Tuesday, 26 June 2007

Educação: entre políticos e profissionais


A Revista Ensino Superior publicou um artigo chamado "Círculo de fogo"que trata dos trabalhos das Comissões de Educação da Câmara e do Senado. O artigo aponta que as Comissões apresentam projetos de lei que fogem e muito dos temas relevantes proporcionados pela Educação. O motivo da fuga segundo aponta o artigo está na amplitude das atribuições das Comissões.
No entanto é necessário analisar o artigo sobre o prisma da relação entre a figura do político e do profissional. O político é eleito a cada quatro anos pelo sufrágio universal independentemente da capacitação profissional, ou seja, possua ele curso superior ou não, desde que atinja um determinado número de votos, ele está apto a desenvolver a função legislativa.
A grande questão colocada e o artigo nos traz reflexão para isso está relacionada com a dinâmica profissional. Eu não possuo munição o suficiente para defender que os membros que compõem as Comissões de Educação da Câmara e do Senado são letrados ou não. Suponho eu que ao menos os seus membros saibam assinar seus nomes com garbo e elegância nos documentos do Estado, agora que os mesmos entendem de educação aí é outro assunto. O cronista prefere acreditar caro leitor que o motivo da fuga não está na amplitude dos assuntos das Comissões, mas sim, na capacidade que os políticos possuem de legislar sobre um assunto tão sério como a educação.

Monday, 25 June 2007

Reunião de fundação do Centro de Letras de Campo Largo

Na última quarta-feira, dia 20/06/2007 foi fundado o Centro de Letras da cidade de Campo Largo. O Centro de Letras tem como presidente o jornalista Osvaldo Zotto e tem como missão, contribuir para o desenvolvimento cultural do município.
Os parabéns para todos os fundadores do Centro e que todos os objetivos sejam alcançados.

Sunday, 24 June 2007

Síntese da representação política brasileira


A representação política brasileira é marcada profundamente pelo uso do poder estatal nas relações com a sociedade. A construção dessa relação está alicerçada sobre os aspectos da representação e da cooptação política, proporcionada pelo uso do poder estatal, no sentido vertical das relações e não em um processo horizontal e democrático.
Nesse sentido, a história da representação política brasileira nos evidencia um caminho tortuoso e em certo sentido mascarado, onde o processo democrático somente existiu enquanto discurso de uma classe dominadora e defensora dos seus próprios interesses.
O que evidencia uma relação democrática e representativa de uma sociedade, segundo Celso Campilongo é a relação de input, output e feedback existente entre representante e representado. Nesse sentido, essa relação no Brasil foi poucas vezes identificada, uma vez que o poder estatal foi e continua sendo usufruído por uma minoria burguesa que somente o utiliza na defesa da sua própria ideologia.
De acordo com Duverger, os partidos políticos num sentido clássico de representação, somente começaram a aparecer no mundo em meados do século XIX. No entanto, no caso brasileiro, somente foram “aparecer” em meados dos anos 40 do século XX, após a ditadura varguista.
A existência de partidos políticos antes do período mencionado não significou de forma alguma, que houve relações entre representantes e representados. Em primeiro lugar, é necessário destacar a atuação do Estado para evidenciar tal proposição. Segundo Décio Saes, o Estado brasileiro sempre defendeu o interesse da classe dominante e esteve voltado para os interesses privados. Nesse sentido, podemos supor que o processo de representação política apresentado no caso brasileiro possuiu e ainda possui aspectos de unilateralidade.
É necessário ressaltar que no caso brasileiro, o processo de representação política sempre foi sinônimo de cooptação política. O Estado brasileiro sempre usufruiu do ditado popular “quando não se pode com o inimigo, junte-se a ele”. Foi segundo essa ótica que o Estado brasileiro conseguiu diluir o processo de representação política horizontal e democrático.
Segundo Tavares, “cooptação política é o processo pelo qual o Estado, através da superposição de níveis de mediação na participação política das forças sociais, consegue absorver e socializar os atores potencialmente representativos das diferentes forças da sociedade civil, dos interesses parciais e contrapostos em direção aos quais se movimentam aquelas forças e do conflito social que entre elas conseqüentemente se instala”[1].
O que evidencia o processo de cooptação política no caso brasileiro é a formação do Estado patrimonial, existente ainda no quadro atual, mesmo com todo o processo de “modernização” que o Estado brasileiro vem sofrendo.

PERÍODO DE 1889 A 1930

Esse período da história brasileira é marcado pela descentralização do governo e a forte atuação dos coronéis em vários estados brasileiros. Nesse sentido, uma obra que retrata com muita fidedignidade esse período é o clássico escrito por Victor Nunes Leal, Coronelismo, enxada e voto. Através dessa obra, conseguimos identificar a luta pelo poder no interior dos Estados brasileiros, a luta pela descentralização do poder do Estado e a elaboração da aliança do café com leite, que monopolizava o poder através da alternância no governo.
Nesse período não houve competição partidária. O único partido oficial era o Partido Republicano, mas que só atuava em caráter regional. Não era raro acontecer brigas para a apropriação do poder no interior do partido. Segundo Motta, “os partidos representavam uma coalizão de grupos políticos municipais, invariavelmente dominados por clãs familiares e/ou pelos velhos Coronéis”[2] e “dominavam a política de seus estados de cima a baixo , quer dizer , desde as menores localidades até as capitais, através de um sistema de alianças ligando as elites dos diversos rincões do Estado em torno da mesma organização”[3]
Não obstante, não houve aumento da participação popular nesse período. Ao contrário, ocorreu um processo de retração da participação popular nos pleitos realizados. Através do voto de cabresto, o indivíduo era obrigado a votar no coronel ou no candidato do coronel. Os analfabetos perderam o direito ao voto e segundo Motta, cerca de 80%[4] da população foi excluída, essa injustiça só foi reparada quase cem anos depois com a promulgação da Carta Constitucional de 1988. O indivíduo que queria participar do processo de votação, tinha que preencher o seu “alistamento”. De acordo com Motta, “houve uma alteração da renda mínima exigida para os eleitores de 100 mil para 200 mil réis e as eleições passaram a ser diretas, desaparecendo a distinção votante/eleitor: os (poucos) cidadãos que cumprissem as exigências mínimas da lei teriam as mesmas prerrogativas, exceto se almejassem eleger-se para o parlamento o que demandaria uma renda maior”[5]
Segundo Giusti Tavares a “Representação política é o processo pelo qual atores específicos empenham-se em articular, agregar e viabilizar politicamente interesses sociais parciais – de classes, estratos, profissões, grupos setoriais ou horizontais, bem como de coalizões entre tais segmentos da sociedade -, buscando persistentemente através do controle sobre o Estado, converter suas escalas alternativas de preferência em políticas públicas e, transfigurando-as simbolicamente, fazê-las assumir a feição legitimadora do interesse geral.”[6]
Nesse período da história brasileira era praticamente impossível falarmos em interesses sociais, ou mesmo em grupos setoriais, pois a maioria da população vivia em zonas rurais e apenas uma pequena parcela da sociedade brasileira encontrava-se nas zonas urbanas. Nesse sentido, essa minoria que vivia nas cidades conseguia se apossar das benesses proporcionadas pelo Estado, fazendo com que a maioria da população ficasse excluída do benefícios estatais e sobre a fiscalização dos coronéis.

1930 – 1945 O LEGADO VARGUISTA

Inicia-se nesse período uma fase de transição do governo e da transformação do papel do Estado. Se antes identificávamos um Estado descentralizado e oligárquico, com Getúlio em um governo transitório notamos uma grande atuação estatal, seja na implantação de grandes indústrias ou mesmo na atuação política.
A atuação do Estado nesse período interferiu de forma avassaladora no processo de representação política. O quadro encontrado por Vargas era extremamente complexo. A existência de uma grande camada de população rural e uma pequena parcela urbana, diferenciava a atuação política. Seu governo foi bipolarizado, ou seja, atuavam dois partidos políticos, o PSD e o PTB. O primeiro representava os grandes latifundiários e industriais e o segundo “representava” os sindicatos e as forças emergentes da sociedade brasileira.
Não obstante, a prática política em voga no governo Vargas, concentrava no chamado clientelismo estatal. Segundo Tavares, “clientelismo é um sistema adscritivo de controle, distribuição e alocação dos recursos de poder e de influência, tanto quanto dos benefícios inerentes ao acesso a tais ou quais postos da burocracia e dos estratos médio-inferiores do comando político do Estado que – embora eventualmente mediatizado por organizações partidárias – se faz mediante um padrão de relações individualizadas de tutelagem e dependência que tem, entre outras propriedades, a de neutralizar clivagens sociais e políticas mais inclusivas (do tipo classes, organizações autônomas e grupos de pressão, institucionalizados ou não) a partir das quais atores individuais ou coletivos, mas sobretudo categorias sociais personificadas, competiriam entre si pela influência e pelo controle sobre a formulação, no interior das arenas decisórias do Estado, de políticas substantivas”[7].
Nesse sentido, faz-se necessário destacar a atuação de Vargas, para a criação do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) que açambarcava os sindicatos fazendo com que os mesmos lutassem pelos interesses do Estado.
Por conseguinte, houve grandes conquistas do ponto de vista legal, sobre a representação política. Na Constituição promulgada em 1934 foi confirmado o sistema proporcional de votos e a implantação da Justiça Eleitoral, apesar dessas conquistas, os partidos continuaram a ser regionais ou estaduais, pois a nacionalização dos partidos aparece um pouco mais tarde.
Em 1937, Getulio Vargas fecha o Congresso Nacional e através do decreto-lei número 37 de 2 de dezembro de 1937, dissolveu os partidos políticos e instala a ditadura que vai durar até 1945. Através da manipulação da imprensa e do terrorismo político passa a ter controle sobre a população, não permitindo assim, qualquer tipo de manifestação política ou de reivindicação de classes. A tutelagem passou a ser a ferramenta mais utilizada pelo governo. No entanto, o governo de representação política ficou estagnado ou adormecido até 1946.

1946 – 1964 – DEMOCRACIA FRAGILIZADA

Com a deposição de Vargas, houve eleições para Presidente, Eurico Gaspar Dutra ganha e assume. Uma nova Constituição é promulgada e mais uma vez o projeto que regulamenta os partidos políticos foi modificado. Segundo Melo Franco, “o projeto admitiu a formação de partidos com a prova de cem aderentes – coisa realmente absurda – e o decreto aumentou este número para dez mil, o que ainda era pouco. Mas, disposição importante, tornou obrigatório o âmbito nacional dos partidos (art. 110, Parágrafo 1)”[8]. Mesmo com essas alterações na legislação esse período foi marcado pela atuação dos partidos criados por Vargas, o PSD e o PTB, mantiveram através de alianças a hegemonia até a instauração da ditadura militar.
No entanto, é necessário ressaltar que houve nesse período um fortalecimento dos quadros nacionais, pois a “Constituinte de 1946 reuniu-se com representantes eleitos em todo o país sob a legenda de partidos políticos nacionais”[9].
O artigo 34 da legislação partidária é bem claro “o sufrágio é universal e direto e fica assegurada a representação proporcional dos partidos políticos nacionais, pela forma que a lei prescrever”[10].
Mesmo a legislação partidária proporcionando uma democratização do processo político, na prática o que se evidencia é a manipulação e a manutenção de interesses. O sufrágio pode ser universal, mas é de forma apelativa, manipulado, a compra de votos aumenta a cada eleição e a degradante manipulação de interesses se perpetua através dos tempos.
Segundo Tavares, “os estudos de interpretação global das relações entre Estado e sociedade no Brasil, desenvolvidos embora em molduras teóricas muito diferentes entre si, têm alertado para a continuidade da tradição brasileira de predominância da cooptação sobre a representação política que, deitando raízes na herança ibérica colonial, atravessou o Império e a República, cristalizou-se sob o Estado Novo e, depois de se desenvolver oculta sob a aparência do interlúdio democrático liberal de 1945 a 1964, constituiu um dos recursos fundamentais com os quais contou o sistema político inaugurado em 1964 na estratégia que lhe assegurou o equilíbrio e o desenvolvimento”[11]

1964 –1985 – DITADURA MILITAR

Todo processo montado então sobre os partidos políticos, legislação, aquisição de direitos políticos e regulamentação do processo de votação, foi por água a baixo com a tomada do poder pelos militares.
Apesar de ser mantida uma base de partidos políticos, com a clara intenção de mascarar uma “ditadura democrática” é clara a intenção de governar com mão de ferro o país. A base partidária existente até então fundiu-se em dois partidos, a partir do AI2 Ato Institucional número 2, que regulamentou a atuação dos partidos políticos naquele período, basicamente, a ARENA, (Aliança de Renovação Nacional) ,“o partido do sim senhor” e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) que possuía nos seus quadros a atual elite política brasileira.
Todos os direitos políticos foram cassados, pessoas foram exiladas em outros países. As eleições do executivo passaram a não ser diretas, os governadores passaram a ser nomeados, com o intuito claro de manutenção do poder militar.
Segundo Tavares, os militares queriam proporcionar “a desmobilização dos segmentos mais radicais, a instituição de uma democracia representativa com participação política limitada, a ascese financeira na administração pública e na gestão dos investimentos estatais e, last bust not least, a restauração da espontaneidade da economia de mercado, com um mínimo de regulação e vigilância estatais”[12]

1985 – 2001 ABERTURA POLÍTICA E MANUTENÇÃO DO PROCESSO DEMOCRÁTICO

A representação política no Brasil sempre apresentou aspectos de desigualdades, seja por excluir do processo os cidadãos comuns, seja pela elaboração de leis que regimenta o processo democrático.
Através da legislação eleitoral brasileira encontramos os aspectos da desigualdade, onde os estados menores possuem uma sobre representação e os estados maiores são sub-representados. Privilegiou-se nesse sentido, as oligarquias do Norte, do Centro-Oeste e do Nordeste que conseguiram através de muita barganha política manter a representação paritária dos estados.
Nesse sentido, a representação proporcional brasileira apresenta um número mínimo e um número máximo de deputados que podem ser eleitos por estados. É essa determinação que proporciona a desigualdade na representação, pois estados como São Paulo que é extremamente povoado, possui o mesmo número de deputados que o Estado do Acre.
Nesse sentido, os deputados dos estados minoritários conseguem a mesma quantidade de verbas que os estados majoritários popularmente, e conseguem manter através de barganhas políticas os “projetos políticos” para as suas regiões.
Não obstante, o processo de desigualdade da representação política beneficia de forma ampla e restrita os partidos tradicionais e conservadores e age de forma avassaladora contra os partidos pequenos, que de certa forma possuem um posicionamento ideológico.
Por conseguinte, a falta de punição para quem burla as leis partidárias provoca de certa forma o processo de não fortalecimento de quadros partidários, enquanto formação de maiorias estáveis ou de uma oposição com vigorosa e com disposição para enfrentar os malefícios proporcionados pela situação. Identificamos no Brasil o troca-troca de partidos o que só fortalece os maus políticos e maus intencionados que pensam exclusivamente em montar fortunas com dinheiro proporcionado pelo Estado brasileiro e se beneficiarem de políticas. Como exemplo de tal ocorrência podemos citar o caso de um determinado Ministro do governo FHC que montou uma empresa para canalizar verbas destinados pelo Estado para a execução dos serviços.
[1]
[2] Motta, Rodrigo Patto Sá. Introdução à história dos partidos políticos brasileiros. Belo Horizonte: UFMG, 1999. Pág. 53.
[3] Motta,. Pág. 53.
[4] Motta,, pág. 54.
[5] Motta, pág. 55
[6] Tavares, José Antonio Giusti ; Rojo, Raúl Enrique. Insituições políticas comparadas dos países do Mercosul. Rio de Janeiro: FGV, 1998. Pág. 209.
[7] Tavares pág. 204.
[8] Franco, Afonso Arinos de Melo. História dos partidos políticos no Brasil. 3 ed. São Paulo: Alfa-Omega. 1980. Pág. 79..
[9] Franco, pág. 80.
[10] Franco, pág. 81
[11] Tavares, pág. 210
[12] Tavares, pág. 226.

Sobre a Alca


As discussões sobre a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) apenas começaram e as divergências sobre o assunto já dominam os noticiários tanto nos meios acadêmicos, como nas sucursais dos periódicos.
Nesse sentido, aspectos do bem e do mal sobre o tema são levantados como uma certa paixão, não proporcionando assim, aspectos discussões racionais sobre a inserção do Brasil ao projeto de integração “econômica” proposta pelos norte-americanos.
As discussões sobre o tema giram em torno de duas palavras mágicas, ou seja, o sim e o não. Os adeptos do sim, expõem que o Brasil precisa fazer parte da empreitada justamente por causa da evolução tecnológica que o mundo atravessa. Caso o Brasil não aceite participar do processo, ficará excluído das políticas globalizantes.
Segundo o editorial do Jornal Gazeta do Povo do dia 5 de fevereiro de 2001, “ o processo de integração das economias nacionais segue uma tendência ditada pela evolução tecnológica, que encurtou distâncias e aproximou produtores e consumidores”[1]. Por conseguinte, a inserção do Brasil na Área de Livre Comércio é uma questão de tempo e não de um processo de discussão sobre os pontos relevantes e não relevantes para o país.
Os aspectos levantados sobre os adeptos do não, levam em conta não somente o fato das fronteiras terem se “rompido” com as transformações tecnológicas, mas também pontos cruciais que pesam nas negociações, como por exemplo, as questões culturais, as diferenças regionais, o protecionismo de mercado por quem deseja a implantação da Área de Livre Comércio e a própria autonomia do Estado para a realização de políticas.
Em última análise, o que se evidencia nas discussões sobre a Alca é o processo de protecionismo das economias que estão propondo a discussão sobre o tema, “ a efetivação da retaliação nas exportações brasileiras de carne bovina é preocupante, porque embora as vendas para aquele país sejam pequenas – conforme declarou um porta-voz do setor no Paraná – pode ser copiada pelos Estados Unidos e México, desencadeando um efeito em cadeia prejudicial ao nosso comércio exterior”[2].
Nesse sentido, o efeito cascata de tal medida parece ter ecoado em terras americanas, segundo Valderez Caetano, articulista do Jornal do Brasil “ o governo brasileiro reagiu ontem com rapidez à informação de que os Estados Unidos querem abrir oficialmente uma investigação sobre supostos danos das exportações mundiais de aço ao mercado americano.... O Ministro Alcides Tapias, disse esperar “que prevaleça o bom senso para que seja de todo modo evitada a imposição de barreiras às exportações de aço do Brasil”[3].

Por conseguinte, os adeptos do não, argumentam que a Alca, faz parte da Doutrina Monroe, ou seja, o projeto americano que possui como lema a “América para os americanos”, claro que de uma forma inovadora com novo contexto e até mesmo com aspectos de dominação mais amplo.
No caso do Brasil, as disparidades regionais é um outro aspecto preocupante para os adeptos do não. De acordo com os não simpatizantes, o que está em relevo é o aspecto unilateral das discussões. Os argumentos que circulam o aspecto unilateral se concentram na homegeneidade do Estado norte-americano, ou seja, não há enormes disparidades sociais entre os estados. No Brasil, com enormes desigualdades, o assunto não pode ser tratado de forma igualitária, uma vez que há disparidades regionais e sociais enormes. O Brasil possui somente alguns estados que podem concorrer e participar do processo de exportação, pode-se citar São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, que possuem pólos industriais desenvolvidos e grande concentração de mão-de-obra especializada. Em última análise, e os outros estados da Federação, como participarão do processo da Área de Livre Comércio? Somente com isenção fiscal para a instalação de indústrias estrangeiras? Somente com mão-de-obra barata para a confecção de produtos?.
Os temas que estão em discussão sobre a Área de Livre Comércio enfatizam somente os aspectos econômicos: acesso a mercados; investimentos; serviços; compras governamentais; agricultura; propriedade intelectual, subsídios, antidumping e medidas compensatórias e políticas de concorrência.
Nesse sentido, o foco central da discussão para os não simpatizantes localiza-se no desenvolvimento do processo educacional. Uma política efetiva de produção científica não foi regularizada pelo Estado brasileiro, assim como o desincentivo às pesquisas através de cortes de verbas e o sucateamento das Universidades brasileiras. Sendo assim, como lutar por uma política de propriedade intelectual no contexto internacional?. Em última análise, os apontamentos positivos do governo sobre o desenvolvimento da alfabetização no país vem tomando as páginas dos jornais de forma explosiva, com números muito elevados e patamares discutíveis de aceitação. Por conseguinte, o processo educacional brasileiro é a pedra fundamental para a solidificação de um tratado internacional pautado no respeito às diferenças de cada país e concomitantemente servirá para uma relação de não subserviência às grandes potenciais mundiais.
Existem outros fatores que precisam ser pensados sobre a inserção do Brasil à Área de Livre Comércio das Américas. Esses são somente alguns tópicos que precisam ser analisados não só pelos críticos do processo em evolução, mas também por aqueles que aceitam sem terem argumentos o suficiente para a defesa de tal tese.
No entanto, um aspecto a ser salientado sobre a inserção do Brasil à ALCA é de que somente o Estado brasileiro pode diminuir as suas próprias diferenças para posteriormente pensar em uma posição internacional pautada no respeito e na reciprocidade. Estado brasileiro mãos à obra.

[1] Editorial. O debate da Alca e o Brasil. Gazeta do Povo, Curitiba, 5 de fev. 2001.
[2] Editorial. O debate da Alca e o Brasil. Op. Cit.
[3] Caetano, Valderez. Aço:ameaça dos EUA pode prejudicar Alca. Jornal do Brasil, 7 de jun. 2001.

Friday, 22 June 2007

Sobre o Poder Executivo

“Dos três poderes acima mencionados, o judiciário é quase nada”
Montesquieu

A luta constante para constituir a legitimidade do poder político através dos tempos passou pelo crivo de dois pontos de discussão que por si só são antíteses por natureza.
De um lado, está o poder emanado de Deus, cujo qual os monarcas da Idade Média revestiam com astúcia e sagacidade para impetrar as diretrizes políticas e os desmandos que lhe eram inerentes.
De outro lado, está o poder emanado do povo, aquele cujo qual os súditos ou plebeus são ouvidos, no sentido de proporcionar aquilo que é denominado como poder legítimo, abrindo espaço para o fenômeno do republicanismo.
A discussão entre teocentrismo e republicanismo está centralizada justamente no que diz respeito às limitações da questão do poder.
Durante a Idade Média, os conceitos de autoridade e obrigação política estavam atrelados à proposição luterana de que a natureza da autoridade inexistia sem uma porção de dotes religiosos. “O poder do rei deve estender-se ao julgamento de todas as causas, eclesiásticas e temporais, e que esse próprio poder deve ser absoluto, pois “não existe ninguém a quem o rei deva prestar contas”[1].
Quando se trata de discutir o poder dos súditos no interior do pensamento teocentrista recorre-se à doutrina passiva de São Paulo que é objetiva em suas entrelinhas, “todo homem deve submeter-se às autoridades constituídas, pois todo poder é de Deus”[2].
O pensamento teocentrista começou a modificar-se ainda no limiar do século XII com o movimento conciliarista. O movimento conciliarista tratava-se de uma série de argumentações que tinha como ponto fulcral de discussão a proteção da Igreja contra as intenções de heresia ou do mau governo do papa.
A principal idéia do movimento conciliarista era de ver a Igreja somente como uma forma de Monarquia Constitucional, aonde a Igreja passava a ser apenas uma espécie. Nesse sentido, a localização do poder político sofria sua mais intensa transformação, passando das mãos da proteção divina para as formas republicanas, ou seja, evoluindo em direção ao constitucionalismo.
O poder da Igreja sofria um processo de deslocamento e se movimentou do sentido de poder pleno para apenas e tão somente no sentido do poder espiritual.
De acordo com um teórico chamado Gerson da Igreja da Idade Média e expoente das teorias republicanas, a localização da autoridade numa sociedade perfeita pode ser encontrada através de três afirmações. “A primeira e mais importante é que nenhum governante pode ser maior, em poder do que a comunidade que governa...o segundo, que o status de todo governante em relação a essa comunidade deve, em conseqüência, ser o de um mister ou rector, e não de um soberano absoluto... e conclui que todo governante digno do nome deve sempre agir “para o bem da república “de acordo com a lei”. Ele não está “acima” da comunidade, mas faz parte dela; está comprometido com suas leis e limitado por uma obrigação absoluta de “visar o bem comum em seu governo” [3].
Baseado na concepção republicana que já se emergia durante a Idade Média, Charles-Louis de Secondat, o Montesquieu escreve no século XVIII, a obra que vai revolucionar e dar início ao que posteriormente Max Weber denominará de Estado Moderno. Trata-se de uma proposição de Organizações Políticas e sobretudo do processo de limitação das questões do poder, proporcionando assim, os capítulos finais da história do absolutismo desmoderado da idade medieval.
Sobre a necessidade da limitação dos poderes, Montesquieu é enfático, “o homem como ser físico, é tal como os outros corpos, governado por leis invariáveis. Como ser inteligente, viola incessantemente as leis que Deus estabeleceu e modifica as que ele próprio estabeleceu”[4]. Nesse sentido, Montesquieu enxerga nos homens, seres limitados e que mesmo provedor de inteligência , é capaz de agir com ignorância e errar além de estar sujeito às múltiplas paixões, fazendo com que os mesmos esqueçam da vida em sociedade, apelando para as leis da natureza, o que justifica segundo ele o estabelecimento das leis entre os homens.
Por conseguinte, na obra “O Espírito das Leis” , Montesquieu trata de três diferentes formas de governo: o Republicanismo, o Monárquico e o Despótico. O que está relacionado estritamente com o desenvolvimento deste trabalho e trata-se de objeto de ação é o Governo Republicano. O Governo Republicano para Montesquieu é o “governo em que o povo, como um todo, ou somente uma parcela do povo, possui o poder soberano” [5].
No Capítulo II do Livro Segundo “Do Governo Republicano e das Leis Relativas à Democracia “ Montesquieu afirma, “quando, numa república, o povo como um todo possui o poder soberano, trata-se de uma Democracia. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo, trata-se de uma aristocracia” [6]. Nesse sistema é fundamental a existência do sufrágio para a escolha dos governantes, uma vez que de acordo com Montesquieu o povo não é capaz de governar com sabedoria uma vez que lhe falta a condição necessária para lhe dar com os próprios interesses. “O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua autoridade...saberá o povo dirigir um negócio, conhecer os lugares, as ocasiões, os momentos e aproveita-los? Não: não saberá.” [7].
No entanto, assim como os monarcas governavam baseados na licença de um Deus onipresente e onipotente, no governo democrático a licença, ou seja, a legitimidade política encontrava-se nos braços do povo e só podia ser mantida, de acordo com Montesquieu, através da força da virtude. “A república é um despojo mas sua força não é mais do que o poder de alguns cidadãos e a licença de todos” [8].
Apesar de Montesquieu ter estudado e apresentado uma solução legal para as questões do poder, através dos órgãos do Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário e ter designado a cada um a sua função, ao Poder Executivo (executar), ao Poder Legislativo (Legislar) e ao Poder Judiciário (Cumprir o ato normativo) e influenciado os quatro cantos do mundo, através da sua teoria, na prática tal divisão não apresenta contornos simples de delineamento. Em primeiro lugar, há de se levar em consideração as diferenças de época e as idiossincrasias populacionais. Em segundo lugar, as diferenças de constituição de uma determinada população, seus hábitos e modos distintos e em terceiro lugar, o ponto principal entre a teoria e a prática proposta por Montesquieu, ou seja, as dimensões quase inimagináveis de alocação de poder.
As formas com que se constituem as relações de poder na sociedade contemporânea contribuem para a não determinação exclusiva de papéis a serem desempenhados por um único Poder, o principal argumento que fortalece tal proposição está localizada nas formas de poder que são exógenas a um determinado país, ou seja, as relações de poder não se encontram mais no interior de um determinado local, mas lhe é imposto pelas condições internacionais, fazendo com que as formas de poder local sofram transformações não somente em seus princípios, mas principalmente em suas atitudes.
Em um mundo que prevalece a sociedade de massas e que sofre a interferência de mecanismos externos a todo instante “não há como manter a distinção entre legislação (função legislativa) e administração (função executiva). O governo compreende ações legislativas e administrativas. A legislação e a execução das leis “não há funções separadas ou separáveis, mas sim diferentes técnicas do political leadership” [9].
Nesse sentido, o Poder Executivo lidera os dois poderes assumindo assim uma certa relação de despotismo. Não aquela baseada em um poder teocentrista de caráter medievalista, mas de uma forma moderna, sem o uso da força na acepção da palavra, mas com a anuência da legitimidade proporcionada pelo direito. O Poder Executivo na atualidade utiliza-se muito mais das suas prerrogativas administrativas do que propriamente de uma condição legal. “O Poder Executivo maneja dinheiro, executa serviços, constrói obras públicas, controla o câmbio e a emissão de moedas, negocia títulos públicos para arrecadar fundos ou para controlar a economia, fiscaliza as instituições bancárias financeiras, de seguros , os fundos de pensão, oferece créditos subsidiados a esta ou àquela atividade econômica...o Estado age mais por meio da administração do que propriamente por meio da lei, embora esta seja mais utilizada do que antes, tendo por isto sofrido um processo de banalização” [10].
Em uma sociedade com características globais e com pensamentos racionalistas sobre as questões da vida, o posicionamento daqueles que são incumbidos da elaboração das leis torna-se a cada segundo mais ingrato, tendo em vista a tecnicização imposta pelo desenvolvimento econômico que assolou o mundo nos últimos anos. A tecnicização da sociedade dificulta a elaboração de leis por parte do Poder Legislativo, porque exige um preparo maior deste com relação a aquisição de conhecimentos, ou seja, exige um preparo técnico aprimorado ou uma especialização. Em contrapartida, a escolha dos congressistas não está baseada em critérios de conhecimento específico ou técnico mas sobretudo através do sufrágio. A supremacia do Poder Executivo frente ao Poder Legislativo também se estabelece por esse último existir em grande número, enquanto o Poder Executivo é exercido por um número bem inferior de pessoas.
Um dos pontos a ser considerado sobre a supremacia do Poder Executivo sobre o Poder Legislativo, está relacionado com o sistema político vigente. A política de alianças que predomina na política contemporânea estabelece como ponto principal de poder de barganha a composição política que irá gerar a maioria governista na Câmara dos Deputados, o que serve para o Poder Executivo usufruir do fenômeno da governabilidade. Dessa forma, o Poder Legislativo se curva diante dos interesses do Poder Executivo, no sentido de aprovar todos os projetos enviados pelo mesmo. A missão do Poder Legislativo cabe a apenas ao envio de emendas aos Projetos de Lei impetrados pelo Poder Executivo. Os Projetos de Lei elaborados pelos membros da Câmara dos Deputados somente sofrem processo de discussão e votação se forem de interesse do Poder Executivo ou se não estiver relacionada com questões políticas de “supra importância”.
A principal função do Poder Legislativo no quadro político contemporâneo é de vigiar e punir atos do Poder Executivo, mas que também é colocada em posição duvidosa uma vez que o mesmo possui a maioria dos Congressistas. “O presidente é eleito para cumprir um mandato. Porém, apenas raramente o governo deixa de possuir o apoio da maioria parlamentar. Então, se possui a maioria, logo o controle parlamentar sobre os seus atos é praticamente nenhum...se não possui referida maioria, poderá obtê-la , fazendo uso dos conhecidos mecanismos de pressão e sedução” [11].
No interior do sistema democrático em voga não seria competência do Poder Executivo propor Projetos de Lei ao Poder Legislativo. No entanto, a participação do Poder Executivo no interior da atividade legislativa se dá de duas formas de acordo com Clève:
- “Intervir em um das fases do procedimento de elaboração da lei”;
- “Exercer ele mesmo, a função de elaborar o ato normativo”[12];
Apesar do fortalecimento da democracia em nível mundial, o Poder Executivo na sua atual forma, ainda possui traços marcantes do despotismo medieval carregando em suas costas o poder da decisão final sobre todos os temas debatidos. Trata-se do poder de veto. “E o veto poderoso instrumento de controle do Poder Executivo sobre a ação legiferante do Congresso Nacional”[13]. Dessa forma, se o Projeto de Lei for do interesse do Poder Executivo, o mesmo sanciona e se não for, é vetado, possuindo um prazo para ser revisto e modificado conforme as suas próprias diretrizes.
Uma das questões intrínsecas ao fenômeno da globalização e que interfere de forma violenta nas relações de poder, está relacionada com o conflito de interesses entre aqueles que detém o poder econômico e o próprio Estado, fonte inesgotável de receitas. A formulação de determinadas leis em caráter próprio, ou em benefício de um determinado grupo também colabora para que o Poder Legislativo se curve perante aos interesses do Poder Executivo. “ São as grandes corporações, os sindicatos, os partidos políticos, as associações culturais e de classe, a igreja, as grandes empresas, os conglomerados bancários: grupos dotados de interesses próprios, quase nunca coincidentes com aqueles do Estado, que muitas vezes disputam poder com este, e não poucas vezes mais poderosos que ele”[14]. O problema relacionado entre os interesses dos membros das Casas Legislativas e as questões do poder privado está de forma intrínseca ligado às regras e determinações das campanhas eleitorais. A permissão de financiamento de campanhas políticas por parte do setor privado, coloca os próprios legisladores como refém de políticas que inúmeras vezes não estão em harmonia com os interesses da coletividade. Por conseguinte, compete ao Poder Executivo, personalizado na figura do Presidente da República pensar e agir em detrimento da coletividade, gerando uma relação personalista e com características populistas.
As inúmeras tarefas exercidas pelo Poder Executivo e a sua autonomia de geração de receitas, deslocam o alvo de grupos de interesses. Com a perda da exclusividade do processo legislativo, os grupos de interesses se deslocam para o Poder Executivo, comprometendo a unanimidade que o processo democrático adquiriu no sentido mundial nos últimos anos.
Se o Poder Executivo possui inúmeras atribuições e com características totalitárias se impõe ao Poder Legislativo e ao Poder Judiciário, o mesmo não pode estar relacionado com a queda de braço entre os interesses do Poder Executivo e os interesses privados. Inúmeras são as desconfianças de que o Poder Executivo se ajoelha diante dos interesses do setor privado e como exposto anteriormente colocando em posição de xeque mate a eficiência da democracia. O pensador italiano Norberto Bobbio em seu livro o futuro da democracia, é claro em dizer que a democracia não cumpriu suas promessas e que necessariamente precisamos reinventa-la.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] Skinner, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Pág. 393.
[2] Skinner, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. Op. Cit. 393.
[3] Skinner, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. Op. Cit. Pág. 397.
[4] Montesquieu. Do Espírito da Leis. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1997. Pág. 39.
[5] Montesquieu. Do Espírito das Leis. Coleção Os Pensadores. Op. Cit. Pág. 45.
[6] Montesquieu. Do Espírito das Leis. Coleção Os Pensadores. Op. Cit. Pág. 45.
[7] Montesquieu. Do Espírito das Leis. Coleção Os Pensadores. Op. Cit. Pág. 47.
[8] Montesquieu. Do Espírito das Leis. Coleção Os Pensadores. Op. Cit. Pág. 61.
[9] Clève, Clemerson Merlin. A função legislative do Poder Executivo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. Pág. 34.
[10] Clève, Clemerson Merlin. Atividade legislative do Poder Executivo. Op. Cit. 52.
[11] Clève, Clemerson Merlin. Atividade Legislative do Poder Executivo. Op. Cit. Pág.148.
[12] Clève, Clemerson Merlin. Atividade Legislativa do Poder Executivo. Op. Cit. Pág. 100.
[13] Clève, Clemerson Merlin. Atividade Legislativa do Poder Executivo. Op. Cit. Pág. 118.
[14] Clève, Clemerson Merlin. Atividade legislativa do Poder Executivo. Op. Cit. Pág. 44

A época das perplexidades



No século XX a internacionalização foi sustentada por atores empresariais que atuavam com agentes centrais da produção, mas também como atores políticos junto a sindicatos e partidos políticos.
Os motores da internacionalização foram as empresas domésticas que visavam o mercado nacional como campo de atuação e as empresas exportadoras que se lançavam ao mercado externo.
As empresas multinacionais que marcaram os anos 60 e 80 buscaram diversos tipos de vantagens comparativas: matéria-prima abundante ou exclusiva, salários baixos, proximidade de mercado consumidor e trabalharam com produtos de destaque individual.
Para enfrentar os novos desafios as empresas multinacionais reformularam as suas premissas organizacionais, redesenharam o mercado, buscando alongar a base social, ultrapassando os limites nacionais.
As empresas multinacionais dinamizaram três grandes processos de transformação: mundialização de estilos, usos e costumes, de globalização tecnológica, produtiva e comercial; e de planetarização da gestão.
Esses processos permitem vislumbrar movimentos diferentes e potencializadores: o nascimento de um tecnoeconomia global, rede de sociedades e comunidades ciber-espaciais e a configuração de um esboço político planetário que condicionam as rearticulações político estratégicos.

Mundialização de usos e costumes
A mundialização compreende a generalização e uniformização de produtos, instrumentos, informação e meios à disposição de importantes parcelas da população mundial.
A mundialização trabalha com a população mundial a despeito das suas diferenças históricas (culturais, sociais, nacionais religiosas) e das distâncias físicas – consome e reconhece como “seus” os mais diversos objetos e procedimentos.
Neste sentido, a mundialização lida com a massificação e homogeneização cultural, que se explicita nos hamburguers, pizzas, sorvetes. Mas a mundialização também incorpora as particularidades locais , regionais, nacionais. A mundialização é portanto é desdobramento da economia e da política. Refere-se a valores e referências, a produtos e métodos desejados e passíveis de utilização, nos mais diversos países sem ater-se à sua origem nacional ou cultural.
A mundialização tem como eixo de consituição – ao invés dos produtos mecânicos e dos instrumentos-objeto – os produtos “inteligentes” – os instrumentos sistema (computadores, telefones, tevês, fax , controladores) que fundem num só, os instrumentos-conhecimento e os serviços-sistema baseados na indústria da informação – aos quais são inerentes uma série de insumos e apoios múltiplos para a sua produção e manutenção.
A mundialização se realiza também por vias de macrossistemas infotelecom permitindo a difusão instantânea da informação (atuação transnacional da mídia visual e transmissão e disseminação cultural transfronteiras em tempo real), potencializada pelas diversas redes de serviços on-line, que inauguraram novas modalidades de compras, consultas, notícias, entretenimento, intercâmbio social e acadêmico.
A mundialização também se organiza e se faz a partir de megaespaços urbanos, diferenciados por sua localização física e sua história. Esses espaços-cidades concentram e agregam funções financeiras, industriais, científicas, tecnológicas, culturais e políticas – que se articulam e se inter-relacionam “por sistemas de formação que fornecem os quadros e os dirigentes das empresas e dos Estados”.

Globalização Tecnoprodutiva

A globalização é alavancada num novo tripé financeiro: o sistema bancário, que está assentado sobre muitos bilhões de dólares dos vinte maiores bancos do planeta, e da enormes quantias depositadas que chegam a mais de 6 trilhões de dólares; os fundos mútuos de ação; e as seguradoras.
A globalização traz consigo a concentração de capitais, reforçada por processos de associação e incorporação de diversos tipos (fusões de iguais, absorções hostis) e outras variadas razões: adição de valor às posições dos acionistas, redução de custos, ganhos de escala, tomada de posição em novos mercados, penetração regional ou nacional alcance multinacional, aumento da produtividade.
A globalização financeira, num mercado mundial inter-relacionado de capitais e serviços, escapa ao controle dos Estados e de seus bancos centrais, mesmo das instituições financeiras internacionais e multilaterais, graças aos recursos da teleinfocomputrônica e das novas tecnologias financeiras.
A globalização também se refere a uma multiplicidade de processos interativos (sinergias, coalizões, alianças, redes) preconizados por “produtores” e “gestores” transnacionais, que formulam diretrizes num universo sistêmico de decisões, refletindo uma interação seletiva e excludente das corporações estratégicas, centradas no espaço triádico.
Outro aspecto importante da globalização produtiva e de mercados se assenta na padronização de produtos, e por sua vez,é sustentada pela comunidade de consumo. A padronização é induzida pelos “fabricantes globais”. Ela traz consigo, num ritmo intenso, a globalização do varejo, principalmente através de empresas poderosas norte-americanas.
A globalização econômica exige a padronização de serviços e produtos , mas precisa lidar com a variedade de sociedades dos diferentes países. Nesse sentido, Estados e sociedades nacionais não podem ser padronizados por decretos, indução ou constrangimento. No entanto, a globalização coexiste, portanto, com realidades singulares e com processos de afirmação de particularidades que antecedem( ou se apresentam como reação ao fenômeno da mundialização).
A diversidade cultural também orientará o processo de globalização econômica, embora – num aparente paradoxo – passe a a introduzir novas formas de atividades, singularmente territorializadas: produção localizada baseada em recursos locais e até normas locais.
Segundo Dreifuss, a globalização e um termo que expressa a dualidade do fenômeno – o customizing (ajuste ao sabor local) e a harmonização (global) do produto e do produtor, dos procedimentos e das percepções – operando dentro de um mesmo processo de globalização.
Estimula-se a diversidade estrutural e recusa-se a padronização para combinar e fazer convergir as demandas específicas. Esta será a marca da primeira década do século XXI: o preparo do terreno para a nova mundialização de consumo e conjunção de singularidades , para a consolidação da globalização tecnoprodutiva e para a nova mentalidade planetária de gestão e percepção de si próprio na gaia da terra.
Planetarização político-estratégica
Os processos de mundialização e globalização se desdobram em diversas “horizontalizações” sistêmicas e espaciais: econômicas, políticas e societárias. Este conjunto de mutações em processo é coroado e sintetizado na noção de planetarização.
A planetarização trata de vínculos expressos na trama de organizações transnacionais e de instituições supranacionais que fazem parte de um novo tecido político e de gestão, e dá outro significado à noção de pertencer , resignificando a multiplicidade de inserções sociais e nacionais.
A planetarização envolve os perímetros intangíveis de infomação e a colossal influência cultural multicruzada – abrindo o capítulo das relações intersocietais. Nesse sentido, a planetarização lida com conflitos e contenciosos transnacionais e transfronteiriços.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Dreifuss, René Armand. As transformações. In: A Época das perplexidades. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 133-177.

O fim das ideologias

O fim das ideologias surge na história das doutrinas políticas a partir dos anos cinquenta com a crise estabelecida sobre o Estado de bem-estar social, ou Welfare State. Daniel Bell, em O fim das ideologias apresenta argumentações sobre o assunto que posteriormente vão tomando corpo e que se agiganta algumas décadas depois com o advento da queda do muro de Berlim.
A história do fim das ideologias surge logo após a Segunda Guerra Mundial. As décadas que seguem dos anos 30 aos 50 foram palco para o desfile de armamentos, mortes e sobretudo da elevada ignorância humana. Esse período apresentou uma depressão mundial, a ascensão do nazismo e do fascismo. No período pós-guerra, o keynesianismo, teoria que propõe a intervenção do Estado na sociedade começa a ser contestada.
Através da críticas às propostas marxistas, uma nova ideologia se descortina. Se na visão marxista, os homens se compunham em classes sociais na nova ideologia impera o individualismo. Se as verdades na concepção marxista se revestiam em verdades de classe e as verdades individuais se apresentavam como mascaramento, na nova ideologia toda a ênfase está situada nas questões individuais. Se o Estado para Marx estava atrelado às questões da vontade geral, para a burguesia o Estado se apresenta com as características da neutralidade.
A desmistificação da religião torna-se uma questão de princípio. O homem passa a ser o “centro” do universo através do processo de racionalidade. A racionalidade “substitui” as questões da tradição. A economia precede as questões políticas. O Estado começa ser de forma sublime a ser substituído pelas leis do mercado.
Os novos parâmetros ditados para a sociedade criam forças maiores a partir dos governos Tatcher e do cowboy Ronald Reagan no final da década dos 70. Esses governos marcam com veemência a implantação do liberalismo exacerbado, proporcionando contornos cada vez mais fortes às cores apagadas do neoliberalismo.
A partir dos governos Tatcher e Reagan o neoliberalismo assume uma feição moderna e consegue adeptos através de suas propostas. O Estado de certa forma se ausenta das relações econômicas e o mercado torna-se o príncipe, assumindo a coroa do capitalismo moderno.
Por conseguinte, enquanto as relações econômicas se “modernizam” em países como os Estados Unidos e Inglaterra, assumindo uma característica global, na União Soviética o socialismo caminha a passos cada vez mais lentos rumo ao processo de degradação, através de uma sociedade economicamente falida e burocraticamente problemática.
Uma divisão do mundo está estabelecida: o capitalismo, ancorado pelas superpotências mundiais, Estados Unidos e Inglaterra e o socialismo, determinado e imposto pela potência russa. As ideologias contrárias travam batalha em busca da hegemonia. A Guerra Fria se estabelece.
O debate contemporâneo sobre o fim do Estado, nasce com a queda do muro de Berlim em 1989. Foi quando Francis Fukuyama escreveu um artigo dizendo que a história havia chegado ao seu fim e o capitalismo permeado pela democracia se perpetuaria.
Os argumentos pró Fukuyama sustentam que atingimos o máximo no processo de evolucionismo social, os argumentos contrários se sustentam sobre a frase marxista de que a história pode se repetir seja como farsa ou como tragédia.
Apesar da tese de Francis Fukuyama ser bem elaborada e fundamentada sobre todos os aspectos, não se pode levar em consideração a bondade ou maldade que os corações humanos carregam em seu interior.
Muito embora, Francis Fukuyama tenha afirmado em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo que nenhuma ideologia contrária tenha se colocado com ênfase contra o sistema capitalista, percebe-se não uma polarização entre duas ideologias distintas, mas uma transformação em seu próprio interior.
Ralph Miliband em seu artigo denominado Fukuyama e a alternativa socialista, afirma que “em oposição a essa linha de raciocínio, gostaria de demonstrar que realmente existe uma alternativa radical de esquerda à democracia capitalista. Essa alternativa é a democracia socialista que não guarda nenhuma relação com o comunismo de tipo soviético, e que Fukuyama falha completamente por não considerá-la”[1].
Nesse sentido, acontecimentos recentes demonstram o quanto é imprescindível a participação do Estado, seja na condução da formulação de políticas ou mesmo da economia.
Torna-se inviável pensarmos sobre o fim das ideologias com as evidentes desigualdades sociais existentes. Mas pensar em um mundo com processos de ruptura no sentido marxista a priori me parece um tanto utópico. Por utópico tem-se a proposição de Mannheim, ou seja, que possui uma relação com o mundo das idéias. Não por acreditar que a história não possa se repetir, mas muitos são os meios de manipulação existentes na sociedade e carregam inúmeros interesses de caráter capitalista. A princípio acreditava-se que o Estado no sentido keynesiano fosse capaz de resolver os problemas da sociedade, mas muitos foram as crises, tanto políticas quanto econômicas. No sentido político pode-se citar os monstros do nazismo e do fascismo, na economia, o processo de depressão econômica. Nos últimos 30 anos pensou-se que a política neoliberal como a supremacia do mercado sobre as questões do Estado fosse capaz de erradicar os problemas econômicos. O que se percebeu foi o estabelecimento da crise da democracia e o crescimento vertiginoso da desigualdade social.
Muito embora tese marxista do materialismo histórico seja latente na sociedade contemporânea ela já não atua sobre determinadas classes, mas principalmente sobre indivíduos. A tese dos proletários unidos, não faz mais sentido em mundo cada vez mais individualizado. Talvez fosse mais correta na contemporaneidade seja, “indivíduos do mundo todo uni-vos”.
Nesse sentido, cabe ressaltar que as ideologias não morrem, elas se transformam, não rompem, mas se entrelaçam buscando cada vez mais o aperfeiçoamento, demonstrando um certo evolucionismo social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Miliband, Ralph. Fukuyama and the socialiste alternative. New Left Review, London, 193: 108-113, may/june, 1992.

Monday, 18 June 2007

Câmara dos Deputados: o último a sair apague a luz

As recentes investidas da Polícia Federal contra os crimes praticados contra o Estado em Brasília aprofundam e reforçam a idéia de que o país realmente não tem mais salvação. De que a Câmara dos Deputados está cercada por gente de idoneidade duvidosa e dá razão à Hebert Viana quando cantava lá no longínquo ano de 1988 que são “quinhentos picaretas com anel de doutor”. Até aí, caro leitor, não disse nada de novidade, apenas fiz questão de ratificar o senso comum que paira sobre as cabeças dos brasileiros pagadores de impostos. A questão a ser ressaltada está na sobreposição do crime, ou seja, na cadeia de personagens que fazem parte das maracutaias: assessores políticos, parentes e funcionários concursados que como demonstraram bem as câmeras aparecem em telefonemas ou mesmo carregando as maletas recheadas do vil metal. Isso nos remete a uma formação de hierarquia no crime contra o dinheiro do Estado, a começar pelos deputados que formam o primeiro escalão e aos assessores, parentes e funcionários concursados que formam o segundo escalão. Percebe-se caro leitor um espectro rondando a casa legislativa brasileira, a corrupção e o último a sair apague a luz.

O "pagode" do Vava



Alguns parlamentares da oposição estão querendo abrir a CPI do Vava. Não, caro leitor, não é o personagem da música de Paulinho da Viola, cujo destino foi ganhar na loteria e dar um pagode em sua casa. Trata-se simplesmente do irmão do presidente Lula que está sendo acusado de tráfico de influência. Por esse motivo, a necessidade da abertura da CPI segundo a oposição.
Várias pessoas estiveram na casa de Vava, mas não foi para provar o feijão da Vicentina e nem para ver como a coisa é divina, tratou-se da batida da Polícia Federal que poderia ter recebido o nome de doce ilusão não fosse o caráter investigativo no sentido de comprovar a tese de que o "ganhador da loteria" estaria tentando obter influência no governo do irmão.
A tese de que Vavá estaria influenciando o governo de Lula não foi comprovada, mas foi sustentada pela Polícia Federal, imprensa e por parlamentares da oposição. O fato contribuiu para diminuir a probabilidade de instalação da CPI, mas não está sendo capaz de devolver o bilhete premiado à Vava, aquele que lhe dá o direito de ser apenas o irmão do Presidente da República. Caro leitor, bem vindo ao pagode do Vava.

Monday, 11 June 2007

Democracia na América Latina

A democracia como sistema de governo vem sendo questionada. Dois motivos levam ao descontentamento crônico com o sistema principalmente na América Latina: a falsa promessa de que é capaz de diminuir a desigualdade social e as constantes crises geradas pelos esquemas de corrupção envolvendo os governantes eleitos.
Em recente pesquisa divulgada, o latinobarômetro apontou que mais de cinquenta por cento da população latino-americana aceitaria um governo com características ditatoriais. É um cenário preocupante para a região que ainda vê a democracia dar os seus primeiros passos.
O que contribui de forma significativa para os números apontados pela pesquisa está no fato de que a população latino-americana ainda não sentiu no bolso, os ventos soprados pelo sistema democrático. A liberdade de expressão tão defendida pela elite do continente não está sendo capaz de "administrar" os anseios da sociedade. Os primeiros sinais de descontentamento com o sistema está na Venezuela e na Bolívia respectivamente, onde os seus presidentes com características ditatoriais foram eleitos através do sufrágio universal. Para que a democracia triunfe no continente é necessário que seus governantes combatam a concentração de renda, lutem pela distribuição de renda e sobretudo construam caminhos para extirpar a corrupção.

Friday, 8 June 2007

PUBLICAÇÃO DE RESENHA

Foi publicada na revista eletrônica de ciência política achegas.net uma resenha de minha autoria. O endereço para acesso é o seguinte:

PUBLICAÇÃO DE ARTIGO CIENTÍFICO

Foi publicado um artigo científico de minha autoria na revista eletrônica achegas.net da área de ciência política da cidade do Rio de Janeiro.
O endereço para acesso é o seguinte:

Monday, 4 June 2007

O silêncio do caloteiro

O SILÊNCIO DO CALOTEIRO
A.J. PIERINI


Ouviu bater três vezes na porta e foi atender. Olhou pelo olho mágico e viu que era o cobrador. Fez silêncio. A respiração ofegante podia denunciar a presença. Por alguns segundos suspendeu a respiração. O telefone toca a quatro passos dali.
Porra! não posso atender! Será que é Vera? Não posso perder esse encontro!! Pensou. E esse cobrador que insiste em bater na porta. Bem que ele podia ir embora e me deixar em paz. Essas malditas contas. Não sei porque elas existem!
Espiou de novo pelo olho mágico. O cobrador estava com os olhos arregalados e as mãos na cintura e com certeza pensando: será que esse desgraçado não está em casa? O cobrador continua batendo na porta. O bater na porta soava como uma intimação.
Poxa! Como viver é caro! Pensou. A conta de luz que está por vencer, a de água que já venceu, o telefone está para ser cortado. Preciso arrumar um jeito de ganhar mais grana! Talvez se eu fizer aquele curso profissionalizante as portas se abram para mim! Não sei não! A situação anda tão difícil!
Andou até o sofá na ponta dos pés, segurando a respiração. Sentou, pegou a almofada e a colocou sobre as pernas. Deitou e escondeu o rosto com a almofada. Que situação difícil. Matteo levantou-se bruscamente e jogou a almofada no chão. A televisão ligada no meio da sala apresentava a imagem apagada do político. Matteo diz em voz baixa:
_ Cambada!
_ Não se esqueçam, eu também quero o meu! bando de safado!
O cobrador bate três vezes na porta.
Sabe de uma coisa, eu tenho vontade de ir até lá e dizer a ele que eu não tenho dinheiro para pagá-lo. È exatamente isso que vou fazer. Caminhou lentamente até a porta e espiou pelo olho mágico. O cobrador estava com a mão na parede, fazendo bico com os lábios e olhando fixamente para a porta. Colocou a mão de leve sobre a maçaneta! Não, eu não posso fazer isso! Com certeza se eu disser a ele que não tenho grana, o que é que ele vai pensar de mim? Vou ser taxado como um fracassado. Um homem que não tem profissão ou mesmo que sou um vagabundo ou cafetão. Nessas horas o homem é o culpado, não o sistema! Pensou Matteo.
Já sei, vou dizer ao cobrador que meu salário está atrasado. Sabe como é... a situação do país está difícil, juros altos, recessão, as vendas diminuíram, tudo isso resultou em atraso de salário e que em uma semana você pode voltar para receber o que lhe devo. Quer saber! vai ser mentiroso no inferno Matteo. Vou ter que ficar fugindo desse cara até quando? Não existe previsão para a entrada de receita! Tenho que ser honesto com ele e dizer:
_ Olha aqui meu camarada. Estou desempregado! Ainda não recebi fundo de garantia, multas, férias, ou seja, ainda não fiz o acerto com a firma, por isso não posso lhe dar nem uma previsão! Até ouço a resposta do cobrador:
_ Tudo bem, Sr Matteo! Só não esqueça que o atraso no pagamento acarretará em pagamento de juros! E olha que é juro de mercado o que é pior! O juro anda alto, por isso, veja se acaba com essa dívida. Só assim o senhor se verá livre de mim!
O cobrador se mostra insistente. Bate três vezes na porta.
_ Que cara persistente! Acho que a persistência é a virtude principal do cobrador. Só assim consegue receber! Fico imaginando se abrisse a porta. O cobrador me mostraria a fatura, apontaria o valor e imediatamente estabeleceria um silêncio. O silêncio do devedor. Aquele silêncio que denunciaria a minha total falta de grana. E eu com aquela cara de debochado, lhe diria:
_ È...como é mesmo o seu nome?
_ Joaquim! Meu nome é Joaquim!
A repetição do nome. Essa é a tática do cobrador para que se fixe o nome. O nome da cobrança. Para que toda vez que o nome Joaquim for mencionado próximo a mim, me lembre daquele sujeito encostado à porta do meu apartamento, fazendo bico com os lábios e com a fatura à espreita, pronta a ser mostrada com volúpia.
_ Olhe seu Joaquim! Esse valor é muito alto. Não tenho dinheiro para pagá-lo, vou ter que pedir uma renegociação. Dou algum dinheiro de entrada e parcelo o restante em sete ou oito vezes! É o único jeito que vejo para poder pagar essa conta. Me dê o telefone da financeira que logo entrarei em contato!
Mas, para isso vou ter que negociar com Madalena. Não! Sofro tudo na vida, menos negociar com a mulher o pagamento da própria dívida. Receber dinheiro da esposa para pagar uma dívida minha! De jeito nenhum! Prefiro ficar devendo! Mas! Sabe até que não é uma má idéia! As mulheres hoje trabalham, bebem, fumam, tem um número grande de parceiros e ainda mais lutam para conquistar o seu espaço. Então, não vejo porque não pegar dinheiro da Madalena para pagar minhas contas. Tudo bem! Pode não ser ético, mas, quem é que liga para a questão ética quando o assunto é grana! Para pagar conta vale tudo! É lei de mercado!
_ Não. Acho melhor dizer a ele que agora virei dono de casa. As tarefas de casa agora sou eu que faço, lavo louça, limpo o chão da casa, lavo os banheiros, tiro o pó dos móveis, dou uma arrumada no quintal, faço café, almoço e janta, enfim, dou conta das tarefas do cotidiano e que o chefe da família no momento não se encontra, por isso se faz necessário que volte outrora. O cobrador responde:
_Essas tarefas são femininas! Na minha casa quem desempenha essas tarefas são as mulheres. Só as mulheres! O homem tem ganhar grana! Disse de forma enfática.
_ Estás muito enganado! Os tempos são outros. Inversão de papéis, ou melhor, de alguns papéis! Deus me livre fossem todos estávamos fritos! Não é mesmo! O cobrador olha sério e com certeza pensa: esse filho da puta não quer pagar e está só me enrolando!
Uma solução eficaz para esse problema de grana é pedir dinheiro emprestado para agiota. Juro exorbitante. Mas, e daí para quem já está em situação ruim, piorar um pouquinho não tem problema. Está aí a solução, vou abrir essa porta com tal velocidade e dizer ao cobrador que irei fazer empréstimo em agiota para poder pagá-lo. Ele vai me dizer:
_ Sr Matteo eu não quero saber de onde o senhor vai retirar o dinheiro, o que eu preciso é receber, não importa de onde venha! Entendeu! Mas, como é que é, vai me pagar ou não?
Ouve passos no corredor e ao fundo o som de um samba, provavelmente do Zeca.. A voz da sogra soa ao longe. To ferrado!! Será a primeira a denunciar a minha presença. Não seja tolo, Matteo, ela não fará isso. Ela sabe que estás desempregado. Mas o que é pior é que ela conhece o cobrador. A discussão do final de semana surtirá efeito agora. Se ela ainda estiver magoada comigo com certeza vai me denunciar. Maldita hora que fui arrumar amante. Desempregado, sem bens, conta bancária a zero, ainda metido a arrumar caso extra. É tudo de pior que um homem pode arranjar! Pensou.
Observou novamente pelo olho mágico. Viu o cobrador virado de costas e com a mão na cintura. Provavelmente a escutar a conversa entre a minha sogra e a vizinha Matilde. Fuxiqueira do caramba! Velha caduca, sem educação, mal criada. Tem uma língua que Deus me livre! Estou salvo, acho que já está indo embora.
Ouço barulho de maçaneta. Acho que a vizinha já entrou! Não ouço mais a voz da minha sogra. Mas ouço alguém se aproximando. Tenho que disfarçar meu nervosismo. Ainda bem que o almoço está pronto! O cobrador foi embora. A casa está imunda! Vou ouvir impropérios. Quer saber, não vou ouvir não, vou mandá-la para aquele devido lugar! Quem é ela para vir aqui, na minha casa e me dar ordem! Preciso arranjar um emprego! Mas, está tudo tão difícil. A televisão está com problemas, a pia está entupida e ainda por cima o computador com vírus! Quer saber, não estou nem aí! Pensou em correr para o sofá e fingir que estava lendo, pegou o Neruda que estava em cima da mesa da sala, colocou as mãos sobre a cintura e ficou parado olhando fixamente a réplica de Dali na parede.
Ouviu bater três vezes na porta e foi atender. Olhou pelo olho mágico e viu o rosto nefasto da sogra. Será que eu abro ou não a porta! Se eu não abrir, vou comprar briga com Madalena. Não tenho escolha! Virou a chave da porta lentamente e com um sorriso sarcástico disse:
_ Bom dia, dona Zulmira! Como vai a senhora? Perguntou, disfarçando interesse.
_ Vou bem Matteo e você? Já arrumou emprego? Perguntou dona Zulmira de forma provocativa.
_ Não, ainda não. A coisa está feia. Deu no jornal que o índice de desemprego aumentou. Disse Matteo, virando as costas para a sogra e escondendo o Neruda. Matteo não queria deixar a sogra perceber que estava lendo, afinal de contas era uma segunda-feira de manhã e era hora de homem estar trabalhando.
_ Vim aqui só para almoçar! Disse a sogra com voz provocativa.
_ Arroz, feijão, salsicha e uma salada de repolho. É esse o cardápio. Se quiser algo mais, por favor, compre e cozinhe. Disse Matteo, visivelmente nervoso.
_ A aparência da coisa está boa! Ainda bem que você leva jeito para fazer algo na vida. Eu disse à Madalena que você era puro encosto, mas, sabe como é, né, esse tal de amor! Agora, está lá, trabalhando enquanto o marido fica pensando besteira em casa!
_ Que besteira, que nada dona Zulmira. Estou aprontando meu curriculum para fazer presença. Sabe como é né, se não tiver curriculum nem adianta.
_ Mas, o que é mesmo que você sabe fazer? Pelo que sei você não sabe nem apertar um parafuso! Disse Zulmira, com jeito de deboche.
_ A minha especialidade é mesmo chutar tampinha de garrafa na rua. Isso faço bem, para cada tipo de tampinha um chute diferente. Respondeu Matteo com um enorme sorriso no rosto.
_ Olha aqui seu moleque, você não debocha de mim. Mais respeito com a sua sogra! Você não é capaz de desentupir uma pia, olhe só o estado daquela cozinha. Disse Zulmira, visivelmente nervosa.
_ O papo está bom, mas está na hora de eu sair. Tenho um compromisso no centro da cidade. É inadiável. Talvez desse encontro sobre algum dinheirinho para mim. Disse Matteo, para se esquivar da sogra.
_ Sei quais são os seus tipos de compromisso. Disse Zulmira com desconfiança.
Matteo se dirigiu até o quarto, pegou a camisa azul que estava na guarda da cadeira, vestiu ligeiro e ainda saiu abotoando-a para não ouvir mais a voz da sogra. Bateu a porta e desceu as escadas do prédio sem tomar conhecimento do que dizia Zulmira.
Levou a mão ao bolso e percebeu que só tinha algumas moedas.
_ Como é que vou me encontrar com Vera? Não, hoje não tem condições de eu encontra-la! Pensou Matteo, visivelmente irritado. Acho que estou com vontade de tomar café. Contou as moedas, viu que sobrava e entrou no café do Arlindo esnobando.
_ Oh! Arlindo, me serve aquele preto com creme, mas capriche no creme hemmm! Disse Matteo esfregando as mãos.
_ Pó, Arlindo a situação ta feia, cara! Não consigo arrumar emprego é dívida em cima de dívida! Não consigo pagar! As vezes penso em fazer besteira, sabe como é! Falou Matteo franzindo a testa e colocando as mãos sobre o queixo, misturando euforia e desânimo.
_ Não está fácil pra ninguém, disse Arlindo. Emprego hoje é artigo de luxo, algo raro. A tendência é a coisa ficar pior. Essa tal modernidade tirou emprego de muita gente! Sabia? Disse Arlindo enquanto servia o café para Matteo.
_ Adoce primeiro o café, para depois eu colocar o creme. Disse Arlindo.
_ Tudo bem! Disse Matteo, observando as pernas da loira que desfilava a olhar vitrine na calçada do outro lado. Conseguiu até derrubar o açúcar sobre o balcão.
_ Pena que estou sem grana, se não chegava naquela loira! Disse Matteo fazendo sinal com a cabeça para Arlindo!
_ Material de primeira! Pena que já tem dono! Disse Arlindo conformado.
_ Não tenho ciúmes não, sabia! Falou Matteo com confiança.
Comeu o creme de forma lenta com a pequena colher para saboreá-lo, mexeu o café e tomou em um só gole. Bateu a xícara sobre o pires no balcão, sacou as moedas do bolso, contou o valor e deixou o dinheiro ao lado.
_ Obrigado Arlindo. Até o próximo. Disse Matteo, fazendo sinal de positivo.
Saiu do café do Arlindo pensando em como ganhar uma grana.
_ Já sei! Vou até o bilhar. Deve ter algum idiota esperando por uma aposta. Treinei muito na casa do padrinho no final da semana passada, tenho certeza que levantarei algum.
_ Boa tarde cambada! Diz em voz alta levantando os braços.
_ Me dê a de sempre aí, Tobias!
_ Chegou o bom de taco, respondeu Tobias, olhando para Pablo que estava sentado junto ao balcão.
Tomou o cálice de cachaça com um único gole batendo-o sobre a mesa.
_ Me dê mais um...porque hoje, preciso arrumar alguma grana aqui...a coisa tá feia, lá em casa.
_ Eu duvido que você bate o Castilho no taco! Disse Pablo, um amigo de infância.
_ É que to sem grana! Se não...apostaria, duvido que ele me bateria no taco! Retrucou Matteo, olhando uma dupla jogar na mesa do lado oposto.
_ Não seja por isso, eu te empresto uma onça para apostar com ele...se perder, você me paga o dobro e se ganhar, fica com a outra metade. Pode ser? Desafiou Pablo.
_ Tudo bem, aposta feita. Disse Matteo.
Matteo foi até o banheiro e enquanto se olhava no espelho, falava em voz alta:
_ Quero ver me livrar desta, o Castilho é bom demais...ganhou até o campeonato do estado no ano passado. Mas eu preciso arrumar uma grana, tenho que sair com a Vera dia desses, faz tempo que eu não dou uma. Complicado vai ser se eu perder, terei que pagar duas onças para o Pablo. Quer saber, Matteo, apontando o indicador para o seu rosto diante do espelho...você joga melhor que o Castilho...e vai ganhar essa parada. Ponha fé em seu taco. Você vai ganhar!
Voltou para o balcão mordendo os beiços e vê Pablo mostrando a onça com soberba.
_ Essa eu quero ver, vai ser o dinheiro mais fácil de ganhar! Disse Pablo, olhando para Matteo.
_ Então, vamos fazer o seguinte, disse Matteo em tom de deboche. Você marca o duelo com o Castilho para outro dia e nós fazemos um duelo agora. Você aposta uma onça comigo que eu lhe derroto no taco, se eu ganhar você me paga uma onça e se eu perder eu lhe pago três. Pode ser?
_ Mas, eu não jogo muito bem, disse Pablo. Você é que se acha muito esperto, né...Matteo. Eu não topo essa parada, não.
_ Pó...vamos lá Pablo, eu achei que você confiava mais em você mesmo! Exclamou Matteo.
_ Não, pó...eu não quero jogar. Mas, tenho a certeza de que você tem está com medo de enfrentar o Castilho.
Matteo coçou a cabeça preocupado e andava de um lado a outro do bilhar com o taco na mão pensando em como ganhar dinheiro para poder sair com Vera.
_ Você acha que eu tenho medo de jogar com esse cara, aí...aponta o dedo para Castilho. Eu não tenho, não. Disse Matteo.
_ Ué...então porque não aceita o desafio? Perguntou Pablo.
_ Ô...Tobias....ponha uma daquela danada no copo pra mim! Disse Matteo.
Tomou em único gole, batendo o cálice sobre o balcão.
_ Então vamos jogar! Prepare a mesa Pablo. Disse Matteo.
_ É assim que se fala, caro amigo, incentivando Matteo a jogar. Disse Pablo.
_ Só que eu quero a onça caseada sobre aquela mesa, ali. Disse Matteo, apontando a mesa de madeira ao lado.
O ambiente ficou tenso no bilhar. As pessoas que estavam no ambiente admiravam alguém desafiando o melhor taco da cidade. Fez-se rapidamente uma roda em torno da mesa. Matteo acende um cigarro no canto da boca enquanto acaricia a bola sete.
_ Essa vai ser a bola do jogo. Falou olhando para Castilho em tom de provocação.
_ A regra vai ser a seguinte, disse Matteo para Castilho. Vamos tirar par ou ímpar quem ganhar escolhe as bolas de número de par e quem perder fica com as ímpares. Assim que alguém matar as suas bolas entra a bola sete, se este derrubar a bola sete em seguida ganha o jogo. Tudo bem?
_ Ta legal. Disse Castilho.
Castilho muito calmo acende um cigarro e bebe em um só gole o copo de cerveja que estava sobre o balcão.
_ Essa vai ser barbada! Pode crer. Disse à Pablo.
Pablo olha desconfiado para os dois e afasta as pessoas da mesa.
_ Par ou ímpar,Castilho. Disse Matteo.
_ Par. Disse Castilho.
Os dois põem os dedos à prova. Deu quatro. Castilho ganha o par ou ímpar.
_ Você começa, Castilho. Disse Matteo.
Castilho dissipa as bolas na mesa. Mas em toque estratégico para não deixar à boca as bolas de Matteo. Jogada defensiva.
_ Bola três na caçapa do fundo. Disse Matteo, em tom de confiança.
A bola bate na quatro, resvala na quina da caçapa do meio e vai para o fundo, mas a tacada não é forte o suficiente para atingir a caçapa desejada e para no meio do caminho.
_ Acho que precisa tomar mais um trago, Matteo. Diz Pablo tirando um sarro.
_ Cale a boca que você ganha mais, Pablo. Disse com rispidez Matteo.
_ Olhe só como se joga. Falou Castilho dando uma baforada em seu cigarro.
_ Bola quatro na caçapa do meio. Disse Castilho.
Castilho fez um corte com a bola branca no meio. Ela bate na bola seis e empurra a quatro que cai certeira, como Castilho havia falado. Começa o bochicho entre a platéia.
_ Eu não falei que ele joga pra caramba. Disse Pablo.
_ Bola seis no fundo Matteo. Quer ver? Disse com arrogância Castilho.
Castilho bate na bola branca e produz um efeito que a bola faz uma curva, bate na bola seis e cai na caçapa do fundo. A tacada foi tão boa que colocou a bola dez e a doze na mesma reta.
_ Olha só o telefone, Pablo. Disse Castilho sorrindo.
Castilho bate na bola branca, que bate na bola dez, que bate na bola doze e que cai caçapa do meio. A bola dez parou na boca da caçapa, restando Castilho apenas dar um leve toque para jogá-la para baixo.
_ Eu acho que Matteo vai acabar é ficando com todas as bolas na mesa. O Castilho não está dando brecha. Disse Pablo com um sorriso enorme.
_ Agora é a vez da bola oito. Quer ver eu dar um corte na branca lá no fundo e mata-la aqui nessa caçapa! Fala Castilho apontando para a caçapa.
Enquanto isso, Castilho passa giz no taco, o alisa com todo carinho. Acende um cigarro. Dá um trago de leve na cerveja. Olha atentamente a platéia. Faz uma pose sobre a mesa colocando o taco sobre as costas para fazer a jogada.
_ Essa tacada é para o desafiante. Diz Castilho em tom de deboche.
Castilho dá um toque de leve e empurra a bola dois para a caçapa do fundo. A bola branca para estrategicamente para o arremate da bola quatorze na caçapa do meio. Castilho faz uma jogada de mestre. Dá um corte duplo com a bola branca e derruba a bola quatorze.
_ Agora, caro Matteo quero que você coloque a bola sete em posição estratégica. Se você quiser pode coloca-la colada no fundo. Eu vou faze-la repicar e cair na caçapa aqui no meio. Você quer ver? Castilho aponta o taco para Matteo.
Matteo coloca a bola colada no fundo do lado oposto onde estava a bola branca. Castilho da uma tacada de mestre em que a bola branca desvia da bola três de Matteo bate na bola sete, que repica e vai certeira para a caçapa do fundo.
_ Ah...ah....ganhei duas onças de otário. Fala Pablo apontando para Matteo.
_ É... o jogo foi muito fácil. Disse Castilho.
_ Agora....disse Castilho para Matteo. Passe a minha grana, cara!
_ Não...não...disse Pablo, afastando Matteo com a mão direita. Quem vai te pagar sou eu...Pablo retira a onça da carteira e passa para Castilho.
_ Agora, o otário aqui...bate nos ombros de Matteo, dizendo:
_ O otário agora deve para mim....só que ele me deve duas dessas aponta para a onça na mão de Castilho.
_ Por falar nisso, pode me passar o dinheiro...Matteo.
_ Sabe o que é Pablo...agora estou sem condições, cara. Estou duro pra caramba...não tenho dinheiro nem pra tomar uma cachaça. Tanto é assim que vou pedir pro Tobias pendurar os dois tragos que tomei aqui!
Castilho pegou o dinheiro de Pablo, e saiu lentamente do bilhar dizendo:
_ Ô Pablo, fala para o nosso amigo, aí, treinar um pouco mais. Essa não deu nem pra esquentar. Deu uma risadinha pelo canto da boca.
_ Pode deixar que eu vou ter uma conversinha com ele. Disse Pablo batendo nos ombros de Matteo.
_ Cara, eu quero a minha grana. Disse Pablo demonstrando estar nervoso.
_ Me dê alguns dias para lhe pagar. Respondeu Matteo apreensivo.
_ Eu vou lhe dar dois dias. Quero que você não se esqueça que eu sei onde você mora. E se você não aparecer aqui em dois dias eu lá te cobrar. Só que vai ser diferente. Está entendendo? Falou Pablo.
_ Pó...que é isso, Pablo. Sabe que eu não sou de ficar devendo. Sempre honro meus compromissos. Ainda mais com você que é amigo de ginásio. Você acha que eu vou ficar lhe devendo? Disse Matteo dando um abraço em Pablo.
_ Ô..Tobias...pendura as duas aí...que eu lhe pago a hora que eu vier pagar o Pablo. Disse Matteo para o dono do bar.
_ É bom não se acostumar...heimmm...Na próxima só vai tomar se pagar adiantado. Disse Tobias em tom de repreensão.
Pablo sai desesperado do bilhar, falando sozinho:
_ Entrei sem um puto de grana no bilhar e saí de lá devendo uma nota preta. Onde é que eu estava com a cabeça na hora em que resolvi aceitar o desafio de Pablo. E agora...onde vou arrumar dinheiro para pagar esse cara? Disse colocando as mãos sobre a cabeça em sinal de desespero.
_ O problema não é esse? É que se já estava difícil de arrumar dinheiro para sair com Vera...agora imagina devendo duas onças para o Pablo. Já foi aquela umazinha que eu queria dar...Disse Matteo lamentando.
Matteo pensou que a situação estava péssima. Sem dinheiro, desempregado, vivendo às custas da mulher e ainda por cima tendo um caso extra. Sentou no banco da praça e ficou olhando atentamente a Igreja de Santo Expedito e as pombas ciscando pelo chão e o ambulante gritando:
_ Olha a pilha um real...olha a pilha um real...
_ Que vida de merda que esse cara deve levar, porra. Vendendo pilha a um real. O que esse cara pensa da vida? Eu não entro numa dessas nunca. Exclamou sozinho, no banco da praça.
O celular de Matteo dá sinal de mensagem recebida. Pablo olha o celular e vê a seguinte frase enviada por Vera:
_ Te encontro às quatro lá no bosque da cidade. Tô com saudades.
Matteo olha a mensagem, coça a cabeça e diz:
_ Porra, lá no bosque da cidade? Lá do outro lado...não tenho nem dinheiro pra pegar ônibus. Que situação.
Acho melhor não responder a mensagem. Preciso pensar uma estratégia para poder encontra-la. Ahhhhh, Verinha, como você está gostosa! Não posso perder essa!
_ Já são duas e meia. Falta só uma hora e meia para encontrá-la. Tenho que dar um jeito nessa situação. Falou em voz baixa.
Vou entrar na igreja e ver se consigo rezar um pouco, pensou Matteo. Entrou na igreja e viu um grupo de senhoras participando da novena. Resolveu sentar no banco logo atrás do grupo e percebeu que uma das senhoras deixou a bolsa sobre o banco.
Não, não posso pegar essa bolsa. Pensou Matteo. Já pensou...vou roubar dentro de uma igreja. Uma velhinha ainda por sinal! Esqueça, isso Matteo, esqueça isso, Matteo. Nem morto! É pecar por mil anos, se eu fizer isso. Olhou em volta, olhou para trás e não viu ninguém, mas quando olhou para frente, pareceu ter visto Cristo a olhar de soslaio. Não...não...nem pensar. O homem está de plantão o tempo todo. Lembrou dos tempos de catecismo, quando ficava jogando bolinhas de papel nas costas de Augusto e o Padre Salgado dizendo:
_ Meninos, Deus está em todo lugar...não adianta fugir....pois vigiai-vos. Dizia com aquele queixo tremendo à velhice.
Matteo pôs-se a rezar o Pai Nosso em companhia das velhinhas da novena. Passava uma mão sobre a outra e olhava para bolsa da velhinha. Não podia dar muita bandeira, senão chamaria a atenção. Abaixa a cabeça, olha para o Cristo, as mão suando à frio. As velhinhas com o terço na mão. Que situação chegaste em Matteo. Só mais um pecadinho não faz mal, não é mesmo? Pensou. Olhou para o relógio falta apenas uma hora para o encontro com Vera. Pensou em rezar a Ave Maria, mas logo pensou em Madelena e desistiu da idéia. Então vou rezar a Salve Rainha. Não, essa não é muito difícil, melhor mesmo é ficar é no pai nosso. Mas, um pecadinho só não faz mal pnsou Matteo já pondo as mãos sobre a bolsa da velhinha, colocando-a sobre o lado oposto do corpo e saindo à francesa.
_ Que Deus me tenha...mais vale a Verinha do que a bolsa da velhinha. Disse em voz baixa.
Quando pôs os pés fora da igreja, saiu em disparada em direção ao centro da cidade até encontrar uma sombra onde pudesse descansar e vasculhar a bolsa.
_ Vamos ver o que encontramos aqui. Espero que eu ache logo uma oncinha para safar o táxi e um sorvetinho, aí já ta bom, né. Esfregando a bolsa da velhinha.
_ Vamos ver o que tem...abriu a bolsa da velhinha e encontrou logo um pente cheio de cabelo. Disse em tom baixo.
_ Que nojo...disse Matteo torcendo o nariz.
Encontrou um terço. Uma foto com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma oração de Santo Expedito. A foto de uma criança, provavelmente o neto, a carteira de identidade e um cepeefe.
_ Até que fim um porta moedas. Disse Matteo.
_ Até parece que foi ela que assaltou a igreja, chacoalhando o porta moedas. Matteo abriu e encontrou só moeda de dez centavos. Ficou por cerca de dez minutos contando um total de cinco reais.
_ Só cinco reais tem nessa bolsa? E eu fiquei pior com Cristo por causa de cinco reais? Pegou a bolsa e jogou no chão com força esparramando os pertences da velhinha, colocando no bolso o porta moedas. Olhou no relógio e faltava apenas meia hora para o encontro com Vera. Por um instante, resolveu mandar uma mensagem pelo celular e avisar que estava em situação difícil e que não poderia ir, mas também percebeu que o celular estava sem crédito. Não havia como avisa-la. Então pensou pedir fiado ao taxista. O que não posso é deixar de ver Verinha hoje...tô numa seca danada. Matteo imaginou falando ao taxista:
_ Olha seu taxista, a situação ta preta, to sem grana. Posso deixar meu endereço. Com certeza eu lhe pago amanhã. Pode ficar despreocupado. É claro que pretendo fazer isso depois te ter feito a corrida, o máximo que pode acontecer é o taxista chamar a polícia e eu ter que dar explicações na delegacia.
Caminhou até o ponto de táxi mais perto. E percebeu que quem estava na vez era o Toninho da Prata, antigo parceiro de bilhar. Matteo chegou de leve, pôs o braço direito no ombro de Toninho e disse:
_ Nem tudo que reluz é prata, ou melhor, é ouro. Não é mesmo meu amigo? Disse Matteo abrindo um enorme sorriso.
_ Pois é Matteo, quanto tempo! Agora estou aqui, fazendo ponto na praça central. Respondeu Toninho da Prata.
_ Então amigo Toninho...tô precisando de uma corrida até o bosque da cidade, será que pode me levar até lá? Só que tem um detalhe...tô sem grana. Mas, pode ficar na susse que eu lhe pago depois. Disse Matteo.
_ Poxa cara...a situação ta preta, mas eu não posso fazer essa corrida pra você. Eu pago aluguel do carro...e se eu não lhe cobrar a situação vai ficar feia pra mim, entendeu?
_ Mas, cara...respondeu Matteo, batendo nos ombros de Toninho.
_ Em nome da nossa antiga amizade, cara! Quebra essa pra mim...eu tenho um compromisso muito importante lá no bosque agora...Falou Matteo quase implorando.
_ Pelo que eu saiba, lá é o lugar da putas. Boa coisa você não vai fazer, não...pode crer!
Subitamente Matteo dá um soco no estômago de Toninho e diz:
_ Como podes falar assim de Verinha? Seu filho da puta e sai em disparada pela rua deixando Toninho da Prata no chão falando alguns palavrões.
Matteo caminha até o ponto de táxi mais próximo, chega no motorista de táxi e diz:
_ Por favor, uma corrida até o bosque da cidade! Disse demonstrando estar com pressa. Olha no relógio e é pontualmente quatro horas.
_ Vamos, vamos, vamos amigo. Estou com muita pressa! Tenho um encontro super importante lá...não posso nem chegar atrasado.
_ Mas, é longe amigo. Temos que ter paciência...nessa hora o trânsito já está ruim...Disse o taxista demonstrando paciência.
O carro pára no sinal fechado. Matteo diz nervoso:
_ Vamos, vamos, vamos sinaleiro maldito. Não nem sei nem porque existe essa porra, batendo com a mão no banco do passageiro.
_ Ei...amigo...o carro não lhe pertence. Gostaria que você me respeitasse. Disse o motorista em tom de advertência.
_ Ta bom, ta bom...agora vê se anda mais rápido com essa porra...preciso chegar logo. Disse Matteo.
_ Porra, não! Disse o motorista, já demonstrando estar alterado.
_ A próxima vez que você abrir a boca eu juro que lhe faço descer. Respondeu o motorista.
_ Tudo bem...tudo bem foi mal em amigo...agora...vamos logo amigo, por favor.
Mas, o que mais alterava o humor de Matteo era não ter dinheiro para pagar a corrida. Em alguns segundos pensou em soltar um peido bem fedido no carro nas proximidades do parque...assim pediria ao motorista para descer por causa do cheiro e aí sairia correndo em direção ao parque. O que de ruim poderia acontecer nesse caso é simplesmente o taxista pedir para abrir as janelas para o cheiro sair...daí como é que eu descerei do carro em movimento. Posso ser tudo....menos burro, pensou. Só que aí terei que ser esperto...terei que pegar a Verinha e sair dali do parque rapidinho...pois ou taxista virá atrás de mim...ou ele mandará a polícia vir. Deus me livre isso, já pensou eu ir em cana porque não paguei uma corrida ao taxista. Ainda mais lá para o bosque da cidade? O que é que eu vou dizer à Madalena? E a Zulmira, então, tirando aquele sarro:
_ E aí, meu querido genro. Vai querer que eu leve uma quentinha pra você lá no xadrez?
Não suportaria isso. É mais fácil morrer.
Quando o táxi chegou próximo ao bosque. Matteo fingiu não passar bem e pediu ao motorista para que parasse o carro. O motorista parou o carro, Matteo saiu com as mãos na garganta e se afastou do carro, correndo em direção ao bosque, largando o motorista, reclamando e lhe dizendo impropérios.
Matteo chegou ao bosque da cidade e ficou procurando Verinha. Olhou entre as árvores e não avistou ninguém.
Achou melhor procurar a Verinha lá na lanchonete. Estava com muita sede.
_ Me arrume um copo d’agua aí gente boa., por favor, disse ao atendente.
_ Ta um calor de matar, hem! Não acha não. Disse Matteo esfregando o suor nas têmporas.
_ É...é mesmo disse o rapaz.
_ Por acaso você não viu uma moça loira, alta, lábios carnudos, por aqui, não? Perguntou afoito ao atendente.
_ Não...ninguém com essa discrição por aqui...pelo menos eu não vi...Disse o atendente demonstrando não estar muito interessado.
_ O que será que aconteceu com essa desgraçada. Disse em voz baixa passando a mão sobre à cabeça.
_ Será que ela vai me dar um cano? Matteo balança a cabeça, demonstrando estar nervoso.
O celular dá sinal de mensagem. Matteo de tão nervoso o derruba e sai da lanchonete cabisbaixo.
_ Meu amor, aconteceu um imprevisto e não vou poder ir até o bosque. Te aviso quando puder lhe encontrar, beijos. Verinha.
A mensagem deixou Matteo furioso.
_ Quem essa piranha pensa que é. O que ela quer fazer comigo? Disse em voz alta olhando para as árvores do bosque e jogando o celular no chão.
_ Essa merda que só traz más notícias! Falou em voz alta.
Sentou-se em baixo da árvore e ficou apreciando o vento que soprava com volúpia naquela tarde. Pensou em Madalena e na sogra. Na louça suja que estava à sua espera. Na roupa que tinha que ter lavado durante o dia. No dinheiro que ia pedir à Madalena para comprar cigarro.
_ Pôrra...isso não é vida para homem como eu. Disse olhando para o celular e abrindo os braços.
Vou ter que voltar à pé para casa. Com certeza vou demorar umas duas horas. A tarde está se indo...com certeza vou chegar em casa à noite. Vou ter que olhar para Madalena e arrumar uma justificativa. Se bem que vai ser pior se Zulmira estiver em casa ainda.
Com certeza vou chegar e dizer:
_ Olha Mada...aconteceram alguns imprevistos...sabe...Saí para fazer uma entrevista de emprego e a demora foi por demais. Daí o meu atraso hoje.
Aí aquela bruxa da Zulmira vai olhar para mim e falar:
_ É ruim....de eu acreditar numa história dessas. Mas é ruim...mesmo. Olha a cara dele...é mentira pura...
Aí vou dizer:
_ O que é isso Zulmira...lá sou homem de travessuras. Tenho barba na cara...tenho caráter...
Madalena com certeza tentará por panos quentes:
_ O que é isso mamãe. Deixe o pobre do Matteo em paz. Ele é trabalhador.
_ Só se for na sua terra...Mada...porque nessa daqui...eu hemmm...de encosto já chega o seu pai.
Eu não agüento mais essa situação. Disse Matteo falando sozinho pela rua.
_ Eu vou parar no primeiro bar e tomar um trago. Já estou atrasado mesmo!
Estou me sentindo muito sozinho, preciso falar com alguém, contar estória. E isso, só em possível em buteco. Me amarro em conversa de buteco. Bato aquele samba na caixa de fósforo. Vejo as menininhas que passam de barriga de fora, dou alguns assovios. Assim o tempo passa. Pensou nisso andando pelas ruas.
Daqui até em casa ainda tem um longo caminho. Se bem que eu poderia fazer a volta e ir lá no bairro da irlanda. Lá eu posso encontrar o Orlando, o Machado...até quem sabe jogar um carteado, pensou Matteo Não...balança a cabeça em sinal de negativo. Isso não posso....eles vão pedir pra eu casear algum...tô duro demais...Mas, eu acho que vou procurar um bar qualquer, sabe, batendo com o indicador sobre a cabeça. Assim, posso chamar qualquer um....e perguntar sobre o Flamengo...é o jeito mais fácil de puxar uma conversa. Sabe como é né...futebol é assunto que tudo mundo entende...ainda mais em buteco.... Posso dar a sorte de encontrar um flamenguista doente e ele me pagar uma cervejinha...esse negócio de só tomar cachaça...não dá não...haja fígado.
Matteo parou no primeiro bar que encontrou.
_ E aí amigo...como anda o mengão...tá sabendo? Perguntou ao homem sentado junto ao balcão, batendo em suas costas.
_ Não...meu amigo...não sei não. Respondeu o homem sem dar muita importância. O outro no fundo fala com convicção:
_ Tomô três coco, ontem! Jogo duro. O mengo não jogô nada...Foi um vareio de bola...Falou o homem gesticulando.
_ Chiiiii....a coisa tá feia então....Respondeu Matteo.
Essa maldita Vera...ela me paga...vai ver só...olha onde eu me enfiei por causa dela, pensou Matteo. Não conheço ninguém por essas bandas.
_ Ô do chapéu...Matteo chamou o dono do bar que usava um chapéu de lona.
_ Meu nome é Armando. Entendeu, cara...Disse o homem em tom ríspido se aproximando.
_ Que bonito seu chapéu em cara...chapéu de lona...de aba larga...Disse Matteo pondo a mão sobre o chapéu...
_ Chapéu de último tipo...Mateo disse ao homem sentado ao lado, fazendo gestos com a boca.
_ Quem me dera ter grana para comprar um chapéu destes, deve ter custado horrores! Mas, que elegância...hemmm amigo! Disse a Armando medindo-o com a mão direita de cima à baixo.
_ Ver se pára de me encher o saco! Disse Armando com rispidez.
_ Deixe de ser grosso, cara! Eu só estou lhe fazendo um elogio à você para o nosso amigo, aqui...companheiro de luta...Não é, não, amigo...Falou para o homem batendo em suas costas.
_ É isso meu...o que vale é o elogio. Disse o homem já com voz de embriaguez.
_ Nada de violência...nada de violência...A violência não leva à nada, pode crer, amigo! O que vale é a gente está em paz. Disse homem embriagado segurando o cálice de cachaça.
Enquanto conversava com o homem, Matteo vê um rapaz vestindo uma camisa vermelha de gola polo e calça jeans, descer de um carro preto. Este olha o ambiente. Armando servia cachaça a um homem no balcão. O flamenguista, olhava o poster do Corinthians na parede resoluto...um homem comia rolmops na mesa à frente com volúpia, bebericando um cálice de cachaça. A noite já se fazia presente. O rapaz chama um homem que estava dentro do bar pelo apelido de Chico Bosta.
_ Que apelido mais estranho...Disse Matteo ao homem com qual conversava.
Quando Chico se aproximou do rapaz, tomou um golpe no estômago que logo o deixou atordoado. Caiu no chão se contorcendo de dor, quando mais dois rapazes desceram do carro e começaram a chutar Chico no chão. Fez-se silêncio naquele instante. Ouvia-se apenas o estalar dos chutes e os gemidos de Chico.
_ Porque é que vocês estão fazendo isso? Perguntou Matteo se aproximando de Chico.
_ Isso não é da sua conta...seu idiota...o rapaz de camisa vermelha desfere um soco em Matteo, em seguida um outro rapaz bate a cabeça de Matteo sobre o chão.
_ Isso é para você não se meter onde não é chamado. Disse o rapaz de camisa vermelha.
O nariz de Matteo começa a sangrar sem parar...encharcando a camisa com o líquido vermelho e viscoso. Chico tenta se levantar mas é empurrado novamente e jogado ao chão.
_ Malditos...vocês me pagam, pode crer! Disse Chico aos rapazes.
Os rapazes entram no carro e saem em disparada à avenida.
_ Seja lá o que você tenha feito...não deve ter sido algo muito bom, disse Matteo para Chico colocando a mão direita sobre o nariz.
Chico se levanta e senta na soleira da porta do bar, põem a mão sobre o estômago e se curva gemendo de dor. Matteo pede gelo para Armando e coloca sobre o nariz, retira a camisa e pede para este deixar lavá-la para tirar o sangue.
_ E agora...como vou chegar em casa? Disse Matteo em voz alta.
Matteo lavou o rosto, pôs a camisa sobre o ombro e saiu do bar em direção à sua casa.
_ Não...hoje eu não posso mais parar em lugar algum. É melhor eu ir para casa e correr para os braços de Madalena. Falou em tom baixo, segurando a camisa com o gelo no nariz.
_ Como isso dói..., mas, tenho que arrumar uma explicação para Madalena.
_ Sabe o que é Madá...eu estava andando de cabeça baixa na calçada e não vi uma placa em minha frente, quando me deparei com ela levantei a cabeça e topei meu nariz contra ela...puro azar...e olha só o que aconteceu...Eu posso dizer isso a ela...se bem que...ela tem que ser muito idiota para acreditar...preciso de uma história mais convincente...Ela pode me olhar e dizer....
_ Conte outra, vai! Como se eu não lhe conhecesse, né Matteo? Madá diria em tom maternal.
Eu poderia dizer que tropecei e caí de cara no chão. Uma fatalidade a qual todo mundo está sujeito. Se bem que tenho que pensar que posso também dar de cara com minha sogra. Imagino as duas sentadas no sofá assistindo a novela, aí eu entro com o nariz inchado e a camisa ensopada de sangue, dizendo à Mada que tropecei e a Zulmira cortando o diálogo e dizendo:
_ Foi nada disso não, Madá...esse traste se enfiou numa briga em algum buteco e tomou um cruzado de direita...pode crer que foi isso que aconteceu...vagabundo é isso aí...Ela dirá isso dando aquela gargalhada...só não vai tirar mais galhofa por respeito à Mada...Aí, eu sou obrigado a dizer...
_Não, não é nada disso não Zulmira...eu sou homem de respeito...Quer ver minha carteira de trabalho. Se bem que não devo explicação à ela...mas que enche o meu saco enche...Até parece que ela tem experiência com homem que tem pouca validade...Até tenho vontade dizer isso a ela...qualquer dia em particular vou chamá-la para o sexo. Vou mesmo, para mim ela é muito mau amada.
Não, não tudo isso não vai dar certo. Pensou Pablo. O melhor a fazer é contar a verdade. Nunca se fica com o rabo preso quando se conta a verdade. Ser desmascarado é muito chato. Se bem que posso receber a visita de Pablo, amanhã em casa. Será um porre ter que olhar pelo olho mágico e ver a figura do Pablo me cobrando as duas onças. Se ele ainda for em casa na hora do almoço, corro o risco dele bater justamente na hora que a minha sogra estiver em casa. Aí então será uma catástrofe. Mas, tenho que deixar isso para depois...o negócio agora é arrumar uma desculpa para tanto sangue e nariz inchado.
_ Acho que quem me vê na rua acha que sou louco! Disse Matteo para si mesmo.
_ Andando sozinho e fazendo tanto gesto. Só pode ser maluco esse cara! Diz Matteo se referindo a si mesmo.
Se bem que amanhã pode ser o dia decisivo para mim. Estou correndo riscos de toda parte. O negócio vai ser acordar cedo e me mandar de casa e ainda vou ter que andar de boné e óculos escuro para não ser reconhecido. Já imaginou eu encontrar o Antonio da Prata na rua, o escândalo que ele vai fazer? Se eu estiver atravessando a rua...tenho a certeza que ele não terá piedade, vai jogar o carro em cima de mim. E o taxista que dei o calote...então...nem se fala...Mas Deus me livre da Madá ficar sabendo! Tô frito! Pensou Matteo colocando as mãos sobre a cabeça.
Fico pensando na cara de Madá se souber que roubei uma velhinha dentro da igreja para me encontrar com minha amante. Por falar nisso, aquele sacana da Verinha nem me deu mais notícias. Com certeza nesse momento deve estar em um boteco tomando todas, dando umas risadas com a sua turma...enquanto eu...estou aqui...todo fodido...arrebentado...com o nariz sangrando. Isso se não estiver trepando com algum gatuno por aí... deixe-a para mim!
_ Poxa vida, ainda falta um bocado para chegar em casa. Não vejo a hora de tomar um banho, trocar de roupa e cair na cama. Estou exausto hoje. Que dia cansativo.
Se bem que posso chegar em casa e dizer às duas que não estou a fim de conversa...assim, não serei interpelado e nem terei que dar explicações sobre o ocorrido. Vou direto para o banheiro...tomo um banho e vou para cama. Mas, também tenho que pensar na hipótese de Madá me seguir até o quarto me pedindo explicações.
_ Matteo, você tem que me contar o que aconteceu! Fala Madalena!
Aí posso tentar desconversar, dizendo:
_ Não...não foi nada não, apenas um simples acidente de trabalho. Nada que um bom sono não ajude a recuperar. Boa noite querida...a gente fala amanhã no café.
A vejo resignada voltando para a sala continuando a ver sua novela bem quietinha. Mas tenho que pensar na atuação pérfida de Zulmira...tenho a certeza de que ela estará lá e dira para Madá:
_ Acidente de trabalho...acidente de trabalho. Taí uma palavra que você não conhece a muito tempo...trabalho. Aposto que se ela te pedir um tostão para poder pagar a água amanhã...você dirá que não tem...nem míseros quarentão! Tenho certeza que você não terá...Dirá Zulmira colocando a mão sobre a cintura.
_ Saiba você. Direi a ela, olhando nos olhos. Que tenho uma grana pra receber...daqui a alguns dias...vai servir para pagar todas as contas que temos...pode ter certeza!
Se ao menos eu chegasse em casa e encontrasse somente Madá...já ia me aliviar um bocado. Já chega que vou ter que passar pelo porteiro. Aqueles porteiros tem uma língua que vou te falar. Já ouço aquela voz ridícula do Juvenal, que é o que deve estar lá agora:
_ Boa noite, senhor Matteo. Como vai? Ele me perguntará afoito.
Não vou nem poder olhar para o indivíduo. Imagine só ele falando para os condôminos.
_ Viu seu fulano, o senhor Matteo chegou com a cara toda sangrenta...o que será que aconteceu? No mínimo tomou um pau aí na rua...a boca pequena diz que ele é o maior vagabundo...não trabalha...e vive às custas de Dona Madalena, ela sim mulher trabalhadeira...esse daí é um traste, um cafetão... bon vivant. E a notícia se espalhará pelo prédio.
Quando Matteo chega no prédio. Diz boa noite ao porteiro cabisbaixo. Chama o elevador.
Espero que não encontre nenhum morador, pensa. Eu acho que vou subir pelo elevador de serviços. Se encontrar alguém, é funcionário, a situação não fica tão ruim...se bem que o meu nariz está super inchado e doendo pra caramba e se encontrar alguém no elevador, vou ter que permanecer com a cabeça baixa e lamentar um fato pitoresco ocorrido. Se for algum funcionário que não conheço com certeza pensará. Coitado desse cara, o que será que aconteceu? Darei azar se eu conhecê-lo e o mesmo perguntar...
_ Olá, senhor Matteo. Tudo bem? Mas que pancada em amigo! Deve estar doendo um bocado. Aí vou ter dizer:
_ Pois é rapaz, você não sabe o que me aconteceu. Terei que inventar alguma coisa na hora...é só criar um clima de silêncio para o argumento estupefato sair.
O celular dá sinal de mensagem. O elevador abre.
_ O que foi que aconteceu, senhor Matteo? Perguntou em voz alta Amadeu, funcionário antigo do prédio que trata da manutenção. Foi um acidente e tanto, aposto!
_ Pois é, foi um acidente e tanto...pode ter certeza! Respondi querendo ficar cabisbaixo.
_ Deixe-me dar uma olhada. Tem a Doutora Márcia que mora lá no terceiro andar, acho que ela pode dar uma olhada para você! Quer que eu a chame?
_ Não...não...não precisa se incomodar Amadeu...tudo vai ficar bem...é só eu chegar em casa e tomar um banho...Disse a ele, afastando-o.
_ Quer que eu lhe ajude a chegar em casa? Eu lhe acompanho até à sua porta. Disse Amadeu solícito.
_ Não, não...não se incomode, amigo, está tudo bem!
O celular de Matteo dá sinal de mensagem!
_ Logo aqui, esse celular vai dar sinal de mensagem? Falou em voz alta Matteo. Vamos ver quem é! Diz a Amadeu.
_ Ahaha!!! É a Dona Vera. Que legal...
_ Estou com saudades, beijos. Verinha.
Sádica. Perversa. Pensei comigo naquele instante. Se ao menos chegasse em casa e não encontrasse Zulmira.
Matteo saiu do elevador cabisbaixo e com a mão no rosto se dirigiu à porta do apartamento. Procurou a chave no bolso e não encontrou. Lembrou-se de que quando saiu de casa deixou Zulmira no apartamento esquecendo-se da chave. Apertou a campainha e virou o rosto para trás, caso Madalena ou Zulmira fosse abrir a porta...não percebesse o ferimento. Apertou novamente a campainha e ninguém atendeu a porta.
_ Porra, será que não tem ninguém em casa? Onde será que a Madalena se enfiou? Por que que eu tenho essa merda de celular, então. Essa mulher sai de casa e nem avisa a gente. Agora...eu vou ter ficar para fora...olha que situação. Acho que vou ter que descer à recepção e ficar escondido no jardim ao lado, até que alguém chegue. Já sei, pensou Matteo. Vou falar com o Juvenal para eu usar o banheiro da recepção, assim lavo o ferimento. Eu posso contar a ele uma mentira qualquer e pedir emprestado uma camiseta... até que a Madalena ou a Zulmira chegue.
Matteo desceu até à recepção pelo elevador de serviço. Quando a porta se abriu deu de cara com Juvenal.
_ Olá, Juvenal...vou usar o banheiro de vocês tá...eu preciso lavar esse nariz que está sangrando. Sabe como é né...acidentes acontecem...e será que você não tem uma camiseta para me emprestar...sabe o que é...eu saí de casa e esqueci de levar a chave, agora eu cheguei e a Madalena não estava, então enquanto isso vou ter que passar um tempo aqui com vocês da portaria, sabe como é né...a gente pode bater um papo...jogar conversa fora.
_ Ah! Sim, tudo bem! Seu Matteo, pode ficar à vontade. Eu tenho uma camisa alí...aponta para o armário...eu posso lhe emprestar...se bem que não é muito nova, mas dá para o gasto. Disse Juvenal.
Onde será que anda essa maldita Madalena! Já não chega a Vera que conseguiu atrasar o meu dia, ainda essa! Só faltava eu ter que passar a noite aqui, com os porteiros...eu juro que mato a Madalena a hora em que ela chegar...e mando aquela Zulmira se ela estiver junto para a casa do caramba. Por Deus do céu que eu faço isso.
_ Me conte rapaz...o que é que aconteceu com você? Perguntou Juvenal demonstrando curiosidade.
_ Parece até a história da carochinha, Juvenal. Que seu te contar você não vai acreditar...Eu estava andando na calçada da avenida principal do centro e não um amontoado de pedra, aí dei uma topada e levei um tombo caindo com o rosto no chão, por isso esse sangue todo. Respondi ao Juvenal de forma que até eu acreditasse naquilo.
_ Pois é rapaz...isso pode acontecer com todo mundo. Daqui a pouco o senhor já estará bom novamente...é só por um gelinho aí que melhora.... Disse Juvenal demonstrando sabedoria.
_ Claro...claro foi a primeira coisa que eu fiz. Respondi sem muito interesse.
_ Ah! Sabe quem esteve aqui hoje perguntando por você, senhor Matteo? Perguntou Juvenal!
_ Não tenho nem idéia...faz tempo que ninguém pergunta por mim por aqui! Respondi querendo me safar.
_ É aí que o senhor se engana. Só hoje vieram dois homens aqui lhe procurar. Tem dois recados ali na agenda dos porteiros. Um é referente ao seu Joaquim...ele esteve aqui na parte da manhã lhe procurando, mas diz que não havia ninguém em casa...deixou um número para você ligar...e o outro saiu daqui não faz muito tempo, foi o senhor Antonio do Ouro...será que é isso mesmo? Coçou a cabeça procurando se lembrar do nome.
_ Não, não Juvenal. É Antonio da Prata. Mas, o que é mesmo que ele queria? Perguntei de forma cínica.
_ Me parece que ele estava um pouco enfezado. Tava com uma cara de poucos amigos...diz que passa aqui mais tarde...ele me disse que teria um acerto de contas para fazer com o senhor. Disse Juvenal.
O problema é que o Juvenal conta até os detalhes. Cretino, isso deve chegar a todo mundo aqui no prédio. Se bem que o Prata deve estar mesmo muito furioso comigo. O negócio é eu viver fugindo dele. O ruim vai ser se ele me encontrar na rua...com certeza vou ter que sair no braço. Acho que essa noite vou ter que passar aqui mesmo, junto com o zelador. Vou ter que dormir no sofá da recepção. Coisa chata isso.
_ Porque esse indivíduo está dormindo no sofá da recepção, Juvenal? Deitado e fingindo estar dormindo, Matteo ouve o síndico interpelar o zelador.
Aquele cretino do Conca...o que ele acha que é...corrupto, ladrão...e ele acha que eu não sei dos esquemas dele...tenho até vontade de denunciá-lo. Aí quando chegar na próxima reunião do condomínio esse vai ser um dos assuntos da pauta: é proibido dormir no sofá da recepção. E aí eu vou ter que intervir e dizer que foi fruto da ocasião e perguntar:
_ Onde é que você queria que eu durmisse? No chão...só prá tua cara, né amigo! Aí no dia seguinte o bilhete bem explícito fará parte da decoração da sala da recepção:
_ É expressamente proibido dormir no sofá da recepção! Estampado em letra quarenta e oito do word e com com certeza só vai faltar o meu nome no recado que é para todo mundo ficar sabendo. Agora passo a ser conhecido como Matteozinho do sofá. Era só o que me faltava!
Matteo pega no sono e acorda com um tremendo safanão.
_ O dia já amanheceu senhor Matteo e não pode ficar aqui a manhã toda. Eu estou saindo por causa da troca e você não pode mais ficar aqui! Disse Juvenal.
_ Você sabe se a Madalena já chegou? Já são sete e meia da manhã! Perguntou Matteo.
_ Não...a Dona Madalena ainda não chegou, senhor Matteo. Respondeu friamente Juvenal.
_ Onde será que aquela desgraçada se enfiou. Mas, eu acho que vou ficar um pouco mais por aqui. Espero que a Madalena não demore muito. Disse Matteo de cabeça baixa e com a mão sobre o nariz.
A campainha do interfone toca.
_ Senhor, Matteo...Disse Juvenal. Aquele tal de Joaquim está querendo falar com você. E eu pedi para ele entrar.
_ Você disse que eu estava aqui? Você deveria ter perguntado seu idiota...e agora... o que é que eu vou dizer a ele? Você sabe o que ele quer de mim? Matteo disse em tom agressivo.
_ Mas...eu não sabia! Respondeu Juvenal.
_ Pois devia ter perguntado seu idiota. E agora, onde é que vou me esconder? Eu não posso falar com esse homem agora... tenho alguns problemas para resolver mais tarde, só depois vou poder falar com ele. Respondeu Matteo visivelmente nervoso e procurando um lugar para se esconder.
Eu acho que vou me esconder atrás do vaso da palmeira ali no canto. A palmeira é grande. Eu posso ficar ali agachadinho que eu tenho a certeza que esse maldito Joaquim não vai me ver. Maldito esse Juvenal, porque foi dizer a ele que eu estava em casa. Agora vai ficar aqui a manhã toda. Se bem que eu posso me esconder no banheiro dos zeladores, mas deixa pra lá...eu não tenho a chave mesmo! Não...não...acho que vou encará-lo e terminar com essa farsa rapidinho, assim ele vai embora e eu fico melhor. Não...não posso fazer isso, o melhor é eu me esconder. Se bem que é aí que eu fico numa pior mesmo. Todo mundo no prédio vai ficar sabendo que eu me escondi do cobrador. A língua do Juvenal não tem fim. Maldita língua.
Matteo ouve passos na recepção e se esconde atrás da palmeira. Se o Joaquim me ver aqui escondido...vou passar muita vergonha. Mas...e daí...não tem problema, não. Encolhe a perna e acompanha a passagem de ambos pela hall de entrada. Juvenal olha para Matteo. Este faz sinal com a mão apontando para o elevador. Eu acho que vou me retirar daqui.
_ Eu só espero encontrar esse cara em casa. Diz Joaquim à Juvenal.
Mas, vai em sacana. Vai é ficar sem receber. Pode me xingar, me ofender...não vou negar que devo não....mas só vou pagar quando tiver algum no bolso. Pode ter certeza. Mas, o lance agora é eu me esconder desse cara. Se eu me enfiar atrás do balcão da recepção talvez fique legal. Tenho a certeza que o Joaquim não vai bisbilhotar. Se bem que eu já imagino o olhar do Juvenal para mim. Mas, também posso ouvir de algum morador do prédio.
_ O que faz aí, senhor Matteo. É uma probabilidade que devo contar...já imagina se é justamente na hora em que o Joaquim está passando? O escândalo que vai ser? Não quero nem pensar. Eu quero é mesmo ficar aqui, escondido esperando o nosso amigo ir embora. Tenho que pensar que Madalena também pode aparecer. Como vou explicar que estou embaixo do balcão da recepção, com o nariz todo inchado e ainda por cima com uma camisa que não me pertence? É realmente, tenho que convir que a situação não é de todo ruim. Se ao menos esse maldito Joaquim fosse embora eu conseguiria me arrumar.
Matteo se escondeu atrás do balcão de recepção e o celular deu sinal de mensagem.
_ Meu amor. Tive que fazer uma viagem de trabalho. Retornarei em dois dias. A chave da casa está com minha mãe. Beijos. Te amo. Madá.
A notícia não podia ser pior. A mulher viaja. Fico sabendo depois. A chave está na casa da maldita Zulmira. Estou escondido do cobrador.
_ Mas...nem tudo está perdido. Fala Matteo em voz baixa colocando as mãos sobre a cabeça. O que eu quero mesmo é que esse cobrador vai-se embora.
_ O que é que está fazendo aqui, Senhor Matteo? Perguntou Juvenal nervoso. Eu já estou saindo. E o senhor não vai me complicar, não. Se o Conca passar por aqui e te pegar aí embaixo, com certeza eu estarei na rua. E a situação vai ficar preta! Eu acho melhor o senhor sair daí. Diz Juvenal apontando o indicador para Matteo.
_ Eu só estou esperando o Joaquim ir embora. Eu não posso falar com ele agora! Respondeu Matteo com voz baixa e gesticulando.
_ Eu não tenho nada a ver com seus problemas. Respondeu Juvenal.
_ É rapidinho, Juvenal...só até esse cara ir embora. Por favor. Diz Matteo, juntando as mãos.
_ Cubra essa pra mim, vai. Eu fico lhe devendo uma. Matteo diz à Juvenal.
_