Saturday, 19 September 2026

Garrincha: a epopeia futebol

 


Lançado em 1995 pela Companhia das Letras e vencedor do Prêmio Jabuti, Estrela Solitária é amplamente considerado uma das obras-primas da biografia brasileira. Escrito pelo jornalista e escritor Ruy Castro, o livro reconstrói a trajetória de Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha (1933–1983), indo muito além das quatro linhas para expor a tragédia humana e social de um dos maiores gênios do futebol mundial.

Para erguer a vida de Garrincha, Ruy Castro realizou mais de 500 entrevistas com 170 pessoas, cruzando memórias, documentos e arquivos para preencher lacunas de uma vida cercada de mitos.

O livro explora o contraste entre o jogador genial — capaz de fazer o mundo rir e encantar nas Copas de 1958 e 1962 — e o homem frágil, vulnerável e profundamente marcado por suas origens e contradições.

A narrativa aborda sem filtros a infância pobre em Pau Grande (distrito de Magé, RJ), a herança genética e cultural, os casamentos turbulentos (incluindo a marcante relação com a cantora Elza Soares), e a luta implacável contra o alcoolismo.

O grande mérito de Estrela Solitária é recusar a hagiografia (a tendência de transformar biografados em santos perfeitos). Ruy Castro expõe a decadência física, financeira e emocional de Garrincha em seus últimos anos de vida de maneira crua e dolorosa, mostrando como a mesma sociedade que o idolatrava nos gramados o abandonou na sarjeta.

Embora a franqueza do autor em relação aos excessos e à vida pessoal do jogador tenha gerado polêmicas e resistências em parte da família na época do lançamento, o livro consolidou-se como um documento histórico indispensável. É uma leitura obrigatória não apenas para fãs de futebol, mas para quem deseja compreender os mecanismos de construção e destruição de ídolos no Brasil.

 

Thursday, 17 September 2026

As cartas do tarot

As cartas do tarot, dispostas sobre a mesa, foram categóricas: você seria um problema para mim. Olhei para o arcano virado e, por um segundo, senti o mesmo calafrio da infância, a época em que eu acreditava piamente que as ciganas guardavam a chave do nosso destino com suas palavras sussurradas. O tempo passou, a maturidade me roubou a ingenuidade e passei a crer no oposto: o destino não está escrito; somos nós que o construímos e muitas vezes com decisões irracionais.

Eu sabia, com a precisão de quem conhece as próprias cicatrizes, que ficar ao seu lado custaria caro. Certos problemas emocionais não batem à porta; eles entram junto com você, acomodando-se no sofá como velhos conhecidos. É o preço que se paga por viver sob sol tão intenso.

Seu comportamento noctívago dita as regras de um relógio que só funciona no escuro. Enquanto o mundo dorme, você desperta, trazendo consigo aquele sorriso dantesco — no sentido mais literal e profundo da palavra —, um magnetismo quase infernal, capaz de desestruturar qualquer abordagem masculina. Nenhum homem sai ileso da sua presença quando ela vem embalada por esse sorriso e, acima de tudo, blindada por esse seu olhar etílico. Um olhar que parece ter bebido não apenas do copo, mas da própria noite, cheio de mistério, vertigem e promessas que a luz do dia fatalmente insistirá em apagar.

As ciganas talvez estivessem certas, afinal. O problema não estava nas cartas, mas na minha própria fraqueza racional em ignorar o perigo mais fascinante que já tenha cruzado o meu caminho.

 

O Rei do amor

Ele não caminha, ele desfila.  Chegava, erguia as mãos num gesto messiânico de “calma, minhas fãs, há amor para todos” . Lá vinha o inventár...