Thursday, 15 January 2026

Conversas do Podcast Uniara - João Comito - filho do ex-Presidente da Associação Ferroviária de Esportes - Aldo Comito

 


Olá, pessoal. Hoje o podcast Uniara recebe João Comito, filho do lendário ex-presidente da Associação Ferroviária de Esportes, Dr. Aldo Comito.

Eu que te agradeço a lembrança. Fiquei muito feliz e é sempre bom relembrar, ainda mais quando se trata do meu pai. Ele não foi muito reconhecido, até hoje não é, e não sei por quê. Política é sempre complexa. Então fico muito feliz quando há esse tipo de lembrança.

Meu pai sempre foi uma figura agregadora. Gostava de reunir pessoas, montar grupos, criar eventos. Desde jovem, ele participava de tudo: ajudava no asilo, no Instituto dos Cegos, no CESC, sempre ativo. Foi diretor do time do Santana, junto com o Dr. Cross e outros. Nunca jogou bola, jogava mal, mas era um grande dirigente.

Ele virou presidente da Ferroviária em 1965, quando o time foi rebaixado. Era ferroviário, trabalhava na estrada de ferro, e já tinha um histórico lá dentro. Foi discípulo e amigo de Pereira Lima, fundador da Ferroviária. Tinham uma amizade de irmãos. Pereira Lima era uma sumidade, falava vários idiomas, tinha memória incrível e era muito inteligente.

Meu pai se espelhava nele. Quando Pereira Lima faleceu, foi um baque. Lembro que meu pai ficou muito abalado. Eles tinham uma relação de admiração mútua.

Meu pai aposentou cedo da Fepasa, com 46 anos, e foi estudar Direito na primeira turma da Uniara. Depois abriu uma imobiliária. Era um homem ativo, sempre criando e participando.

Ele montou grandes times na Ferroviária. Presidiu de 1965 a 1970 e voltou em 1985 como gerente de futebol, montando outro timaço. Tinha trânsito com empresários e jogadores, tratava diretamente com eles, sem intermediários. Revelou muitos talentos, como o Nei, que veio de Nova Europa.

Meu pai era muito econômico e honesto. Quando viajava com a diretoria, comiam pão com mortadela para não gastar o dinheiro do clube. Ele nunca me deu uma camisa da Ferroviária, porque achava que não devia tirar do time. As camisas eram reutilizadas, lavadas e passadas para o próximo jogo.

Fui gandula da Ferroviária em 1968 e 1969. Entrei em campo com o time e vi grandes jogadores de perto, como Pelé, Gerson e Pedro Rocha. Tenho fotos com eles. Vi o Pelé jogar várias vezes, inclusive em 1971, quando a Ferroviária ganhou do Santos por 4 a 1.

Como gandula, vivi muitas histórias. Uma vez, quase fui expulso por causa do Marinho Peres, da Portuguesa. Outra vez, fiz um “gol” acidental: a bola entrou por fora da rede, e eu chutei outra bola para dentro. O juiz deu o gol, e a Ferroviária empatou o jogo.

Meu pai tinha ótimo relacionamento com árbitros. Era político, educado, sabia lidar. Mandava frutas e presentes para o vestiário. Em 1966, quando a Ferroviária subiu para a primeira divisão, ele descobriu que o jogo estava armado para o 15 de Piracicaba ganhar. Foi até a Federação e exigiu que Armando Marques apitasse. A Ferroviária empatou o primeiro jogo e ganhou o segundo, subindo de divisão.

Ele tinha trânsito com todos os grandes clubes e dirigentes. Chegou a ser cotado para presidente da Federação Paulista, mas não quis se mudar para São Paulo.

Ganhou o troféu de melhor presidente de 1966, oferecido pela Folha de São Paulo. Sob sua gestão, a Ferroviária foi tricampeã do interior (1967, 1968 e 1969).

A diretoria era formada por nomes como Dr. Wellington Pinto, Dr. Augusto Cardillo, Dr. Lawand, Walter Ferreira, Genaro Granata, Vicente Miceli, Antônio de Pádua Lopes, Dorival Silvestre e Carlos Cotinho.

Ele tinha relação próxima com os jogadores, quase paternal. Cuidava da pensão no bairro São Geraldo, onde os atletas moravam. Ia pessoalmente resolver problemas, buscar jogadores na estação, garantir que tudo estivesse certo.

Trouxe grandes times para Araraquara, como Cruzeiro, Internacional e até o Napoli da Itália, que perdeu de 4 a 0 aqui. O goleiro era o lendário Dino Zoff, que veio, mas não jogou.

Em 1967, trouxe a atriz Jaqueline Mirna, estrela da TV Record, para dar o pontapé inicial em um jogo contra o São Paulo. A cidade parou. Houve festa na Praça Pedro de Toledo e recepção no restaurante Jimba.

Meu pai sempre promoveu eventos para atrair público. Fazia sorteios, promoções, desfiles. A Ferroviária sempre teve dificuldade de encher o estádio, mas ele dava um jeito.

Os jogadores recebiam em dia. Era tudo no fio do bigode. A Ferroviária era respeitada, revelava craques e mantinha uma estrutura sólida.

O futebol naquela época era mais romântico. A bola era pesada, o uniforme de algodão, o campo irregular. Mesmo assim, os jogadores eram geniais. O Pelé, por exemplo, jogava em qualquer condição e seria craque em qualquer época.

Meu pai cuidava até da grama do estádio. Soltava cabras no campo para aparar a grama naturalmente.

A Ferroviária era o orgulho da cidade. E meu pai, Dr. Aldo Comito, foi um dos maiores dirigentes da história do clube — um homem de visão, honestidade e amor pelo esporte.

 

Conversas do Podcast Uniara - Edimar Claro - Goleiro do futebol amador de Araraquara

 

 

Edmar foi goleiro de vários times de Araraquara e região. Sempre foi apaixonado por futebol desde pequeno. Morava no Quitandinha, onde havia um campo e um time local. O Antônio Raimundo, conhecido como Baixinho, o convidou para jogar, e assim começou sua trajetória no futebol amador. Apesar de não ser muito alto, tinha habilidade no gol e se destacou. Foi campeão em 1974 pelo Quitandinha, quando o time subiu de divisão.

Trabalhou em Campinas, na Robert Bosch, e jogava pelo time da empresa. Depois, foi contratado pelo Primavera de Indaiatuba, onde jogou campeonatos regionais. Recebia para jogar, mesmo não sendo profissional. Posteriormente, voltou para Araraquara e passou a jogar pelo Santana Futebol Clube, onde viveu uma das melhores fases da carreira. O Dr. Croch, presidente do clube, era uma figura muito querida e incentivava os jogadores com pequenas recompensas.

Edmar também jogou pelo Paulista, clube presidido por Mazinho e Dr. Alonso, ambos grandes incentivadores do futebol amador. Recorda-se de um jogo beneficente contra o time dos Milionários, de São Paulo, em que enfrentou Garrincha. A seleção amadora venceu por 1 a 0, e Edmar foi o goleiro titular.

Entre as lembranças marcantes, destaca a final de 1979 entre Santana e Tamoio, no Estádio Municipal, com público de mais de mil pessoas. O jogo terminou 3 a 2 para o Tamoio, em uma partida transmitida por Wilson Luiz e Osnei Montanari. Edmar guarda até hoje fitas com a narração desse jogo.

A arbitragem era intensa e, muitas vezes, polêmica. Os árbitros locais, como Tutu e Santo Gileno, eram conhecidos e respeitados, mas também havia desconfianças, o que levou à vinda de árbitros de outras cidades. A Liga Araraquarense de Futebol organizava os campeonatos e julgava os jogadores em caso de infrações.

Edmar lembra com carinho dos treinadores e dirigentes que marcaram época, como Clemente, Zé Alemão e Tota, que revelaram muitos talentos. O futebol amador era movido por paixão, e os jogadores jogavam por amor à camisa. Os treinos eram raros; a maioria dos times se reunia apenas no dia do jogo.

Ser goleiro no futebol amador era um desafio. Os campos eram irregulares, e muitas vezes sem grama. Edmar conta que jogou em campos onde um goleiro não via o outro, e que em algumas fazendas o público ficava bem próximo, incentivando e até provocando os jogadores.

Disputou várias finais pelo Santana, mas só foi campeão amador pela Atlética, jogando ao lado de grandes nomes como Coca, Pita e Leonel. Depois, continuou jogando nos campeonatos do Clube Náutico, onde foi campeão e muito respeitado. Mesmo sem ser sócio, era sempre convidado para jogar, até que comprou um título e permaneceu por muitos anos participando das competições.

Edmar também disputou a Copa Interbairros, representando o São José, e lembra com saudade da época em que o futebol amador era forte e movimentava a cidade. Hoje, lamenta a falta de campos e o fim dos grandes clubes amadores, substituídos por mini campos.

Para ele, o futebol mudou muito. Antigamente, havia amor à camisa e comprometimento. Hoje, os jogadores pensam mais na parte financeira. Ainda assim, reconhece o trabalho das escolinhas e projetos sociais que mantêm viva a tradição do futebol em Araraquara.

Com bom humor, Edmar recorda as viagens de caminhão para jogos em fazendas, as festas após as partidas e as histórias curiosas do futebol amador. Para ele, foi um tempo de muita amizade, paixão e aprendizado — uma época inesquecível da vida e da história esportiva de Araraquara.

 

 

 

 

Conversas do Podcast Uniara - Renata Crespi - Bailarina

 

Renata Crespi conta que seus pais eram cantores de coral e que seu primeiro contato com a dança foi aos três anos, quando ganhou uma caixinha de música com uma bailarina girando. Encantada, começou a imitar a bailarina e, em uma apresentação do coral, entrou rodopiando com flores nas mãos. O maestro, impressionado, sugeriu aos pais que ela estudasse balé.

A partir daí, iniciou sua trajetória. Foi para Ribeirão Preto, onde um tio artista a encaminhou para uma escola de dança. Mais tarde, em Araraquara, começou a estudar com Cleusa de Souza Dias, bailarina do Teatro Municipal de São Paulo, e descobriu sua grande paixão.

Aos 12 anos, recebeu uma proposta para dar aulas em Taquaritinga. Com a autorização de um juiz, começou a lecionar e, no ano seguinte, fundou o Balé Renata Crespi.

Renata relembra que, naquela época, Araraquara era uma cidade conservadora, mas sua escola foi bem recebida. Ela destaca que o espaço sempre teve um ambiente familiar e acolhedor, onde a dança é o centro, mas o afeto e a união são fundamentais.

Com o tempo, o balé clássico foi se transformando e incorporando novas vertentes, como o balé neoclássico, a dança contemporânea e o sapateado. Renata ressalta que hoje a dança é para todos os corpos e que a rigidez do passado deu lugar à liberdade de expressão.

Ela explica que, embora o balé clássico seja a base de todas as danças, cada aluno encontra seu próprio caminho. Alguns seguem para o profissionalismo, outros dançam por prazer. Para os que desejam seguir carreira, a dedicação é intensa, com muitas audições e desafios.

Renata também fala sobre o papel do artista e as dificuldades de reconhecimento e patrocínio. Para ela, o artista é um trabalhador como qualquer outro, mas ainda luta por valorização. Mesmo assim, ela se orgulha de seus 50 anos de escola e de ter formado gerações de bailarinos e profissionais.

A coreógrafa compartilha histórias sobre o processo criativo, que pode surgir de qualquer lugar — de uma paisagem, de uma lembrança ou até de uma frase. Conta que já criou espetáculos inspirados em cenas do cotidiano, como as estações do ano representadas pelas esculturas do cemitério de Araraquara.

Durante a pandemia, adaptou-se e produziu espetáculos virtuais, aprendendo sobre vídeo e edição para manter viva a arte da dança. Em 2023, comemorou o jubileu de ouro da escola com um espetáculo sincronizado com cortina de LED, resultado de meses de trabalho e criatividade.

Renata acredita que criar é um ato divino. Para ela, dançar é se conectar com Deus e com a própria essência. Apesar de também ser diretora e professora, afirma que nada se compara à emoção de estar no palco.

Leitora assídua, diz que suas ideias surgem de livros, revistas, gibis e até bilhetes de restaurante. Ensina seus alunos a ler e a transformar histórias em movimento, incentivando a criatividade e a expressão pessoal.

Além da escola, Renata atua há mais de 12 anos em um projeto social, onde usa a dança como ferramenta de transformação. Lá, trabalha temas como respeito, convivência e superação, ajudando crianças e adolescentes a se expressarem e acreditarem em si mesmos.

Ela faz questão de não diferenciar alunos bolsistas dos demais, acreditando que todos devem ser tratados com igualdade e dignidade.

Renata também compartilha experiências internacionais, como o período em que estudou na Rússia e na Suécia, e fala sobre suas inspirações — entre elas, Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov.

Para ela, a dança é uma linguagem universal que ensina disciplina, respeito e sensibilidade. E, acima de tudo, é uma forma de curar almas.

Renata encerra dizendo que, se tivesse seguido o sonho de ser médica, talvez curasse corpos, mas que, com a dança, curou muito mais corações.

Wednesday, 14 January 2026

Conversas do Podcast Uniara: Josafa Dantas - Músico

 



Muito obrigado. Eu fico muito honrado com esse convite, poder falar um pouco da minha trajetória musical e da minha vida aqui em Araraquara, a cidade que escolhi para morar e fazer minha vida profissional.

Eu represento um pouco da cultura das músicas de barzinho de Araraquara. Atravessamos os anos 80, 90 e 2000. Tenho toda uma trajetória desenvolvida aqui.

A minha história com a música começa desde criança. Eu vivia muito em casa pela minha deficiência visual. Tive catarata congênita, fiz uma cirurgia e fiquei com uma deficiência bastante profunda. Isso me deixou muito em casa, e eu queria fazer coisas. Começou mais ou menos com Hermeto Pascoal. Eu pegava facas, garfos, colheres e ficava batucando. Improvisava batucando. Eu queria ser baterista naquela época.

Eu fazia essas brincadeiras batendo faca nas cadeiras de madeira. Era interessante porque precisava ser uma faca e uma colher, ou uma faca e um garfo, porque isso dava sons diferentes. Eu nem conhecia Hermeto Pascoal na época e já tinha essa percepção sonora.

Comecei cantando em casa, depois participei de festivais de calouros na minha cidade. Sou sul-mato-grossense, de Paranaíba. Morei também em Cassilândia, depois passei por Ilha Solteira, São Paulo e Três Lagoas. Em 1985 vim para Araraquara, onde de fato comecei minha vida profissional. Vim para fazer mestrado em Letras, mas acabei não concluindo porque comecei a trabalhar com música em bares.

O primeiro bar em que trabalhei em Araraquara foi o Texas Bar, que ficava na Rua Itália, esquina com a Avenida Brasil. Comecei cantando ali com a ajuda da minha queridíssima Jusara Vargas, que também estava começando a cantar naquela época.

Meu pai me deu um violão quando eu tinha uns 12 anos. Fiquei emburrado porque queria uma bateria. Mas acabei aprendendo com um vizinho as primeiras notas e comecei a tocar violão. Participei de festivais de calouros, tirava notas baixas porque estava mudando a voz. Cantava músicas do lado B, aquelas que as pessoas não conheciam.

Nunca fui muito de estudar violão. Hoje me acompanho porque é necessário, mas sou mais da emoção. Gosto mesmo é de cantar. Quando comecei a tocar em bares, fui me entrosando com músicos como Bonini, Ailton Bonini, Johnny e Abi. Formamos uma banda e tocamos bastante tempo. Depois, quando eles seguiram outros caminhos, fui obrigado a tocar e cantar sozinho.

Nos anos 80, com o surgimento do rock nacional, tocávamos muito em banda. Depois voltei a trabalhar sozinho. Tenho também uma banda de samba, o Samba Trio, com César Marelo e João Vieira. Tocamos sambas antigos de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros.

Curiosamente, eu não gostava muito de samba. Aprendi a cantar e tocar com o tempo, ouvindo João Gilberto e outros mestres. Fiz apresentações em Sescs de várias cidades e no projeto Choro das Águas da Secretaria de Cultura.

Meu repertório é variado: MPB, pop rock e um pouco de internacional. Quando se toca em bar, é preciso navegar por todos os estilos. Isso ajuda a criar uma linguagem própria.

Nos anos 80, tocar na noite era muito diferente. Havia muitos bares e liberdade para cantar o que quiséssemos. Hoje, o público quer ouvir sempre as mesmas músicas. Para sobreviver, é preciso equilibrar o repertório: 70% de músicas conhecidas e 30% de músicas que gostamos.

Tenho 40 anos de carreira na noite e continuo trabalhando. Acredito que é possível mostrar ao público que existe um universo musical além do que toca nas rádios e TVs.

Já fui apresentador de rádio, no programa Estúdio, na Rádio Uniara, no início dos anos 2000. Entrevistava artistas de várias áreas.

Hoje, há muitos músicos bons, mas é preciso garimpar. As plataformas digitais ajudam a descobrir novos talentos. Ainda há grandes nomes da MPB produzindo, e os bares continuam tocando muito dos anos 80.

Sou intérprete, não compositor. Já rabisquei algumas coisas, mas nunca finalizei. Tenho vontade de gravar um projeto com compositores locais.

Minhas influências são muitas: comecei ouvindo Jovem Guarda — Roberto Carlos, Leno, Lílian — e depois conheci Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola. Milton foi um divisor de águas, me ensinou a soltar a voz.

O mercado musical em Araraquara é competitivo. Há muitos músicos, mas poucos espaços para MPB e pop rock. O samba e o pagode voltaram com força.

Trabalho com equipamentos de qualidade, porque acredito que o som é essencial. Os cachês poderiam ser melhores, mas a alegria de cantar compensa.

A Secretaria de Cultura tem projetos importantes, como o Choro das Águas e apresentações em feiras. Os músicos concorrem por editais e precisam ter MEI. Isso garante transparência e abre portas para outros editais.

Nos restaurantes, a MPB ainda tem espaço. O samba domina os bares, mas a MPB resiste. Muitos músicos têm outras profissões e conciliam com a música.

Hoje ensaio mais do que antes, para manter o repertório afiado. Esquecer letras é natural com o tempo, mas o importante é continuar.

Viver de música no Brasil é difícil. Os cachês são baixos e o mercado é restrito. A grande mídia massifica o gosto popular, e as rádios tocam pouco do que é novo e autoral.

Ainda assim, há muitos compositores bons surgindo. O problema é a visibilidade. A inteligência artificial traz novas questões — já existem vozes criadas digitalmente —, mas acredito que a música humana, feita com emoção, sempre terá seu espaço.

As plataformas digitais são práticas e acessíveis, mas ainda não sei como funcionam financeiramente. Gosto de ouvir vinis e plataformas, cada um tem seu valor.

O futuro da música noturna em Araraquara depende da economia e da valorização da cultura. Gostaria que houvesse mais espaços para estilos diferentes, mas sou realista: o cenário deve continuar como está.

Os bares que mais marcaram minha trajetória foram o Texas Bar, o Revanche e o Celeiro. No Texas, tive liberdade total e até fiz uma noite brega. No Revanche, toquei com banda. No Celeiro, fiquei muitos anos, e foi um dos lugares mais importantes da minha carreira.

Minha relação com os empresários sempre foi boa. Tive poucos problemas com pagamento. Uma vez, não recebi e “paguei” o cachê bebendo whisky no bar.

Hoje, sigo cantando, com a mesma paixão de sempre. Represento a cultura noturna de Araraquara, com muito orgulho, e fico feliz em poder contar essa história.

Friday, 9 January 2026

O Troleibus



Ele esperava ansioso o troleibus no ponto de ônibus. Chuteira Viola entre os dedos, mascando chicletes e andando de um lado para o outro na calçada. Era dia de jogo do campeonato infantil de futebol, que iria acontecer no estádio do ACCO, um campo de futebol que fica na Vila Xavier.

O caminho até lá era longo. A Vila Xavier ficava do outro lado da cidade, e ele precisava pegar o troleibus na Rua João Gurgel, entre as avenidas Cristóvão Colombo e São Geraldo, próximo aos secos e molhados da Dona Malvina, e cruzar Araraquara de ponta a ponta. O troleibus da linha Santana-Pinheirinho fazia esse trajeto quase inteiro, ligando mundos diferentes dentro da mesma cidade.

Ele torcia para vir o troleibus de número oito. Achava aquele o mais confortável, embora fosse mais velho e lento. Os troleibus antigos tinham as cores azul e branco, e os bancos de couro azul, que suavam as pernas durante o trajeto, pareciam parte da aventura. As janelas, com travas teimosas, às vezes emperravam e se recusavam a abrir. Era melhor passar calor do que insistir na abertura — afinal, o barulho do motor elétrico e o balanço suave já bastavam para distrair.

Andar de troleibus era uma experiência. Ainda hoje, ele se lembra do motorista de cabelo em moita, óculos grossos e bigode preto e branco. Um dia, os “chifres” do troleibus — aquelas hastes que ligavam o veículo aos fios elétricos — caíram no meio do caminho. O motorista, tomado por um ataque de fúria, desceu do veículo e começou uma batalha épica contra os cabos rebeldes. Palavrões voaram como bolas mal chutadas, e os passageiros, entre risos e espanto, assistiam à cena como se fosse parte do espetáculo da viagem.

O melhor da travessia até a Vila Xavier era encontrar a molecada. Durante o trajeto, subiam companheiros de time, às vezes adversários conhecidos pelos dribles e gols. Mesmo assim, o papo rolava solto. Todos carregavam chuteiras entre os dedos, e alguém sempre trazia laranjas para chupar no caminho. O troleibus virava uma arquibancada ambulante, cheia de sonhos e risadas.

Ao chegar ao ACCO, a turma se reunia sob as sombras das árvores, esperando o portão abrir e os treinadores chegarem. Antes dos jogos, não havia rivalidade: todos eram amigos, unidos pela espera e pela bola. Os treinadores vinham de bicicleta, equilibrando grandes sacos de uniformes sobre o guidão — sacos de arroz reaproveitados, cheios de camisas coloridas e esperança.

Naquela época, ele não entendia o que movia aqueles homens. Por que se sujeitavam a pedalar quilômetros, carregando uniformes para um bando de garotos que mal conheciam, sem quase nenhum retorno financeiro? Só mais tarde, já adulto, compreendeu que havia algo maior ali. Talvez fosse paixão, talvez fosse amor pelo futebol, talvez fosse apenas o prazer de ver a alegria estampada no rosto da molecada.

Hoje, ao lembrar do troleibus número oito, do motorista furioso e das chuteiras penduradas nos dedos, ele entende o que Shakespeare quis dizer: existem mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode imaginar. E, entre o céu e a terra de Araraquara, havia também um troleibus azul e branco, cheio de meninos sonhando com o próximo gol.




Friday, 19 December 2025

Carta de São Paulo aos ansiosos



Da janela lateral, o mundo vertical paulistano se revela. O concreto e a sombra impõem-se, lançando uma penumbra sobre vidas apressadas. Andar por São Paulo é ter a impressão de que o mundo findará em concreto, restando aos bares a celebração de vidas hedonistas, esvaziadas de sentido.

Os carros, outrora símbolos de passeio, agora apenas labutam, tal qual as motos, sempre à espreita da próxima entrega. O futuro se esvai em São Paulo, onde a vida se resume ao presente fugaz.

Marquises e viadutos amparam vidas estraçalhadas pelo tempo, envoltas em cobertores, travesseiros, papelões e plásticos negros. São Paulo é um incessante ir e vir, um descaso com aqueles que a tornam imponente e, ao mesmo tempo, tenebrosa.

Os grafites, eloquentes, denunciam a tudo e a todos. Em São Paulo, ninguém parece imune à culpa. Na ânsia constante, todos se perdem, a serenidade se cala e a confusão se torna inevitável. O ar rarefeito não nutre esperanças.


O rio Tietê, em sua degradação, ameaça revelar um monstro do Lago Ness 2.0, tamanha a sujeira que o assola e desola. São Paulo, a metrópole de contrastes, onde a beleza se encontra com a decadência, e a esperança, por vezes, se perde em meio ao concreto.

Wednesday, 3 December 2025

O café e o caos: uma manhã inusitada


A manhã começou como tantas outras: com a sonolenta intenção de preparar um café. Abri o armário da cozinha para pegar a chaleira, e eis que surge ela: uma barata, cruzando meu campo de visão em alta velocidade. Em pânico, a criatura correu para trás do lixo. Num reflexo impensado, derrubei o lixo no chão, espalhando detritos pela cozinha. A barata, aproveitando a confusão, buscou refúgio dentro do armário.

Vi-me obrigado a esvaziar o armário inteiro, um verdadeiro caos de panelas e utensílios. Finalmente, a encontrei. Uma chinelada certeira a deixou estatelada no chão, aguardando o destino final pela vassoura e pá. Não era minha intenção causar tanto alvoroço. O estrondo das panelas me deixou enjoado, o humor azedou, mas a vontade de tomar café, essa, persistia.

A água para o café foi ao fogão, um veterano de guerra que sempre demora a acender. Por um instante, cogitei desistir. Mas a teimosia falou mais alto. Enquanto a água se decidia a ferver, pensei em retomar a leitura do livro que jazia esquecido na mesa. Mas logo desisti, a água parecia demorar demais.

Se eu fosse mais moderno, talvez tivesse uma cafeteira. Menos esforço, menos utensílios, o mesmo resultado. Mas resisto. Em tempos de modernidade escrava, prezo pela utilidade humana, mesmo que, às vezes, me sinta tão inútil. Uma inutilidade que, curiosamente, não me tira o sono.

E como modernizar uma casa com alma antiga? Não seria um paradoxo? Já basta o computador, um intruso tecnológico que desafia a arquitetura da casa. O novo e o velho em constante diálogo, ou seria um embate? Até a televisão parece deslocada nesse cenário rústico.

Desisti do livro. Era hora de encarar os utensílios do café. E, claro, o coador sujo. Que suplício! Aquele pó marrom seco, que com o tempo adquire um cheiro nauseabundo. A garrafa de café então, um horror! Há tempos não a usava. Imagino o café fossilizado lá dentro, exalando um aroma capaz de provocar enjoos. Recorro à tática de ferver a água antes de abri-la, uma tentativa de evitar o ataque olfativo.

A despensa revelou a triste realidade: apenas duas fatias de pão. Suficientes para aplacar a fome matinal, mas o almoço já se anuncia como uma incógnita. Preparei a bandeja com esmero, visualizando o prazer de me aconchegar no quarto, sob o cobertor macio, com a bandeja sobre as pernas. Puro deleite matinal.

E então, o desastre. A água ferveu. Ao manusear a chaleira, um descuido fatal. A água escaldante atingiu meu braço, abrindo um vermelhão instantâneo. A dor lancinante, mas a prioridade era evitar derrubar a chaleira. Superei o momento de tormento e segui com a liturgia do café.

Preparei o café com garbo e elegância. Era o dia da estreia do novo jogo de xícaras, uma aquisição recente. Coloquei o pires e fiquei a observar a xícara... Uma pompa matinal que, apesar dos contratempos, me permitiu apreciar o sabor do café, sabendo que a vida é feita de imprevistos e pequenos rituais de prazer.

O cobrador e o desempregado


Três batidas secas na porta. Um ritmo familiar, quase uma melodia macabra que anuncia a chegada inevitável. O coração dispara, a respiração acelera. Olho pelo olho mágico. Bingo! O sorriso cordial e os olhos que farejam dívidas: o cobrador. Instintivamente, me encolho, buscando a invisibilidade no aconchego do lar. O silêncio se torna meu aliado, minha armadura.

Mas o destino, esse gozador, parece adorar minhas desventuras. No auge da minha estratégia de fuga, o telefone toca. Um toque estridente, quase um grito de socorro em meio ao meu teatro particular. Atendo? E se for aquela ligação importante, a chance de um novo emprego? O cobrador, implacável, insiste na sinfonia das batidas.

As contas... ah, as contas! Um emaranhado de boletos, faturas e lembretes que se acumulam como ervas daninhas na minha vida financeira. A grana curta, o aperto que não cessa. Penso em alternativas mirabolantes: vender minhas tralhas, virar artesão, apostar na loteria. Quem sabe encontrar um pote de ouro no quintal?

Tento me camuflar atrás da estante, torcendo para que o cobrador desista. Mas a pressão aumenta, a cada batida, a cada toque do telefone. Será que devo abrir a porta e encarar a fera? O medo do julgamento alheio me paralisa. O que ele vai pensar de mim, um inadimplente confesso?

A mentira surge como uma tentação. Inventar um salário atrasado, uma promessa de pagamento iminente. Mas a culpa me corrói. Não consigo compactuar com a desonestidade, mesmo em momentos de aperto. Respiro fundo e decido: serei honesto. Contarei a verdade nua e crua: estou desempregado.

Imagino a reação do cobrador. Um misto de incredulidade e impaciência. Ele lembrará dos juros astronômicos, da necessidade de quitar a dívida para limpar meu nome. A engrenagem implacável do sistema financeiro. Sinto um nó na garganta, uma mistura de vergonha e revolta.

A porta range. Abro-a lentamente. O sol da tarde invade a sala, iluminando o rosto do cobrador. Um sorriso amarelo escapa dos meus lábios.

Sunday, 23 November 2025

O bar do Zinho: a cultura de boteco em Araraquara

 


Na Rua Voluntários da Pátria, ao lado da Praça das Bandeiras, pulsa um coração araraquarense: o Bar do Zinho. Mais do que um simples boteco, o Bar Zinho é um marco cultural da cidade, um ponto de convergência de histórias, risadas e memórias afetivas.

O Bar do Zinho transcende a definição de um simples estabelecimento comercial. Ele se tornou um ponto de encontro obrigatório para os amigos brindarem a cerveja gelada, que moldou gerações e se tornou sinônimo da boemia local.

O Bar do Zinho não apenas serviu bebidas e petiscos, ele moldou a cultura de boteco em Araraquara. Ao longo dos anos, o bar foi palco de encontros memoráveis entre amigos e familiares. Inúmeros copos de cerveja gelada, brindando a vida e os momentos; Paqueras e romances que floresceram sob as noites quentes de Araraquara; "Brigas" amigáveis e discussões acaloradas sobre os temas do dia; Transmissões emocionantes de jogos de futebol; Cigarros que fumegavam entre conversas animadas e reflexões profundas.

As paredes do Bar do Zinho, impregnadas com o cheiro inconfundível de cigarro e cerveja, guardam inúmeras histórias. Paqueras tímidas, discussões acaloradas sobre futebol, comemorações de vitórias e consolo nas derrotas – tudo isso já aconteceu ali. O bar é palco da vida real, com suas alegrias, tristezas, amores e desilusões.

O Bar do Zinho é muito mais do que um bar; é um símbolo da identidade araraquarense. Ele representa a história, a cultura e a tradição de uma cidade que se orgulha de suas raízes e de seus espaços de convivência.

 

A união entre o futebol e o samba em Araraquara

 


No Brasil, duas paixões se entrelaçam: o futebol e o samba. Mais do que meros entretenimentos, são expressões da alma nacional, que moldam a cultura e a identidade do brasileiro. Essa simbiose encontra ecoa em canções, livros, debates e documentários, perpetuando-se através das gerações.

A Copa do Mundo de 1982, na Espanha, é um exemplo emblemático dessa união. Enquanto o mundo se rendia ao futebol arte de Zico, Sócrates e Falcão, o lateral Junior, com a alegria contagiante de um sambista, embalava a delegação brasileira com versos e melodias. O samba, naquele contexto, representava a leveza, a ginga e a esperança de um país que sonhava com o tetracampeonato.

Vinte anos depois, em 2002, a cena se repetiu, agora com a seleção de Felipão. Longe dos holofotes, nos momentos de descontração, os jogadores entoavam os sambas de Zeca Pagodinho, celebrando a alegria de representar o Brasil e a confiança na conquista do pentacampeonato. A música, mais uma vez, servia como elo entre os atletas e o povo, transmitindo a energia positiva que impulsionaria o time rumo à glória do pentacampeonato mundial.

Em Araraquara, essa relação entre futebol e samba ganhou contornos ainda mais singulares. No final da década de 80, um grupo de jogadores do time de futsal WL Decolores decidiu levar o samba para os trajetos das competições. O que começou como uma brincadeira logo se transformou em algo maior. Nascia ali o grupo 'Alma Brasileira', que, impulsionado pela paixão pela música, passou a se apresentar no tradicional Clube 22 de Agosto, conquistando o coração dos araraquarenses.

O 'Alma Brasileira' tornou-se um dos grupos de samba mais famosos da cidade daquela época e ficou imortalizado na voz de Marli Francisco. A história do grupo é uma ode à espontaneidade, à amizade e à capacidade de transformar paixões em obra de arte.

 

Thursday, 20 November 2025

Araraquara e o futebol de salão: história e legado no esporte

Araraquara, a Morada do Sol, carrega em sua história um capítulo especial dedicado ao futebol de salão. A cidade não apenas abraçou o esporte, mas também se tornou um marco fundamental em seu desenvolvimento no Brasil. Foi aqui, em Araraquara, que a primeira liga de futsal do país foi organizada, um feito que ecoa até hoje na trajetória da modalidade.

Ao longo dos anos, Araraquara viu florescer diversos times que marcaram época. Nomes como Nestlê, 22 de Agosto e Clube Araraquarense brilharam nas quadras, protagonizando duelos memoráveis e acendendo a paixão da torcida. A década de 80 foi particularmente rica, com jogos eletrizantes que lotavam ginásios como o Gigantão, o Ginásio da Pista e o Clube 22 de Agosto – todos palcos bem estruturados para a prática do futsal.

Entre tantos times, um se destacava pela sua essência: a WL Decolores. Com sua vibrante camisa laranja, a equipe era formada por trabalhadores e estudantes que, mesmo sem o profissionalismo, entregavam-se ao futsal com uma dedicação e paixão contagiantes. Treinando à noite, após um dia de trabalho ou estudo, eles buscavam a superação e a conquista. Lembro-me de um jogo épico contra Igarapava, um confronto que personificava o espírito aguerrido da WL Decolores.

A cidade vivia intensamente esses momentos. As partidas eram o assunto predileto nos pontos de encontro tradicionais, como o pipoqueiro em frente ao Hospital São Paulo e o famoso carrinho de lanches do Bahia. Ali, as discussões sobre os lances, os jogadores e os resultados se estendiam noite adentro, alimentando a chama do futsal araraquarense.

Atualmente, Araraquara mantém viva a tradição do futsal. Com um time forte ligado à Fundesportes e à Uniara, sob o comando do experiente técnico Rene Benacci, a cidade segue trilhando um caminho de bons resultados.




Monday, 27 October 2025

O "futuro" das Bibliotecas Universitárias

 

As Bibliotecas Universitárias, outrora centros vibrantes de aprendizado e cultura, enfrentam hoje uma série de desafios que ameaçam sua relevância. A ausência de público, a crescente popularidade dos livros digitais em formato PDF e uma necessidade urgente de readequação do conceito tradicional exigem uma reflexão profunda sobre o futuro desses espaços.

Como parte do desenvolvimento tecnológico, os livros digitais trouxeram inegáveis benefícios, como a portabilidade, o acesso facilitado a um vasto acervo e a possibilidade de leitura em diversos dispositivos. No entanto, eles também representam um desafio para as Bibliotecas Universitárias, que precisam encontrar maneiras de se adaptar a essa nova realidade.

Muito mais do que um simples “depositório” de livros, as Bibliotecas Universitárias precisam acompanhar as mudanças culturais e o desenvolvimento das tecnologias. Como aponta Milanesi em sua obra clássica “O que é Biblioteca” que integra a série Primeiros Passos, o verdadeiro valor da biblioteca está em sua capacidade de promover o acesso à leitura, à cultura e à cidadania.

Nesse contexto, é imperativo avançar sobre o conceito de Biblioteca Universitária, transformando-as em centros culturais multifacetados que ofereçam exposições, palestras, oficinas e outras atividades para atrair o público de volta.

Parte da solução para os problemas enfrentados pelas bibliotecas universitárias reside na sua transformação em centros culturais dinâmicos e multifuncionais – elas devem ser espaços de encontro, aprendizado, lazer e cultura.

Algumas medidas que podem se adotadas pelas Bibliotecas Universitárias, sem prejuízo ao seu conceito mais conservador:

  • Realização de exposições sobre temas diversos, como arte, história, ciência e tecnologia.
  • Promoção de palestras e debates com autores, especialistas e personalidades.
  • Organização de eventos culturais, como apresentações musicais, peças de teatro e exibições de filmes.
  • Integração com a comunidade local, promovendo atividades em parceria com escolas, associações e outros grupos.

 

Thursday, 18 September 2025

A sauna e os outros "mentirosos"


A sauna é um espaço peculiar, onde a dinâmica social se manifesta de maneiras intrigantes. Ali, as interações entre os frequentadores revelam aspectos interessantes da natureza humana, onde a verdade e a mentira se entrelaçam em um ambiente de vapor e calor.

Na sauna, é comum que os homens compartilharem histórias de sucesso, muitas vezes exageradas. Seja no ramo imobiliário, nos esportes ou em viagens, cada um parece ter uma narrativa que realça suas conquistas. Talvez o calor e o ambiente relaxante baixem as inibições, permitindo que a imaginação floresça. Além disso, a sauna pode servir como um palco onde se constrói uma imagem idealizada de si mesmo. “Lugar onde quase toda nudez se faz castigada e toda mentira seja “bendita”, parafraseando Nelson Rodrigues.

Ao observar os frequentadores, nota-se que muitos homens, especialmente aqueles mais corpulentos, usam cuecas que pouco escondem. Este despojamento pode ser visto como uma metáfora para a vulnerabilidade humana, onde as aparências são deixadas de lado e a autenticidade, ou a falta dela, vem à tona.

Dentro da sauna, as hierarquias sociais se revelam de forma sutil. Sempre há aquele frequentador que assume a liderança, geralmente um “mais antigo” que conhece todos os rostos. Ele zomba, ri e convida os novatos a se juntarem à "zoeira". Este comportamento talvez seja uma forma de afirmar seu domínio no espaço, ou simplesmente um jeito de quebrar o gelo e estabelecer uma camaradagem entre todos.

Remetendo aos antigos banhos romanos, a sauna é um local onde os homens se permitem estar como vieram ao mundo, sem se importar com suas imperfeições. É um espaço de aceitação, onde a potência ou fraqueza não são julgadas, mas sim, fazem parte da experiência coletiva.

A sauna é um microcosmo que reflete as complexidades das relações humanas. É um lugar onde as verdades e mentiras se misturam, onde as lideranças se formam e as vulnerabilidades são expostas. Na sauna, somos lembrados de que, em essência, todos somos iguais, independente das condições financeiras, sociais e das histórias que se desenvolvem.