Ele não caminha, ele desfila. Chegava, erguia as mãos num gesto messiânico
de “calma, minhas fãs, há amor para todos”.
Lá vinha o inventário de suas
proezas amorosas.
A rapaziada no canto do balcão já
se cotovelava, sem saber se ria ou se pedia mais uma rodada para aguentar o
repertório. “Pronto, chegou o Rei do Amor”, murmurava um, dividindo o ambiente
entre a admiração sincera e a absoluta indignação. A pergunta que pairava no ar
era uma só: aquilo tudo eram mentiras de altíssimo nível ou apenas a boa e
velha imponência masculina?
Seja como for, ele tinha uma
filosofia imbatível: o homem apaixonado nunca tem pressa. A garotada de
hoje quer tudo no aplicativo, no clique, no PIX. Ele não. O Rei do Amor jogava
no ritmo do fogão a lenha. E o seu ingrediente secreto, a arma secreta do seu
arsenal de sedução, era a dança.
Ele se declarava, sem modéstia
alguma, o Homem da Dança. Sabia perfeitamente que o universo feminino tem uma
fraqueza histórica por quem sabe conduzir um dois-para-lá, dois-para-cá sem
pisar nos pés de ninguém. Enquanto a molecada ficava num canto do bar travada
como estátua, o Rei entrava no salão deslizando. Não importava se a lombar desviasse
no dia seguinte; na hora da valsa ou do forró, ele era um mestre. A dança era o
seu passaporte VIP para a simpatia feminina.
Mas, apesar de todo o teatro e
das mentiras extravagantes que exigiam um mestrado em literatura para serem
creditadas, o homem tinha o seu valor. O coração dele não era apenas um órgão:
era um puxadinho gigante onde sempre cabia mais um afeto, uma história ou um
dengo.
Se as mil e uma noites de amor
que ele contava realmente aconteceram? Provavelmente não. Mas vendo o velhinho
dar seu show, erguendo as mãos e dominando o salão com o carisma de um popstar
aposentado, até os mais indignados tinham que dobrar a língua. Afinal, no
grande baile da vida, enquanto a rapaziada pagava mico, o Rei do Amor saía
aplaudido — e, claro, com a agenda cheia de danças garantidas para o próximo
fim de semana.
