Thursday, 24 September 2026

O ronco dos motores e o encontro: crônica da Avenida Bento de Abreu

 


A Avenida Bento de Abreu nunca foi apenas asfalto, calçada e canteiro central. Em Araraquara, ela sempre funcionou como um estado de espírito. Desde os anos 60, quem pisava ali sabia que o ar trazia uma eletricidade diferente, misturando o cheiro de gasolina queimada com a promessa da noite que mal começava.

Como bem lembrava o Nilton Gonçalves, o Boca, e atestava o renomado motociclista Bene, a avenida trazia na alma uma vocação quase irrefreável para a velocidade. Ali, o ronco abafado dos motores que cortavam a madrugada não era apenas barulho; era a trilha sonora de uma juventude que queria provar para si mesma que o mundo era grande demais para caber em limites. Os "rachas" e as arrancadas em frente ao Teatro Municipal faziam o coração da cidade acelerar junto com os pistões. Era o templo profano dos velocistas da terra do sol.

Mas a Bento era um paradoxo fascinante: ao mesmo tempo em que desafiava a pressa, ela mandava parar. Era o ponto de encontro oficial da "família araraquarense". Naquela época, se você quisesse ver e ser visto, resolver uma paixão ou simplesmente encontrar alguém, não precisava de bilhete ou recado. Bastava ir até lá. 

Avenida dos amores intensos e dos desencontros doloridos. Das conversas de calçada que varavam a madrugada, das brigas de ego que terminavam em paz na esquina seguinte, e de toda aquela luminosidade peculiar que parecia fazer a cidade inteira pulsar.

Hoje, quando passamos pela Bento de Abreu, o asfalto guarda silêncio sobre os rachas de antigamente, mas, se prestarmos bem atenção no vento que desce pelo canteiro central arborizado, ainda é possível ouvir o eco distante daquele motor roncando e a risada solta de quem viveu a era de ouro da avenida.

O ronco dos motores e o encontro: crônica da Avenida Bento de Abreu

  A Avenida Bento de Abreu nunca foi apenas asfalto, calçada e canteiro central. Em Araraquara, ela sempre funcionou como um estado de espír...