Sunday, 25 October 2026

O Rei do amor



Ele não caminha, ele desfila.  Chegava, erguia as mãos num gesto messiânico de “calma, minhas fãs, há amor para todos”.

Lá vinha o inventário de suas proezas amorosas.

A rapaziada no canto do balcão já se cotovelava, sem saber se ria ou se pedia mais uma rodada para aguentar o repertório. “Pronto, chegou o Rei do Amor”, murmurava um, dividindo o ambiente entre a admiração sincera e a absoluta indignação. A pergunta que pairava no ar era uma só: aquilo tudo eram mentiras de altíssimo nível ou apenas a boa e velha imponência masculina?

Seja como for, ele tinha uma filosofia imbatível: o homem apaixonado nunca tem pressa. A garotada de hoje quer tudo no aplicativo, no clique, no PIX. Ele não. O Rei do Amor jogava no ritmo do fogão a lenha. E o seu ingrediente secreto, a arma secreta do seu arsenal de sedução, era a dança.

Ele se declarava, sem modéstia alguma, o Homem da Dança. Sabia perfeitamente que o universo feminino tem uma fraqueza histórica por quem sabe conduzir um dois-para-lá, dois-para-cá sem pisar nos pés de ninguém. Enquanto a molecada ficava num canto do bar travada como estátua, o Rei entrava no salão deslizando. Não importava se a lombar desviasse no dia seguinte; na hora da valsa ou do forró, ele era um mestre. A dança era o seu passaporte VIP para a simpatia feminina.

Mas, apesar de todo o teatro e das mentiras extravagantes que exigiam um mestrado em literatura para serem creditadas, o homem tinha o seu valor. O coração dele não era apenas um órgão: era um puxadinho gigante onde sempre cabia mais um afeto, uma história ou um dengo.

Se as mil e uma noites de amor que ele contava realmente aconteceram? Provavelmente não. Mas vendo o velhinho dar seu show, erguendo as mãos e dominando o salão com o carisma de um popstar aposentado, até os mais indignados tinham que dobrar a língua. Afinal, no grande baile da vida, enquanto a rapaziada pagava mico, o Rei do Amor saía aplaudido — e, claro, com a agenda cheia de danças garantidas para o próximo fim de semana.

 


O Rei do amor

Ele não caminha, ele desfila.  Chegava, erguia as mãos num gesto messiânico de “calma, minhas fãs, há amor para todos” . Lá vinha o inventár...