Thursday, 17 September 2026

As cartas do tarot

As cartas do tarot, dispostas sobre a mesa, foram categóricas: você seria um problema para mim. Olhei para o arcano virado e, por um segundo, senti o mesmo calafrio da infância, a época em que eu acreditava piamente que as ciganas guardavam a chave do nosso destino com suas palavras sussurradas. O tempo passou, a maturidade me roubou a ingenuidade e passei a crer no oposto: o destino não está escrito; somos nós que o construímos e muitas vezes com decisões irracionais.

Eu sabia, com a precisão de quem conhece as próprias cicatrizes, que ficar ao seu lado custaria caro. Certos problemas emocionais não batem à porta; eles entram junto com você, acomodando-se no sofá como velhos conhecidos. É o preço que se paga por viver sob sol tão intenso.

Seu comportamento noctívago dita as regras de um relógio que só funciona no escuro. Enquanto o mundo dorme, você desperta, trazendo consigo aquele sorriso dantesco — no sentido mais literal e profundo da palavra —, um magnetismo quase infernal, capaz de desestruturar qualquer abordagem masculina. Nenhum homem sai ileso da sua presença quando ela vem embalada por esse sorriso e, acima de tudo, blindada por esse seu olhar etílico. Um olhar que parece ter bebido não apenas do copo, mas da própria noite, cheio de mistério, vertigem e promessas que a luz do dia fatalmente insistirá em apagar.

As ciganas talvez estivessem certas, afinal. O problema não estava nas cartas, mas na minha própria fraqueza racional em ignorar o perigo mais fascinante que já tenha cruzado o meu caminho.

 

No comments:

O Rei do amor

Ele não caminha, ele desfila.  Chegava, erguia as mãos num gesto messiânico de “calma, minhas fãs, há amor para todos” . Lá vinha o inventár...