus sacolejava muito e não esvaziava para poder colocar as sacolas no chão e descansar o braço. Não queria pedir para ninguém carregar as suas sacolas, permaneceu segurando-as com uma única mão e com a outra se apoiava sobre um dos bancos para não perder o equilíbrio. Ninguém se prontificou a ajudá-la e ela permaneceu em silêncio.
O seu braço já estava amortecido, então, resolveu colocar uma delas no chão à sua frente. Deu um chega-prá-la no homem ao lado e se prostrou firme para que ninguém a tirasse do lugar. Na porta, alguns homens reclamavam com o motorista para este não deixar mais ninguém entrar pois o ônibus estava muito lotado. O motorista pedia calma e falava que não podia deixar de parar pois estava apenas fazendo o seu trabalho. As pessoas se espremiam cada vez mais e ela foi obrigada a pegar as sacolas e mantê-las em suas mãos. Não havia espaço para as sacolas no ônibus, as pessoas as espremiam a ponto de propiciar discussões calorosas entre os usuários do transporte urbano. O ônibus aos poucos foi esvaziando, até que ela conseguiu sentar com as suas sacolas e ficou tranquila pois apenas iria descer no ponto final.
O ônibus parou em um dos pontos. Dois meninos sobem. Um deles rende o motorista. O outro saqueia o cobrador e faz o rapa nos passageiros. O menino olha para ela e pergunta:
_ O que tem aí tia...deixa eu ver!
Ela, com muita calma, abre a sacola. O menino vê o iogurte e lhe diz:
_ O tia me da esse iogurte, aí vaí...passa logo.




Thursday, 19 July 2007

Acidente aéreo: a culpa é da pista molhada?


Há tempos que o sistema aéreo brasileiro vem apresentando problemas. Acidente da gol no ano passado, atrasos constantes nos aeroportos e agora o acidente monstruoso com o avião da Tam. A pergunta que não quer calar é a seguinte: de quem é a culpa pelos problemas ocorridos no setor aéreo? Da aeronáutica? Da infraero? Das companhias aéreas?
Vejamos, o setor aéreo cresceu de forma geométrica nos últimos anos. As passagens aéreas ficaram acessíveis ao bolso do cidadão brasileiro competindo até com as companhias de transportes rodoviários. Tendo em vista o baixo tempo das viagens e o conforto proporcionado, os aeroportos se transformaram em rodoviárias de luxo para a faminta classe média brasileira. Isso significa que houve um aumento da demanda sem o necessário crescimento do investimento em infra-estrutura.
Agora, quem é o responsável pelo investimento em infra-estrutura nos aeroportos? o Estado brasileiro ou o setor privado? É claro que agora, após o acidente, vai ficar aquele jogo de empurra-empurra, mas, o maior responsável pelos problemas no setor é do Estado que deveria investir em infra-estrutura também em progressão geométrica para dinamizar o setor e acabar com os seus problemas.

Amor aos cinquenta I


Chegou em casa e foi logo tirando o palitó. Colocou-o sobre a cadeira e ligou a televisão. As notícias não eram boas. Resolveu desligá-la. Pensou em Cremilda, passou a mão no celular para verificar as mensagens. Havia dez não lidas, entre elas a de Cremilda.
_ Não posso lhe ver hoje. Ligo amanhã para a gente conversar, beijos de seu amor.
Achou estranho já com os cinquenta no lombo ser chamado de amor por alguém bem mais novo mas, não conteve o sorriso sarcástico e o comentário jocoso:
_ Ainda dou no coro prá caramba! Pode crer.
Caminhou até o espelho e ficou se olhando. Percebeu as rugas na face e os dentes já amarelados. Chegou mais perto do espelho. Abriu a boca e esticou a pele do rosto. Fez caretas e chegou a conclusão que já havia chegado a hora de procurar um cirurgião plástico. Achou necessário fazer plástica no rosto para acabar com as rugas e também a necessidade de tornar os dentes mais brancos. Afinal de contas, tinha a pretensão de não ser chamado mais de tiozão pelas moças da cidade. O carro já não era mais problema, havia resolvido isso a alguns meses atrás quando fez o financiamento do honda metálico. A sua única obsessão era excluir as vaginas de aluguel de sua vida, frequentar o ambiente social da cidade com meninas mais novas e adquirir a fama de comedor. Para isso, era necessário dar uma garibada no visual e melhorar a qualidade da roupa.
Foi até o quarto, caminhou até o guarda-roupa, abriu a porta e ficou olhando as camisas no cabide. Passou a mão sobre várias, mas continuou em dúvida sobre qual peça a ser usada àquela hora da noite.A única coisa que possuía em mente era que durante o dia tinha que usar roupas claras e à noite as escuras. Era a regra de etiqueta mais comentada por ele, inclusive em conversas com amigos nas mesas dos botequins. Jogou várias camisas sobre a cama e pensou na melhor combinação possível. Criou-se a dúvida sobre duas peças, a camisa vermelha ou a preta. Levou ambas frente ao espelho e decidiu pela preta.
Trocou de roupa, passou perfume, escovou os dentes e se prostrou frente ao espelho antes de sair. Percebeu que a camisa estava um pouco amassada. Tirou a camisa, ligou o ferro e cuidou para que este não esquentasse muito, justamente para não queimá-la. O celular da sinal de mensagem:
_ Você pode me ver hoje. Estou morrendo de saudades! Mônica.
Colocou a camisa e foi ao espelho. Se olhou de frente, de perfil, verificou se a chave do carro estava no bolso e saiu falando ao celular.
_ Tudo bem, eu saiu com você hoje, Mônica. E o preço é o mesmo? Perguntou preocupado.
_ Se quiser pelos fundos pode aumentar cinquenta, mas, garanto que vou lhe deixar bem louquinho. Vai ser a melhor foda de sua vida.
_ Combinado. Eu passo no lugar de sempre para te pegar daqui a uns dez minutos.
Chegou ao local combinado, abriu a porta do carro e Mônica foi logo dizendo.
_ Estou louca para lhe dar o rabinho, sabia. Colocando a mão sobre o câmbio.
_ Mas, você nem me disse oi! Respondeu
_ Nem preciso, não sou o seu amor. Respondeu Mônica.
_ Mas não vale nem um diálogo? Perguntou.
_ Eu não quero saber dos seus problemas. Eu só quero senti-lo, só isso. Entendeu?
Parou o caro embaixo de uma árvore próximo a avenida central. Ligou o som e estabeleceu-se o silêncio entre ambos.
_ Você não vai querer me comer aqui, não é mesmo? Perguntou Mônica.
_ E vou logo lhe avisando, eu não sou psicóloga, nem terapeuta. Eu só dou prazer.


Wednesday, 18 July 2007

Sobre o racismo


Quando analisamos a questão do racismo, não podemos perder de vista as relações econômicas geradas e organizadas através do mercantilismo. Faz-se necessário sobretudo distinguir o significado de mercantilismo e de capitalismo. O mercantilismo na visão de Ianni, fomentou o desenvolvimento social das colônias, baseado no trabalho escravo que alimentava os movimentos do capital comercial da Europa.
No entanto, foi o capital comercial que distribuía as cartas e que comandava a generalização do trabalho compulsório no Novo Mundo. Segundo a visão marxista, existem dois argumentos que apresentaram as condições de desenvolvimento da cultura escrava no Novo Mundo. Em primeiro lugar, a disponibilidade de terras baratas ou devolutas , que permitiria que o assalariado, em pouco tempo abandonasse a plantation e fosse produzir para a sua própria sobrevivência, através da produção de subsistência. Em segundo lugar, as metrópoles não dispunham de reservas de mão-de-obra, para encaminhar às colônias e dinamizar a produção de fumo, ouro e prata.
Por conseguinte, a administração européia organizou a exploração com três finalidades básicas. A primeira era de evitar e combater a penetração dos interesses de outras metrópoles. Em segundo lugar, controlar a circulação do trabalhador escravo, para garantir a produção colonial e assegurar a vigência do sistema político-social ou seja, o trabalho escravo. Em terceiro lugar, garantir a continuidade e a regularidade da exportação do excedente econômico produzido na colônia.

ASPECTOS SOCIAIS DA ESCRAVIDÃO

De acordo com Ianni “uma formação social escravista era uma sociedade organizada com base no trabalho escravo (do negro, do índio, mestiço etc.) na qual o escravo e o senhor pertenciam a duas castas distintas”[1].
Através dessas formações sociais as sociedades dos países do Novo Mundo estavam organizadas de maneira a produzir e reproduzir, ou criar e recriar, o escravo e o senhor das terras, a mais-valia, a cultura da casa-grande, a cultura do escravo e as propostas de controle dessa organização. Através do processo de controle, surge as repressões e as torturas.
Uma outra característica do processo de formação social da escravidão, diz respeito à alienação do trabalhador escravo. A subordinação física e moral ao senhor branco. Como afirma Ianni “nessas condições, as estruturas de dominação eram, ao mesmo tempo e necessariamente, altamente repressivas e unilaterais, estando presentes em todas as esferas práticas e ideológicas da vida do escravo ( negro, mulato, índio e mestiço)”[2].
Em última análise, as formações sociais baseadas no trabalho escravo e com características compulsórias e que foram desenvolvidas no interior do Novo Mundo, nasceram e desenvolveram-se sobre a perspectiva do mercantilismo. O mercantilismo organizou e desenvolveu as formações sociais através da plantation, do engenho, da fazenda e das encomiendas pensando única e exclusivamente sobre a ótica da acumulação primitiva. As sociedades do Novo Mundo, estão atreladas à economia mundial, em primeiro lugar sobre o prisma do mercantilismo e posteriormente sobre o viés do capitalismo.

[1] Ianni, Octavio. Escravidão e racismo. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1988. Pág. 27.
[2] Ianni, Octávio. Escravisão e racismo. Op. Cit. pág. 28.

Política: uma breve introdução


Em Política – uma brevíssima introdução, o autor inicia explicitando que a história encontra suas raízes no despotismo político, na impiedade dos monarcas, ao contrário da proposição marxista de que a história se baseia na luta de classes. De qualquer forma, não se estabelecerá juízo quanto à razão de um sobre o outro, trata-se somente de uma comparação entre diferentes olhares transmitidos à história.
Nesse contexto, nem só de reis e monarcas viveu a história, mas também de sátrapas, de plebe e principalmente de “amigos do rei”. Nesse sentido, delimitar a história como construção dos monarcas é em certo sentido, menosprezar a luta da plebe por melhores condições de existência e demonstrar equívoco com a própria construção da sociedade existente.
Não obstante, a definição de despotismo utilizada pelo autor, nos remete a uma fonte inesgotável de interpretações. De acordo com a visão do autor, “despotismo é uma categoria onde cabe toda sorte de trastes, com uma ampla variedade”[1]. Dessa forma, percebe-se nas palavras utilizadas pelo autor a ausência de um conteúdo substancial ao termo. Nesse sentido, a definição proposta por Noberto Bobbio, nos remete a uma delimitação do conceito apresentando ampliações significativas para uma dissertação sobre o tema. Segundo Bobbio, o “despotismo indica uma forma de Governo diferente das outras com que no discurso polemicamente genérico se confunde. Despotismo, ditadura, autocracia têm de comum serem formas de governo em que o detentor do poder o exerce sem limites de leis naturais, consuetudinárias, impostas por órgãos ad hoc., isto é detém um poder absoluto, ou legibus solutus, e arbitrário, ou exclusivamente dependente da própria vontade”.[2]
De certa forma, mesmo que se considere o despotismo como uma forma de governo que se caracteriza e se baseia na vontade de um monarca, ele não se aplica sobre o nada, sobre o vazio. Por conseguinte, há de se considerar a existência de Instituições do Estado, como por exemplo a Igreja que luta peremptoriamente pela hegemonia do poder de Estado.
A busca pela essência da palavra política remete o autor a uma visão elitista e parcial sobre o tema. Quando o autor afirma que “a política costumava referir-se meramente às ações de monarcas, parlamentos e ministros e às atividades dos engajados politicamente que ajudavam ou bloqueavam seu acesso à autoridade”[3] percebe-se uma inclinação para a visão de política relacionada com o poder, mas que sobretudo afasta a participação da sociedade. Nesse sentido, existem várias formas de poder do homem sobre o homem e a política é somente uma delas. O que se pode argumentar é que as relações de poder não são sentidas somente nos palácios imperiais, mas no cotidiano das pessoas mais humildes.
Não obstante, o autor bebe na fonte das águas gregas para estabelecer comparação entre o passado e o presente da política. Com muita argúcia e perspicácia retrata através da história as principais façanhas do povo grego. Pode-se citar como exemplo, a introdução da democracia a sociabilidade produzida pela natureza, o homem como animal político, a racionalidade nas relações humanas.
Outra fonte de inspiração de Minogue foi a política desenhada pelos romanos. Mesmo não estabelecendo comparação ipsis literis entre as civilizações grega e romana, os aspectos abordados são de relevante importância para o entendimento do assunto. Nesse sentido, aspectos positivos e muito importantes para a compreensão do desenvolvimento da política foram relembrados como a introdução do direito na sociedade, a delimitação de funções, a criação de instituições pelo Estado que de forma veemente foram condição sine qua non para o desenvolvimento da política.
Dentre os aspectos históricos mencionados pelo autor e que ocasionou maior impacto nas relações humanas e que certamente não poderia ficar de fora de uma obra que trata dos avanços e retrocessos da palavra política é o tema da religião, ou mais especificamente a ascensão do cristianismo e a sua interferência nas relações de poder.
Nesse sentido, há de se mencionar a importância das religiões devido à noção de liberdade e de responsabilidade que vão proporcionar à ação histórica que irão reativar. Segundo Chatelet, o “monoteísmo opõe uma concepção do homem como criatura que mantém com seu criador relações pessoais espirituais e uma concepção da comunidade como sendo fundada num projeto ético-político, não numa relação jurídica, mas numa aliança religiosa”[4].
Apresentando aspectos da evolução política, Minogue trata com devida fidedignidade a proposta de Maquiavel, assim como apresenta com objetividade as idiossincrasias da política. É absolutamente perceptível a transformação do Estado na exposição do autor, ou seja, a política se retira dos caprichos pessoais do monarca e é genuinamente substituída pela política como atividade constitutiva da existência coletiva. Dessa forma, percebe-se que há regras que presidem o governo e que tem a mesma natureza das leis que governam o movimento das estações e nada tem a ver com qualquer tipo de dever moral.
A citação que o autor faz de Thomas Hobbes está diretamente relacionada com a construção de um Estado que coíba a guerra de todos contra todos, ou seja, estabelece-se um ser superior entre os homens para que os mesmos não entrem em conflito.
De acordo com o autor “o que nos interessa é o fato de que essas associações (Estado, Sociedade, Economia e a Cultura) criaram o cenário para os dramas do conflito político moderno”[5]. Com essa frase, o autor explica de forma extremamente didática o seu pensamento sobre a sociedade moderna e como ir buscar subsídios para a análise da sociedade contemporânea.
Utilizando pensadores como Hegel, Marx e Hobbes o autor fundamenta com muita propriedade a visão de como o conflito pertence à sua concepção de política. De certa forma, sem conflito não há relação política existente ou que se faça justiça ao termo.
Para explicar as relações de equilíbrio de poder, o autor nos remete a assuntos que fizeram a história, principalmente as relacionadas ao século XX, temas como guerra e poder econômico concentram as fundamentações e argumentações expostas.
No entanto, sobre o tema guerra percebe-se que o autor o relaciona com a demonstração de poder que está fundamentado no argumento sobre o conflito político de Hobbes como sendo “o “estado natural” qualquer situação em que os homens não reconhecessem um superior comum e sua tese era de que um estado natural é sempre um estado de guerra, no qual a vida do homem seria “rude, pobre, solitária, estúpida e curta”[6].
Na proposição sobre o equilíbrio do poder entre os Estados, Minogue expõe a dominação econômica com ligeiro traço de conformismo, isto fica evidente nas palavras que seguem “numa economia moderna, que é um jogo positivo, todo mundo enriquece. Alguns ficam, sem dúvida, muito mais ricos que outros, mas todos passam a desfrutar água mais pura, mais comida, melhor assistência médica e outros benefícios[7]”. Dessa forma, a relação de dependência dos países subdesenvolvidos não foi sequer abordada pelo autor, sendo assim, como tratar o equilíbrio de poder? Tema que de um ponto de vista mais crítico o autor deixou a desejar.
Quando o assunto está relacionado aos partidos políticos, o autor utiliza uma definição pragmática e que está intrinsecamente relacionada com o fato de ganhar eleições. De acordo com Bobbio, “Partido Político é uma associação... que visa a um fim deliberado, seja ele, ‘objetivo’ como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja ‘pessoal’, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, conseqüentemente, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses objetivos conjuntamente”[8]. Não obstante, a definição sistemática sobre os partidos políticos apresenta-se como ponto fundamental devido ao fato do autor abordar temas como ideologia, doutrina, assim como socialismo, liberalismo e conservadorismo.
Sobre muitos aspectos o autor apresenta-se com uma visão demasiadamente determinista, não só do ponto de vista histórico, mas principalmente em relação às coisas da sociedade. Segundo Minogue, “uma sociedade plenamente justa, seja o que for isso, não precisaria de política séria; seria um daqueles projetos de perfeição que chamaremos de ideologias...E é isso o que normalmente significa o termo socialista[9]”. Nesse sentido, a proposição de ideologia utilizada pelo autor está relacionada com o conceito proposto por Napoleão Bonaparte aos ideólogos comandados por Destutt de Tracy, ou seja, uma visão de mundo através de um universo paralelo e idiotizado, que não utiliza os pés no chão para formular propostas de governos, propostas estas que sejam condizentes com os aspectos da realidade mórbida vivida. Ainda que o autor pense na realidade contemporânea a sua visão sobre a ideologia finca raízes em um passado longínquo, distante, necessitando assim, de certa lapidação para a contextualização da realidade.
A democracia para Minogue é residência da justiça e da liberdade. Nesse sentido, apresentando somente estes aspectos sobre a visão de democracia, o autor acaba por inviabilizar um estudo mais detalhado sobre a experiência política, uma vez que pensamentos esparsos e sem nexo dominam a narrativa.
Analisar a justiça, a liberdade e a democracia como ideais dos partidos políticos é analisar uma sociedade “perfeita”. Os partidos políticos possuem como ideal os interesses do cotidiano, ou seja, algo existente, material que proporcione suporte para a manutenção do poder. A democracia só é possível devido ao seu caráter personalista, do caráter unitário das relações humanas, pois, com essas características a exploração do homem pelo homem torna-se renitente e se estabelecem em todos os sentidos. De certa forma, a abordagem proporcionada pelo autor peca por ser tão brevíssima e afastando possíveis pontos de análise fundamentais da questão política.
Por conseguinte, segundo Minogue “A democracia ilustra de forma suprema o modo como os ideais políticos no mundo moderno se expandiram para além da arena do Estado e se tornaram critérios de valor nos outros tipos de associação que constituem a vida moderna”[10]. Apesar da constatação de que a democracia não pertence somente ao Estado, não se deve permitir o erro de analisar através dos discursos ufanistas dos democratas mais fanáticos. A democracia não existe, ela se materializa, ela se fundamenta nas atitudes das pessoas que agem através de sistemas de manipulação, seja através da classe dominante, ou mesmo dos meios de comunicação existentes.
Estudar a política como ciência exata, é dessa forma que Minogue apresenta os seus argumentos no capítulo que disserta sobre a ciência da política. Muitos estudiosos de outras áreas discriminam os estudos sobre a política sem na verdade apresentarem argumentos suficientes para tal. Muito embora, os resultados das pesquisas na política somente apresentarem apontamentos sobre os fatos, eles se direcionam através de métodos de pesquisa, que se constitui na mola mestra da caracterização da ciência.
De acordo com Minogue, a política se apresenta como uma ” idéia de um sistema, isto é, um conjunto de componentes mecânicos com relações fixas entre si, é essencial à concepção científica da política”[11]. Não obstante, não as idéias fixas estabelecidas são inexistentes quando o assunto discutido ou estudado se refere a política. Na política tudo se transforma, se altera rapidamente, assim como as relações humanas.
As causas do que acontece em política podem ser encontradas na economia, nas relações sociais ou mesmo na cultura, então a “política é meramente um conjunto de efeitos”, mas esses efeitos são medidos e avaliados de acordo com o método da ciência. Sendo assim, o autor apresenta certa contradição em subestimar o caráter científico, basta analisar a frase “não haveria nada em política para uma ciência estudar”. Não obstante, se tal proposição apresentasse característica de verdade, logo o processo da metodologia científica e a própria ciência não existiria razão de vida.
Muito embora, o aspecto da ideologia no trabalho de Minogue tenha sido abordado em outro momento no texto. Percebe-se que o autor elabora um sistema de avanço e retrocesso na construção tanto do pensamento exposto, como de certa forma, tenta impor uma lapidação sobre os assuntos tratados. No que se refere ao aspecto da ideologia, Minogue expõe que a “ideologia é comumente marcada pela presença de uma tríplice estrutura teórica. O primeiro estágio revela-nos que o passado é a história da opressão de alguma classe, abstrata de pessoas. Ocupa-se dos trabalhadores como classe, não dos trabalhadores num tempo e lugar dados; ou das mulheres em geral ou dessa ou daquela raça”[12]. (pág. 127)
No entanto, a utilização dessas palavras, demonstra uma Minogue fundamentado nas concepções de mundo com viés marxista. Nesse sentido, durante toda a obra, Minogue apresenta momentos de avanços e retrocessos, não só na construção do seu pensamento, mas fundamentalmente na sua argumentação, podendo as vezes cair na malhas do relativismo abismal ou mesmo apresentando um conceito racional e longínquo sobre um determinado tema.






[1] Minogue, Keneth. Política – uma brevíssima introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. pág. 10
[2] Bobbio, Norberto, Mateucci, Nicola, Pasquino, Gianfranco. Dicionário de Política. Brasília: UNB, 1991. Pág. 340.
[3] Minogue, Keneth. Política – uma brevíssima introdução. Op. Cit. Pág. 16.
[4] Chatelet, François et al. História das idéias políticas. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. Pág. 28.
[5] Minogue, Keneth. Política – uma brevíssima introdução. Op. Cit. Pág. 63.
[6] Minogue, Keneth. Política – uma brevíssima introdução. Op. Cit. Pág. 70.
[7] Minogue, Keneth. Política – uma brevíssima introdução. Op. Cit. Pág. 72
[8] Bobbio, Norberto et al. Dicionario de política. Brasilia: UNB, 1991. Pág. 898.
[9] Minogue, Keneth. Política – uma brevíssima introdução. Op. Cit. Pág. 99.
[10] Minogue, Kenneth. Política – brevíssima introdução. Op. Cit. pág. 108.
[11] Minogue, Kenneth. Política – brevíssima introdução. Op. Cit. pág. 111.
[12] Minogue, keneeth.

Teoria política


O tema central da teoria política para Easton reside em como fazer para os sistemas políticos sobreviverem em um mundo de estabilidade e ao mesmo tempo de mudança.
Para Easton, a vida política é um sistema de comportamento inserido num contexto cujas influências o próprio sistema político está exposto e a que este, por sua vez, reage.
As interações políticas constituem um sistema de comportamento. Para essa afirmaçõa, Easton propõe algumas interpretações:

· Que as interações políticas numa sociedade constituem um sistema de comportamento;
· O sistema de interações políticas não pode ser interpretado como se existisse num vácuo, mas deve ser cercado pelos contextos psicológicos, social, biológico e físico.
· A vida política forma um sistema aberto;

Segundo o autor, é através da análise teórica que poderemos fazer sistemas políticos mais adaptativos às mudanças sem que os mesmos reajam de forma passiva às pressões.
De acordo com Easton, os sistemas políticos possuem reservas de mecanismos que podem mediar com os demais contextos e através desses, regular seu próprio comportamento, transformar a estrutura interna e reformular seus objetivos.

Análise de equilibro e suas deficiências

Segundo Easton, o fator “equilíbrio” é um dos aspectos de maior deficiência na pesquisa política.
De acordo com Easton se houver cuidado na elaboração da linguagem, equilíbrio e estabilidade são termos considerados como tendo a mesma significação.
Duas particularidades do fator equilíbrio:
· Restabelecer o antigo ponto de equilíbrio ou mudar para um novo;
· A formulação de problemas relacionados ao caminho que toma o sistema na busca do retorno ao suposto ponto de equilíbrio antigo, ou a obtenção de um novo ponto.
Para Easton, a adoção da análise de equilíbrio, por mais latente que possa ser, obscurece a presença das finalidades que não possam ser descritas como um estado de equilíbrio. Para qualquer sistema social, inclusive o político, a adaptação representa mais do que simples ajustamento aos acontecimentos da sua vida.

Conceitos mínimos para a análise de sistema

Para Easton, a análise de sistemas deve estabelecer próprios imperativos teóricos. O autor define sistema como um conjunto de variáveis sem levar em conta o grau de inter-relacionamento entre elas.
Um sistema pode ser designado como as interações através das quais os valores são autoritariamente repartidos pela sociedade, é isso o que distingui um sistema político dos demais sistemas do contexto. Esse contexto pode ser dividido em 2 partes:
· Intra societária: consiste nos sistemas da mesma sociedade que o político e que são sistemas políticos em função do que definimos como sendo a natureza das interações políticas. Ex: conjuntos de comportamentos; atitudes e idéias, a cultura, a estrutura social e as personalidades, são somente funcionais da sociedade da qual o sistema político e também em componente.
· Extra societária: inclui todos aqueles que estão fora da sociedade em si. São componentes funcionais de uma sociedade internacional, um supra-sistema de que é parte qualquer sociedade.

Variáveis de ligação em sistemas

A transação entre os sistemas ou troca será considerada através da relação de “inputs” e “outputs”.

Demandas e apoio como indicadores de “inputs”

Através dos “inputs” é possível captar o efeito da ampla variedade de acontecimentos e condições do contexto, à medida que digam respeito à persistência de um sistema político.
Os “inputs” servirão de variáveis-resumo, concentrando e espelhando tudo o que é relevante no contexto em função da tensão política.
É através das flutuações nos inputs das demandas e apoio que encontraremos os efeitos dos sistemas do contexto transmitidos aos sistema político.

“Outputs” e “Feedback”

Outputs são decisões e ações das autoridades. Os “outputs” não apenas ajudam a influenciar os acontecimentos na sociedade mais ampla, da qual o sistema é uma parte, como também, ao fazer isso, auxiliam a determinar cada grupo de inputs que se sucedem em direção ao sistema político,
Sem o feedback da informação sobre o que está acontecendo no sistema, as autoridades teriam que atuar às cegas.


Easton, David (org). Categorias para a análise em política. IN: Modalidades de análise política. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. Pág. 185 – 199.

Dialética


A grande contribuição de Marx para as ciências humanas foi a elaboração do Método dialético. O Método Dialético não é um método apenas para se chegar à verdade, é uma concepção do ser humano, da sociedade e da relação ser humano-mundo. Baseado em Hegel, Marx sustenta a tese de que o movimento se dá pela oposição dos contrários – pela contradição.
Na dialética materialista expressão em O Capital, Marx afirma que não existem fato em si, é o próprio ser humano que figura como ser produzindo-se a si mesmo. Pela sua própria atividade, pelo modo de produção da vida material. A condição para que o Ser Humano se torne Ser Humano é o trabalho, a construção da sua história. A mediação entre ele e o mundo é a atividade material.
Nesse sentido, Marx não nega o valor e a necessidade da subjetividade no conhecimento. O mundo é sempre uma “visão” do mundo para o Ser Humano, o mundo refletido. A dialética não é um movimento espiritual que se opera no interior do entendimento humano. Existe uma determinação recíproca entre as idéias da mente e as condições reais de sua existência, o essencial é que a análise dialética compreenda a maneira pela qual se relacionam, encadeiam-se e determinam-se reciprocamente, as condições de existência social e as distintas modalidades de consciência.
A dialética considera cada objeto com suas características próprias, o seu devir, as suas contradições. Não existem regras universais fixas. O método dialético busca captar a ligação, a unidade, o movimento em que engendra os contraditórios, que os opõe, que faz com que se choquem, que os quebra ou os supera.
O método dialético não considera a matéria e o pensamento como princípios isolados, mas com aspectos de uma mesma natureza que é indivisível, duas formas diferentes: uma material e outra ideal; a vida social, uma e indivisível se exprime em duas formas diferentes: uma material e outra ideal. O materialismo dialético considera a forma das idéias tão concretas quanto a forma da natureza. O método dialético tem duplo objetivo:
como dialético, estuda as leis mais gerais do universo, leis comuns de todos os aspectos da realidade, desde a natureza física até o pensamento, passando pela natureza viva e pela sociedade.
Como materialismo, é uma concepção científica que pressupõe que o mundo é uma realidade material (natureza e sociedade), onde o Ser Humano está sempre presente e pode conhecê-la e transformá-la.
A dialética marxista não separa teoria (conhecimento) e prática (ação). A questão de saber se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas prática. É na praxis que o Ser Humano deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento. A Dialética é a unidade dos contrários.
Engels em A dialética da natureza – formulou três leis gerais da dialética a saber:
Lei da conversão da quantidade em qualidade: significa que na natureza, as variações qualitativas podem ser obtidas somente acrescentando-se tirando-se da matéria ou movimento por meio de variações quantitativas;
Lei da interpenetração dos opostos, esta é a lei da unidade e da luta dos contrários, que garante a unidade e a continuidade da mudança incessante na natureza e nos fenômenos;
Lei da negação da negação que garante que cada síntese é a tese de uma nova antítese, reproduzindo indefinidamente o processo.
Esses são alguns princípios gerais ou características da Dialética:
Tudo se relaciona (Princípio da totalidade) – a natureza se apresenta como um todo coerente, onde objetos e fenômenos são ligados entre si, condicionando-se reciprocamente.
“A compreensão dialética se encontra em relação de intensa interação e conexão entre si e como o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o todos se cria a si mesmo, na interação das partes.”[1]

Tudo se transforma (princípio do movimento) devir. A afirmação engendra a sua negação, porém a negação não prevalece como tal: tanto a afirmação como a negação são superadas e o que prevalece é uma síntese, é a negação da negação. O calor só pode ser entendido em função do frio.
Mudança qualitativa – dá-se pelo acúmulo de elementos quantitativos que num dado momento produzem o qualitativamente novo.
Unidade e luta dos contrários (Princípio da contradição) – A transformação das coisas só é possível porque, no seu próprio interior coexistem forças opostas tendendo simultaneamente à unidade e à oposição.
1 – Contradição é a essência, a lei fundamental da dialética.
2 – Os elementos contraditórios coexistem numa realidade estruturada, um não podendo existir sem o outro.
3 – A existência dos contrários não é um absurdo lógico, ela se funda no real.
REGRAS PRÁTICAS DA DIALÉTICA:
Dirigir-se à própria coisa – análise objetiva;
Apreender o conjunto das conexões internas da coisa, de seus aspectos; o desenvolvimento e o movimento (devir) da coisa.
Apreender os aspectos e movimentos contraditórios, a coisa como totalidade e unidade dos contrários.
Analisar a luta, o conflito interno das contradições, o movimento, a tendência (o que tende a ser e o que tende a cair no nada).
Não esquecer: tudo está ligado a tudo; - uma interação insignificante, negligenciável num momento pode tornar-se essencial e importante em outro.
Não esquecer também de captar as transições dos aspectos e contradições; passagens de uns nos outros, transições no devir.
Não esquecer ainda que o processo de aprofundamento do conhecimento que vai do fenômeno à essência e da essência menos profunda à mais profunda é infinito. Jamais estar satisfeito com o obtido.
Penetrar mais fundo do que a simples coexistência observada. Penetrar sempre mais profundamente na riqueza do conteúdo, apreendendo conexões e movimento.
Em certas fases do próprio pensamento, este deverá transformar-se, superar-se: modificar ou rejeitar sua forma, remanejar seu conteúdo – retomar seus momentos superados, revê-los, repeli-los, mas apenas aparentemente, com o objetivo de aprofundá-los mediante um passo atrás rumo às suas etapas anteriores e, por vezes, até mesmo rumo ao seu ponto de partida.
Segundo Chauí:
“O marxismo permitiu compreender que os fatos humanos são instituições sociais e históricas produzidas não pelo espírito e pela vontade livre dos indivíduos, mas pelas condições objetivas nas quais a ação e o pensamento humanos devem realizar-se.”[2]


[1] Kosik, Karel. Dialética do concreto. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1976. Pág. 42
[2] Chaui, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. Pág. 275

Representação política II


A proposta do livro reside no levantamento das contribuições da sociologia política para o estudo da representação.
Para o autor, somente o enfoque formal com abordagens multidisciplinares pode delinear com mais clareza a representação política.
O autor analisa a representação política no seu aspecto jurídico e no aspecto social.
Campilongo esclarece que há uma linha divisória entre a política e o direito, quando o assunto é representação política.
Segundo o autor, é necessário fazer um estudo funcional e estrutural da representação política. Nesse sentido, não há univocidade entre as estruturas normativas e as funções sociais da representação política.
Campilongo cita Norberto Bobbio, e expõe que a falta de correspondência entre estrutura e função, pode ser interpretada como reflexo de dois aspectos distintos do conceito de representação: o formal e o substantivo. Segundo o autor a investigação formal da representação política se preocupa com os estudos das instituições e as normas que proporcionam operacionalidade à representação: a estrutura representativa. Por outro lado, o pesquisador da substância da representação voltará seus estudos para a “essência interna” , a finalidade e as instituições do ato de representar: a função da representação.
A relação de representação de Miller e Stoker consiste na congruência ou seja, a identidade entre legisladores e eleitores.
A relação de representação não exaure no processo eleitoral.
A representação política envolve um complexo e um diferenciado jogo de influências onde estão inseridos partidos políticos, grupos de pressão, a burocracia estatal e forças sociais que sequer são representadas no legislativo ou no executivo.
Existem duas correntes a respeito da representação:
· Relação interindividual entre representantes e representado;
· Relação integrupal: representa a comunidade.
O autor aborda que o direito constitucional é insuficiente para explicar as realidades políticas, pois se baseia no aspecto formal da sociedade.
Na sociologia política a relação de representação desenvolve dentro do esquema: “demandas” ou exigências inerentes aos cidadãos e introduzidas no sistema político (input of demand); processadas, recebem uma resposta (output) do sistema representativo. Nesse sentido, o sistema representativo é explicado pela constante adequação entre (inputs) e (outputs).
· Input
· Output (Identificação entre a vontade dos eleitores e as atitudes dos representantes)
Para provocar o input de demanda é necessário:
· Partidos Políticos;
· Comportamento dos representantes conforme programa partidário;
· Que os eleitores sejam capazes de associar os candidatos aos programas e seus comportamentos legislativos anteriores;
As demandas políticas são formuladas por um pequeno número de agentes e há que se registrar que esse realismo está circunscrito ao contexto das sociedades que concentram o capital nas mãos da minoria, pela desigualdade de oportunidades sociais e políticas e pela redução do cidadão ao papel de simples consumidor dos produtos políticos.
Input de suporte: o acesso ao processo decisório é predeterminado por uma cadeia de reações advindas do ambiente que circunda os sistemas políticos.
O contexto que envolve o sistema político é composto, de um lado, pela economia, cultura, estrutura social e personalidades de uma sociedade, e , de outro, pelo sistema internacional.
A ciência política se concentra nos resultados das votações do Legislativo e do processo eleitoral ou nos fatores determinantes desses resultados. A dogmática jurídica preocupa-se com os inputs do sistema jurídico – estrutura normativas, procedimentos judiciais e regras de adjudicação.
Dentre as diversas definições de representação política, concluía-se que o governo representativo é aquele responsivo, ou seja, sensível aos desejos populares.
Eulau e Karps enumeram quatro componentes de responsividade:
· Policy responsiveness – Preocupa-se com as preferências dos eleitores e a atuação política dos eleitos, concentra-se na formação das política públicas;
· Service responsiveness – Trata dos serviços não legislativos prestados pelo representante á sua clientela;
· Allocation responsiveness – Alocar verbas para beneficiar redutos eleitorais;
· Simbolic responsiveness – relações psicológicas entre o apoio conferido aos representantes e as respostas alegóricas fornecidas aos representados.

Funções da Representação Política

· Manutenção da estabilidade;
· Satisfação da demandas sociais específicaas;
· Adimplemento de necessidade latentes;
As funções buscam equilíbrio, harmonia e consenso
O autor cita Apter, para esse autor a representação pode ser de três tipos:
· Popular: assentada nos direitos da cidadania;
· De interesse: fundamentadas em grupos ocupacionais;
· Funcional: Baseada em categorias profissionais.
A politização da esfera econômica e a mercantilização da esfera política acabam por produzir – na arena privilegiada das contendas sociais: o Estado uma crescente dificuldade para respostas ás reinvindicações apresentadas pela sociedade.


Campilongo, Celso Fernandes. Representação política. São Paulo: Ática, 1998.

Tuesday, 17 July 2007

Ode à Oravia Pierini


A hora do encontro é também despedida. Na plataforma da estação da vida é a vida daquele meu lugar. Vida construída através de confronto e carinho. Vida de alegria e de tristeza. Vida que não se concentra mais em abraços e sorrisos, mas apenas em lembranças. A mão que afagou, hoje não encontra mais os corpos próximos e amigos. Que saudade!!!
O colo que aqueceu as manhãs dormentes já não existe mais. A vida de Orávia já não existe mais. Noites infindáveis nos sofás da vida a espera de um filho não existem mais. A preocupação com um determinado futuro já não existe mais. O futuro já não existe mais. O que impera é um presente sórdido permeado pela ausência de mamãe. Ausência essa que está calcada no silêncio de sua voz, no bater do seu coração e do afago de suas mãos. Voz que muitas vezes agiu com cumplicidade e muitas outras como advertência sobre um determinado rumo. Coração que bateu acelerado a cada gosto realizado, mas que desgostoso batia a cada gesto ingrato. Mãos que acariciavam um rosto dormente nas manhãs da infância, mas que se rebelavam a cada gesto da adolescência rebelde.
Tornou-se apenas uma lembrança o sorriso da chegada, assim como a recompensa gostosa e doce que saboreava nossos dias de presença. A alegria compartilhada com os cães que ladravam e abanavam a chegada anunciada será eterna e ficará viva na lembrança. A tristeza da partida tornava-se reluzente nas lágrimas, mas na esperança de que um novo dia iria chegar, um dia que seria marcado pela partilha de um futuro no mesmo lugar.
Mamãe que não repartiu João apenas pelas consequências da vida, mas que dividiu seu coração em sete. Sete latifúndios de carinho e atenção, semeados pelos sentimentos mais sublimes.