As
cartas do tarot, dispostas sobre a mesa, foram categóricas: você seria um
problema para mim. Olhei para o arcano virado e, por um segundo, senti o mesmo
calafrio da infância, a época em que eu acreditava piamente que as ciganas
guardavam a chave do nosso destino com suas palavras sussurradas. O tempo
passou, a maturidade me roubou a ingenuidade e passei a crer no oposto: o
destino não está escrito; somos nós que o construímos e muitas vezes com decisões
irracionais.
Eu
sabia, com a precisão de quem conhece as próprias cicatrizes, que ficar ao seu
lado custaria caro. Certos problemas emocionais não batem à porta; eles entram
junto com você, acomodando-se no sofá como velhos conhecidos. É o preço que se
paga por viver sob sol tão intenso.
Seu
comportamento noctívago dita as regras de um relógio que só funciona no escuro.
Enquanto o mundo dorme, você desperta, trazendo consigo aquele sorriso dantesco
— no sentido mais literal e profundo da palavra —, um magnetismo quase
infernal, capaz de desestruturar qualquer abordagem masculina. Nenhum homem sai
ileso da sua presença quando ela vem embalada por esse sorriso e, acima de
tudo, blindada por esse seu olhar etílico. Um olhar que parece ter bebido não
apenas do copo, mas da própria noite, cheio de mistério, vertigem e promessas
que a luz do dia fatalmente insistirá em apagar.
As
ciganas talvez estivessem certas, afinal. O problema não estava nas cartas, mas
na minha própria fraqueza racional em ignorar o perigo mais fascinante que já tenha
cruzado o meu caminho.

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