Lembro da nossa noite mágica. O tipo de noite que a gente constrói sob medida para se arrepender depois. O ar estava pesado de expectativa, regado a bebida e risadas altas demais para o tamanho do apartamento. Trocávamos promessas não cumpridas como quem troca figurinhas repetidas: sabíamos que não valiam nada, mas o brilho dos olhos no momento da troca era irresistível. Prometemos o amanhã, o mês que vem, a eternidade. Juramos transparência enquanto escondíamos o medo de ser de verdade.
O que me resta agora é o silêncio da noite e as lembranças. Essa penumbra teimosa que insiste em desenhar o seu contorno no canto do quarto. A noite é perita em amplificar o pulso de quem fica. Se você for embora, a porta nem precisa bater; o vácuo que você deixar já fará barulho suficiente para ocupar a casa inteira. Se ficar, o silêncio continuará ali, sepulcral, como uma testemunha que sabe demais e recusa o depoimento.
A escolha é sua, mas o desfecho já é nosso.
