A tela do celular brilha no escuro do quarto como uma fogueira moderna, a única luz capaz de aquecer a solidão urbana das onze da noite. No visor, um desfile ininterrupto de rostos cuidadosamente selecionados, recortes de 20 e poucos ou 30 e muitos anos que prometem o paraíso na esquina mais próxima. É o carrossel do desejo contemporâneo, onde a atração física virou um reflexo condicionado pelo movimento do polegar para a direita.
O Tinder não inventou a pressa, mas deu a ela um endereço digital. Ali, o amor vestiu roupas de velocidade. Vive-se o paradoxo do desespero amoroso: nunca se buscou tanto o afeto, mas nunca se esteve tão disposto a descartá-lo ao menor sinal de atrito. É o amor fugaz, o afeto de micro-ondas, que aquece rápido, mas esfria na mesma proporção.
Entre o sexo e o namoro, estende-se uma corda bamba e tênue. Ninguém sabe muito bem onde começa a carência e onde termina a paixão. Os rótulos assustam mais do que a própria solidão. Prefere-se o acordo implícito do "vamos vendo", a promessa vazia de que amanhã é outro dia e outro perfil surgirá para preencher o vazio. A grande missão coletiva parece ser a desconstrução do tédio, esse monstro invisível que ronda os domingos à tarde e as madrugadas insones.
E há, claro, a função oficial — aquela que pouca gente assume na primeira mensagem, mas que move engrenagens silenciosas: dar aquela aliviada. Uma descarga rápida de dopamina, um encontro marcado na pressa entre uma reunião e outra, a busca por um corpo que adormeça o eco do próprio barulho mental.
Terminado o encontro, o silêncio volta a habitar o quarto. O carrossel continua girando, implacável e luminoso, enquanto o coração, teimoso, continua procurando o que nenhum algoritmo consegue entregar.
