Thursday, 12 November 2015

Resenha - Raízes do Brasil

Introdução

Raízes do Brasil é uma obra escrita por Sergio Buarque de Hollanda, publicada originalmente em 1936 e que se transformou num clássico da política nacional, pois em seu conteúdo o autor conseguiu desvendar a alma do homem brasileiro, assim como transcrever de forma impressionante a transformação de um Brasil rural em um país eminentemente urbano.
Podemos comparar a obra de Sergio Buarque de Hollanda à de outros autores brasileiros renomados, como: Gilberto Freyre, Caio Prado Junior, Victor Nunes Leal e Celso Furtado. A leitura das obras desses autores é capaz de nos fornecer de forma objetiva a identidade brasileira.
Raizes do Brasil é um auto-retrato da personalidade do brasileiro: o que somos, do jeito que somos, porque somos e como fomos construídos, mas não apenas através de uma perspectiva histórico. Hollanda foi capaz de escrever sobre a mentalidade brasileira e mais do que uma interpretação sociológica, sua obra representa a psicologia do jeito de ser brasileiro.
Parte I
Fronteiras da Europa

O capítulo I analisa a colonização da América através da perspectiva de Portugal e Espanha, estabelecendo de certa forma, a distinção entre ambas;
·         Frouxidão das instituições;
·         Falta de coesão social;
·         Ausência de hierarquia;
·         Exaltação do prestígio pessoal com relação ao privilégio;
·         Mania geral de fidalguia;
·         Repulsa ao trabalho e às atividades utilitárias;
·         Falta de organização;
·         Vontade de mandar e de cumprir ordens (propensão à ditadura);

Hollanda inicia Raízes do Brasil estabelecendo a seguinte questão: as formas de convívio, as instituições, e as idéias que pairam em Terra Brasilis, são construídas com autenticidade dentro do território brasileiro? Não. O que o brasileiro é, é fruto da herança recebida por meio de uma nação ibérica, Portugal.
A personalidade do homem brasileiro foi moldada por traços existentes nos portugueses – essa personalidade vai ser decisiva para designar quem é realmente o povo brasileiro e qual o seu caráter. Na realidade, Hollanda vai traçar um perfil psicológico do que é o brasileiro a partir da personalidade do homem português.
Personalidade que possui como característica central a não propensão para o desenvolvimento de ações visando o bem coletivo e sim, as individualistas – as ações para a solidariedade são inexistentes.
Nesse contexto, é notório a dificuldade de se desenvolver no Brasil diferentes classes sociais. “Em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”.
Portugal atuou de forma implacável para manter seu poder sobre a colônia, por isso, sufocou com voracidade as iniciativas de caráter coletivo. Era necessário separar os homens e dificultar a sua união. Com essa forma de agir, Portugal vai colaborar de forma significativa para ampliar a ausência de coesão social, resgatando uma filosofia conservadora e tradicional onde o epicentro era Deus, ou seja, estava fora do mundo real e dos homens.
De acordo com a visão portuguesa, o mundo era organizado segundo as leis divinas e eternas e portanto, indiscutíveis, abrindo parênteses para a construção “equivocada” de uma suposta hierarquia baseada na obtenção de privilégios e na manutenção do prestígio pessoal.
É notório salientar a flexibilidade da hierarquia estabelecida pela nobreza. A nobreza não constituiu uma hierarquia fechada – ela sempre esteve aberta a novos adeptos, desde que esses pretendentes não estivessem ligados aos trabalhos mecânicos e às atividades utilitárias – o significativo para a nobreza era o ócio, era mais o dinheiro do que o próprio sangue. Vale salientar a prevalência das questões econômicas sobre as relações sociais e políticas.
Não era necessário a nobreza transformar o seu estilo de vida e a sua visão de mundo para se sobrepor à vida dos colonos. Os colonos detinham uma certa relação de subserviência e buscava a todo instante participar da vida da própria nobreza, por isso a construção e o desenvolvimento do que Hollanda chama de fidalguice.
A mentalidade portuguesa sempre valorizou o mérito pessoal e o livre arbítrio dificultando a criação de laços na sociedade e dificultando as associações dos homens.
Hollanda traça a comparação entre os protestantes e os portugueses quando menciona a mentalidade do homem português com relação ao trabalho. Segundo o autor, os protestantes preconizavam e aceitavam os trabalhos manuais e os portugueses “uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia”.
De uma forma geral, a ausência da moral do trabalho revela a incapacidade de se organizar socialmente, o que torna cada vez mais difícil encontrar resquícios de solidariedade na sociedade.
Outro aspecto importante a ser mencionado é a exaltação à individualidade – essa característica vai ser determinante, uma vez que, vai abrir caminho para as ditaduras que vão se desencadear historicamente no Brasil. A vontade de mandar e a disposição ao cumprimento de ordens contrapõem a obediência e a disciplina.

Parte II – Trabalho e aventura

Segundo o autor, a exploração da Terra Brasilis por Portugal não aconteceu de forma racional e organizada, mas através do desleixo e de certa forma, do abandono. O povo português que veio habitar a colônia pode ser caracterizado como aventureiro de certa forma, pois não havia diretrizes e regras estabelecidas, valia todo e qualquer tipo de relação em busca do maior lucro possível – é sobre esse contexto que as relações de trabalho se desenvolvem na colônia.
Hollanda utiliza a comparação entre os aventureiros e os trabalhadores. O aventureiro é o ser audacioso, irresponsável, vagabundo e o trabalhador justamente aquele que apresenta qualidades contrárias ao aventureiro. O autor ressalta o papel limitado desempenhado pelo “trabalhador” na conquista da colônia e a prevalência  das ações dos aventureiros justamente por causa da valorização pessoal e do livre arbítrio, características tão valorizadas pelo povo português.
Apresenta-se como característica fundamental do aventureiro, a ânsia pela prosperidade sem custo algum, a busca por riqueza fácil – esse foi o espírito dos homens que para cá vieram e fizeram a colonização brasileira. Nesse contexto, como esperar que fossemos obter fortes laços de organização?
Um fator facilitador para os portugueses foi a flexibilidade em se adaptar a uma cultura estranha à sua.  Nenhum povo se adaptou de forma tão simples e fácil como os portugueses se adaptaram à cultura indígena – “os instrumentos de caça e pesca, as embarcações de casca ou tronco escavado, o modo de cultivar a terra atendo fogo aos matos”, esses elementos foram fundamentais para os portugueses e facilitaram o processo de colonização.
Portugal não tinha muita opção quando decidiu transformar a colônia em exportador de produtos agrícolas – até porque, a Europa ainda não era um grande centro industrial e isso de certa forma, contribuiu para o desenvolvimento agrícola da colônia. O problema estava relacionado justamente na mão de obra – havia duas opções: os índios e os negros. Os índios não se adaptavam a grandes extensões de cultura agrícola, no caso a cana-de-açúcar, por isso, a opção pelo negro no trabalho da monocultura canavieira. Como cita Hollanda (p.52) “os métodos que puseram em vigor no Brasil não representam nenhum progresso essencial sobre o que, antes deles, já praticavam os indígenas do país.
Os portugueses não foram capazes de introduzir novos processos técnicos para a exploração da terra. Os métodos utilizados podiam ser caracterizados como primitivos, uma vez que usaram as técnicas ultrapassadas ou mesmo copiavam o modelo dos nativos aqui existentes – de certa forma, os portugueses queriam explorar demais as terras fazendo pouco esforço.
Não houve uma identificação com a terra por parte dos portugueses e dos espanhóis. A administração das terras foi facilitada por parte dos portugueses, não havia regras e foi permeada por uma plasticidade social: ausência de orgulho racial, inimigo de compromissos.
É notável o comportamento discrepante do homem português com relação aos índios e os negros. O português se identificou com alguns traços indígenas: a indolência, a ausência de regras por isso, os tratava com certos privilégios sociais, muito mais do que os negros. Os negros eram discriminados cabalmente, enquanto os indígenas recebiam tratamento diferenciado.
A sociedade colonial era marcada por fortes traços personalistas, dificultando a agregação entre as pessoas, isso porque o que sempre prevaleceu foi a irracionalidade nas relações sociais e o agir passional, os quais são traços diferentes de quem age de forma ordenada, racionalizada e disciplinadora. A disciplina, o agir racional e a ordem são quesitos fundamentais para quem quer desenvolver politicamente uma sociedade.

Parte III – Herança Rural

De certa forma toda a estrutura da sociedade colonial brasileira foi organizada tendo como base o meio rural. E esse fato vai influenciar a construção das cidades brasileiras, tendo em vista que todos os costumes, idéias, modos de comportamento e ideologias foram trazidos do meio rural para o urbano. Em linhas gerais, a mentalidade da casa-grande vai invadir as cidades e assim destilar todo o seu conservadorismo.
Quem vai habitar as cidades, são os filhos dos fazendeiros que estudaram em Coimbra ou em qualquer outra universidade européia e depois voltaram para desenvolvê-las. De certa forma, a maior influência da estrutura rural sobre a urbana está centralizada na construção de uma política conservadora.
O comércio negreiro no período colonial colocou o rural e o urbano frente-a-frente na luta política. De um lado, os ruralistas que defendiam o comércio negreiro porque alcançavam altas rendas e de outro lado os urbanistas, modernos com uma nova concepção de mundo e também de economia, já que tinham como idéia a abolição da escravidão, chamados de liberais.
Mas, havia um impasse, quem detinha o poder político eram os ruralistas – nesse contexto, como alterar os rumos da política nacional? Os ruralistas serão retirados do poder apenas em 1930 pelo Governo Getúlio Vargas, após a quebra da bolsa de valores de 1929.
A entidade privada se sobrepõe à entidade pública. Todas as relações sociais são organizadas através de laços afetivos. A família colonial vai se tornar espelho de poder através da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os homens e essas relações sociais vão determinar toda a vida social, até mesmo a dominação do Estado pela família que Victor Nunes Leal vai trabalhar de forma significativa em sua obra Coronelismo, enxada e voto.
Parte IV
O Semeador e o Ladrilhador

A Colonização portuguesa no Brasil:
·         Renuncia a normas imperativas
·         Governo de conveniências
·         Busca de riqueza fácil
·         Ausência de construção racional de uma sociedade
A construção das cidades no Brasil se estabeleceu através do espírito da vontade na luta contra a natureza – ao contrário de muitos outros lugares no mundo onde a cidade foi construída através de órgãos locais de poder.
Portugal fez das cidades brasileiras palco da exploração comercial, diferente das colônias espanholas, onde se procurou fazer das cidades imagem e semelhança das suas. A colonização brasileira se caracterizou como litorânea e tropical. Portugal dificultava a penetração para o interior do país, pois de certa forma, despovoaria a região litorânea e também ampliaria os preços dos produtos. Caso houvesse a exploração do interior os produtos chegariam mais caros aos portos, inviabilizando tanto a produção quanto a exportação.
Apenas com a descoberta do ouro e dos metais preciosos durante os anos de 1700 é que o interior começa a ser habitado efetivamente por Portugal e vai força-lo a tomar medidas mais rígidas para manter intacto os interesses da coroa. Segundo Hollanda  (p. 103) “ o descobrimento da minas de diamantes, foi, pois, o que determinou finalmente Portugal a por um pouco mais de ordem em sua colônia, ordem mantida com artigíficio pela tirania dos que se interessavam em ter mobilizadas todas as forças econômicas do país para lhe desfrutarem, sem maior trabalho, os benefícios”.
As colônias não podiam produzir nada que fosse competir com os produtos do reino. Essa era a regra fundamental entre as colônias e as metrópoles. Portugal tinha uma política até certo ponto flexível com relação à mão de obra, pois permitia a entrada de espanhóis, italianos e etc, desde que viessem para trabalhar.
As cidades brasileiras na visão de Hollanda foram construídas através do desleixo, sem organização e sem padronização alguma. Foram desenvolvidas sem nenhum tipo de rigor, nenhum método e nenhuma previdência.
Na medida em que a população ascende socialmente, deixa para trás a sua mentalidade para aderirem à dos grupos dominantes.
Notas do capítulo IV
I - Comparação entre Portugal e Espanha sobre os números produzidos pelas Universidades. As Universidades nas colônias espanholas apresentam números muito mais significativos do que o da colônia portuguesa. A imprensa teve muito mais Liberdade nos paises de colonização espanhola, assim como a produção da imprensa escrita. Na colônia portuguesa ocorreu um desenvolvimento tardio sobre essas questões.
II – A língua que se falava na colônia teve a influência significativa da língua tupi, falada pelos índios;
III – Escrevendo sobre as relações econômicas, Hollanda enfatiza a baixa capacidade de racionalização nos negócios por parte de espanhóis e portugueses. O que se caracteriza importante não são as condições racionais que regem os contratos, mas sim o valor afetivo da amizade, pois através dela, se é capaz de cobrar vantagens pessoais, indicações de parentes etc.
Parte V
O Homem Cordial
Para iniciar o capítulo referente ao homem cordial, Hollanda traça o paralelo entre o Estado e a família. Distinguindo aquilo que é público daquilo que é privado. Uma forte influência do privado sobre as questões públicas.
Ressalta a significância do papel da família na formação dos indíviduos – sempre lembrando que a tradição nas terras da colônia portuguesa, a família se constitui como patriarcal. Fatores como o processo de educação patriarcal influenciou de forma significativa nas condutas dos homens da colônia.
A relevância adquirida para o desenvolvimento das cidades se fazia necessária uma nova forma de conduta, tendo em vista que os valores citadinos não se assemelhavam com os valores do campo. As particularidades e o privado precisavam ser deixados de lado em benefício do bem coletivo.O que Hollanda quer dizer é que há um excesso de tutela da família sobre os seus filhos, dificultando o desenvolvimento de um processo de cidadania.
Hollanda desenvolve a tese de que a contribuição brasileira para a civilização foi a criação do homem cordial sendo a  hospitalidade e a generosidade são características marcantes do homem brasileiro. A vocação do homem da colônia para desenvolver as relações de afetos e emocionais e a  baixa capacidade de compreender as relações racionais – esses  são pontos fulcrais do conceito de homem cordial de Hollanda. As relações de amizade são usadas como forma de interferir sobre as relações sociais – seja na obtenção de vantagens ou mesmo de aceitação do “privado”.
A ética do homem cordial é uma ética de fundo emocional e não racional - de base individual e não coletiva – fortemente personalista, fruto do desenvolvimento e da influência da família patriarcal.
Parte VI
Novos tempos

Com o desenvolvimento das cidades na colônia e a certa decadência do modus operandi ruralista, desencadeou uma nova colônia. A sociedade de classes começou a se desenvolver nas cidades e com ela o surgimento das diferentes profissões.
Nesse contexto, Hollanda tece comentários sobre o desenvolvimento da sociedade de bacharéis na colônia, que vai de certa forma, contribuir para ampliar o personalismo patriarcal que assola as relações sociais. O personalismo que vai jogar para baixo do tapete o papel fundamental do Estado que é cuidar das questões coletivas e desenvolver a simpatia pela filosofia positivista. O positivismo se encaixa na sociedade brasileira porque se trata de uma caixa de ressonância do espírito personalista que reveste a psicologia social no trópico.
De uma certa forma, a democracia era vista como um processo de acomodação dos interesses de uma aristocracia rural para a manutenção dos seus próprios interesses sociais e comerciais. E os movimentos reformadores que assolaram a colônia tiveram uma característica de imposição, ou seja, uma verticalização das relações na medida em que eram colocadas de cima para baixo, abrindo o caminho que posteriormente se chamará de período populista brasileiro.
Parte VII
Nossa Revolução
Hollanda marca como significativo o ano de 1888. Esse ano registrou o marco entre duas épocas – a transição entre o velho e o novo, entre o rural e o urbano.
Esse ano representou um divisor de águas porque de certa forma entra em decadência a produção da cana de açúcar e emerge a lavoura cafeeira. O café se transforma em produção industrial que proporciona o desenvolvimento das cidades pelas novas necessidades existentes: a construção da linhas férreas e a produção de mantimentos necessários para a manutenção do sistema cafeeiro. A cultura do café abriu as  portas para o emprego remunerado, gerando os assalariados, diferente do período anterior a 1888 onde predominava as relações escravocratas.
Até a postura do fazendeiro do café é diferente, uma vez que ele se torna mais citadino e a fazenda é mera questão de visita. As relações se invertem quando se pensa no período anterior, onde o senhor residia na fazenda. Nesse contexto, o café transforma o Brasil em um país com caracteríticas mais urbanas.
A urbanização continuou e avassaladora e diminuiu a influência do regime ruralista e modificou a realidade brasileira.
O Brasil não foi capaz de se organizar como país de forma autêntica, seguindo os seus próprios valores e a sua própria moral. O modelo de legislação foi copiado da França, onde os valores estavam estabelecidos sobre uma determinada racionalidade. O homem brasileiro da época se encantou com a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mas esse “encantamento” se caracterizou apenas como fachada. Não havia qualquer possibilidade de dar certo em terras brasileiras, tendo em vista a personalidade e as condições sociais, baseadas nas relações emotivas e da amizade.  
Na verdade, aconteceu uma adaptação nada convencional do sistema legislativo francês, onde prevaleceu as relações do personalismo  brasileiro e o desenvolvimento do positivismo comteano, baseado na autoridade e nas relações de força, abrindo caminho para as futuras ditaduras.



Monday, 10 August 2015

Resenha: Meio ambiente no século 21

Meio ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento

“Meio ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento” (Armazem do Ipê, 4 ed, 2005, 367 p.) do jornalista André Trigueiro, traz um conjunto de artigos escritos por vários autores sobre o Meio Ambiente.
 O autor inicia o livro escrevendo sobre a falta de entendimento sobre o conceito de meio ambiente – de uma forma geral, meio ambiente é confundido com o que as pessoas conhecem como fauna e flora, não relacionando o termo com a amplitude que deveria ser utilizado – na verdade, aponta para a dificuldade em se estabelecer um nível de consciência ambiental.
É sobre essa perspectiva que o livro encontra-se organizado e com 21 textos que nos remete ao século XXI e as discussões relacionadas ao meio ambiente – entre os autores, existem renomados profissionais, como exemplo, podem ser citados: Fritjof Capra, Gilberto Gil, Leonardo Boff, Fernando Gabeira, entre outros.
O primeiro capítulo do livro trata-se de um artigo do renomado físico Fritjof Capra, onde o autor discorre sobre o tema: alfabetização ecológica – nesse contexto, Capra aponta para o nascimento do conceito de sustentabilidade, para isso busca entendimento no Relatório Brundtland organizado pelas Nações Unidas, onde vincula a preservação do meio ambiente como condição necessária para a construção do futuro.
Para Capra, existe uma dificuldade de organizar e operacionalizar o conceito de sustentabilidade e o melhor caminho para isso é a educação, através do que ele denomina de  alfabetização ecológica - pois acredita que a compreensão dos princípios de organização dos ecossistemas é fundamental para a manutenção da teia da vida.
De uma forma geral, Capra estabelece a necessidade de organização de um novo curriculum na educação, onde pode se estabelecer padrões e significados diferentes às crianças, através do processo de aprendizagem.
Padrões estes estabelecidos em cima de uma educação ambiental  mais prática, como exemplo o autor cita a organização de hortas nas escolas, como condição sine qua non para a construção de uma relação mais sólida entre as crianças e o meio ambiente, tendo em vista o envolvimento estabelecido.
Leonardo Boff, o teólogo inicia o segundo capítulo tecendo uma crítica ao modelo de desenvolvimento em voga, criticou de forma voraz a cultura do consumismo e com muita perspicácia discorre sobre a importância da espiritualidade para a mudança do paradigma vigente.
A espiritualidade é importante tendo em vista a sua capacidade de alterar o relacionamento entre os homens e a Terra – de acordo com Boff, a espiritualidade é significativa pois passa a transformar e deixar transparente a experiência interior, afastando a relação intelectual e mais científica que determina as ações contemporâneas – nesse contexto, a capacidade de redução do consumo seria significa, uma vez que colocaria limites à voracidade humana, preservando a natureza e contribuindo para o desenvolvimento  do conceito de sustentabilidade.
Gilberto Gil utiliza a sua experiência como ex-Ministro da Cultura, ex-presidente da Fundação Gregório de Mattos de Salvador, para escrever sobre o meio ambiente e a cultura. Para Gil, a natureza é uma criação cultural, e que a cada época se constrói uma visão de natureza.
No Brasil, mesmo com o processo de degradação da natureza que marcou a fase inicial de seu descobrimento, existia um certo criticismo contra o desmatamento desmedido. Nesse contexto, Gil cita o historiador e cientista político José Augusto Pádua, onde o intelectual defendia a tese de que a devastação ambiental era um obstáculo ao desenvolvimento econômico do país – dessa forma, o autor sai do lugar comum, onde se apregoa esse criticismo como sendo um fato relacionado à contemporaneidade, o que torna o texto muito interessante.
O autor escreve sobre a sua experiência como Ministro e Secretário da Cultura para falar sobre o processo de intervenção cultural no Brasil – cita vários projetos culturais de integração entre homem e natureza na tentativa de se criar no país um conceito mais profícuo de sustentabilidade – essas experiências de uma forma geral estão atreladas à relação entre a religião e a sociedade, o que resgata um pouco o tema do artigo anterior escrito por Leonardo Boff e que está relacionado à espiritualidade, nesse sentido, vale apena ressaltar a integração e parcimônia entre os textos, estabelecendo um link entre as temáticas – vale ressaltar que as experiências citadas descrevem a atuação das religiões afro, principalmente ao candomblé, onde se ressalta os elementos divinos da natureza.
A proposta inicial levantada por Trigueiro no livro está relacionada com  a construção de uma consciência ecológica – nesse contexto, o artigo de Samyra Crespo sobre a evolução da consciência ambiental no Brasil traz uma contribuição significa para o debate sobre a temática, tendo em vista que a autora buscou nas pesquisas de opinião o desenvolvimento do pensamento sobre os problemas ambientais no país.
Samyra organizou pesquisas sobre a temática ambiental e desenvolveu vários trabalhos a partir a Rio 92 – foram três pesquisas, feitas nos anos de 92, 97 e 2001, onde a autora buscou nos quatro cantos do país, a opinião dos brasileiros sobre a relevância ou não da problemática ambiental e o seu constante processo de evolução no país.
Através dessas pesquisas a autora foi capaz de traçar um perfil sobre o quadro ambiental brasileiro, tendo como base as diferenças regionais, as posições das várias classes sociais, assim como o pensamento de homens e mulheres, mas o ponto mais alto dos estudos foi o diagnóstico de que mesmo com todas as dificuldades de um país em desenvolvimento e a ação do poder público, ocorreu um processo de evolução do pensamento ambiental no Brasil.
O  pensamento ambiental no Brasil não podia ter se desenvolvido sem o papel significativo da imprensa – é sobre esse tema que o organizador do livro, Andre Trigueiro se debruça em seu texto. Trigueiro destaca o papel fundamental do programa Globo Reporter como meio difusor do meio ambiente no Brasil, cita também a importância do papel da imprensa, como órgão disseminador e educativo que assumiu diante das mazelas trazidas pelo modelo de desenvolvimento: desmatamento, enchentes, raios ultravioletas, poluição, etc.

Um ponto interessante mencionado por Trigueiro, está relacionado com o nível de conhecimento sobre meio ambiente que os jornalistas possuem – aponta que os profissionais que trabalham com a temática atualmente foram auto didatas em adquirir conhecimento e que os mais novos possuem mais vantagens por encontrar a temática dentro da sociedade brasileira mais trabalhada e com os conceitos mais direcionados – essa constatação vem juntamente com as pesquisas mencionadas pela Samyra no texto anterior, onde através das pesquisas, percebeu-se um certo amadurecimento da sociedade brasileira para as questões ambientais.

Thursday, 30 July 2015

Resenha - O mito do progresso

“O mito do progresso ou o progresso com ideologia” (Unesp, 2012, 331 p.) do  Engenheiro de Produção Gilberto Dupas traz um conjunto de idéias críticas sobre o progresso e seu consequente processo de evolução. O progresso é visto como um processo, como um caminho que levará a humanidade rumo à prosperidade e  bonança.
Esse avanço do progresso está calcado em dois pilares fundamentais: o acúmulo de conhecimento científico e tecnológico e à melhoria moral e espiritual do homem – esses pilares propostos por Dupas convergem com a proposta de Celso Furtado para quem o desenvolvimento é a evolução de um sistema social de produção mediante a acumulação e o progresso das técnicas.
No entanto, o conceito de progresso, tanto em Dupas quanto em Furtado está atrelado ao desenvolvimento da ciência – ela vai ser a mola propulsora que irá desenvolver as ações para a construção do futuro.
Futuro esse permeado pela racionalidade e pelo agir pensativo, mas a partir do século XVIII outras nuances foram se incorporando ao conceito de progresso - o bem estar social, a igualdade e a soberania popular através do desenvolvimento do sistema democrático.
Dupas aponta para o sentido negativo do conceito de racionalidade e resgata a idéia de Max Weber para quem o destino do nosso tempo que se caracteriza pela racionalização e pela intelectualização nos conduz ao processo de “desencantamento do mundo”, banindo dos aspectos coletivos os valores supremos e mais sublimes.
Nesse contexto, a liberdade se transformou em condição sine qua non para a conquista do progresso, mas nem só de liberdade se caracteriza o progresso, tendo em vista que de uma forma geral, os homens não são bons, os homens são maus por natureza, por isso que a liberdade por si só, não seria capaz de levar os homens a um mundo de felicidade – há a necessidade de atuação de um Estado, o Estado citado por Thomas Hobbes na obra “O Leviatã” que se coloca acima dos homens para evitar a guerra de todos contra todos.
Sem liberdade na acepção liberal do termo não há condições de se propor ideais de progresso – nesse ponto compete destacar que o progresso pode ser considerado tanto o lado social, quanto o desenvolvimento material, uma vez que a ação do livre mercado é fundamental para a construção do futuro – por outro lado, na acepção socialista, o progresso e o desenvolvimento do homem encontra-se calcado sobre a construção de políticas por parte do Estado – essa é a visão dos socialistas.
O desenvolvimento técnico da sociedade não é capaz de conduzir a sociedade à felicidade ampla – ele carrega em seu bojo aspectos relacionados à exclusão social, pobreza e miséria.    Felicidade, paz e alegria são palavras que não combinam com o conceito de progresso estabelecido pela sociedade contemporânea. Não se pode estabelecer a relação entre consumo e felicidade, como se felicidade fosse um fetiche ou algo que se compra na esquina. A proposta de progresso na sociedade contemporânea pode ser vinculada ao conceito de reificação proposto por Karl Marx onde os objetos tomam significados à frente do sujeito, desenhando um cenário de alienação.
No contexto geral, o conceito de progresso contorna uma relação perigosa diante da sociedade – uma vez que leva sobretudo à destruição do mundo da política, onde os diálogos são interrompidos e se impõe as relações de lógica comercial e o determinismo implacável da realidade.
Dupas trabalha a construção do  conhecimento como verdade. Nesse ponto, um aspecto interessante se impõe na medida em que o homem se coloca como Deus, sendo assim, capaz de prever as ações futuras, tendo como base a ação racional – dessa forma, as ações com base na ciência eliminam as influências de crenças e também a intensidade do medo.
Dentro da concepção de progresso, conhecimento significa poder, na medida em que ele é capaz de propor transformações e construir novos objetos de consumo. Nesse contexto, o mercado se torna indiferente às pessoas, na medida em que tudo pode ser descartável e ter valor de troca, desvalorizando as relações humanas e estabelecendo medidas para a construção de um novo conceito de cidadania – que pode ser denominada de cidadania mercadológica ou seja, aquela que se contrapõe ao conceito clássico de cidadania, onde a base são as relações humanas e sociais.
Outro aspecto salientado por Dupas e que merece destaque é o fenômeno da globalização, que dominou as relações políticas e econômicas com mais afinco a partir dos anos 90 do século passado – aponta o autor que esse fenômeno desencadeou ainda mais o individualismo na sociedade, dificultando a criação de vínculos mais humanos e acirrando a competição, onde quem se destaca são os donos do capital, uma vez que conseguem levar vantagem em tudo, acelerando a ampliação da miséria.
Nesse contexto, compete salientar e ressaltar o papel do Estado uma vez que a globalização nos impõe o Estado mínimo, ou seja, menor interferência sobre as relações econômicas, mas como destaca Sachs, os neoliberais defendem um Estado  mínimo e fraco, mas o desafio é o de reconstruir um Estado mais enxuto, mas também forte, guardião e promotor do interesse público, desempenhando um papel central na nova ordem social emergente, alicerçada na busca racional de órgãos coletivos.
O sucateamento dos Estados nacionais, a flexibilidade das relações de trabalho, a ampliação do desemprego, estabeleceu uma crise constante do sistema através do acréscimo da pobreza e a ambição proporcionada pelo consumo – nesse contexto, como conciliar consumo e desemprego?
Com o quadro social de miséria se ampliando, é necessário colocar um freio na escalada do progresso, uma vez que de acordo com os relatórios ambientais, a Terra não está sendo capaz de fornecer matéria prima para a escalada do desenvolvimento pretendido, gerando uma crise ambiental sem precedentes na história da humanidade– nesse contexto, o desenvolvimento de atitudes permeadas pela ética é necessária, tendo em vista a melhoria das relações humanas, sociais e principalmente mercadológicas.
O capitalismo nas bases atuais atua como promotor da ciência, sucateando produtos em curto espaço de tempo, propondo inovações constantes na tentativa de  criar  novos hábitos de consumo – nesse contexto, cabe a pergunta: até onde irá esse modelo de desenvolvimento sendo que a Terra apresenta sinais de desgaste? Dupas estabelece de forma categórica uma análise crítica desse processo como um todo, os seus argumentos apontam para o falecimento do modelo de desenvolvimento pretendido.
Outro aspecto mencionado pelo autor em seu livro e estabelecido com muita competência é a influência do modelo de desenvolvimento nos aspectos relacionados à saúde – a produção em larga escala, o uso abusivo de conservantes, a utilização desenfreada de agrotóxicos nos alimentos, a fragilidade dos planos de saúde, a “produção” de seres humanos in vitro, assim como a consequente ampliação dos casos de câncer, dos problemas psicológicos denominados de doenças modernas. Esses são pontos importantes discutidos por Dupas tendo em vista que são expostos como as consequências do modelo de desenvolvimento imposto.
Como desdobramento da obra, Dupas aponta a degradação do meio ambiente como grande ameaça à vida na Terra. O autor cita a corrosão da biodiversidade, a devastação florestal, a  mudança climática com o consequente aquecimento global. Um ponto interessante abordado na obra diz respeito ao processo de urbanização desencadeado nos últimos trinta anos – de acordo com esse processo, a maioria das pessoas na Terra passaram a viver em centros urbanos, inflando as cidades, contribuindo para o acréscimo do consumo, assim como com a ampliação da pobreza e a degradação dos modos de vida: aculturação, zonas de pobreza e drogadição.
Como medidas para combater o aumento da poluição e a diminuição dos efeitos do gás estufa, as nações não conseguem chegar a um denominador comum, enquanto alguns tentam impor discussões e assinar Tratados para combater os problemas contemporâneos, outras se desviam do foco, saem do centro de discussão e faz jogo de empurra para não cumprir, como exemplo, pode ser citado o Protocolo de Kyoto, onde quem não assinou foram os Estados Unidos, mesmo com pressão da comunidade internacional.
De uma forma geral, o cenário mundial não se caracteriza como nada animador. A tese de que a ciência seria capaz de resolver todos os  problemas da humanidade, de acordo com Dupas, caiu por terra, uma vez que a crise se tornou permanente. Palavras como liberdade e felicidade tornaram o homem escravo – escravo da insatisfação, do anseio por consumo, do querer sempre mais. O determinismo econômico dá as cartas do jogo e amplia a pobreza existente e os Estados nacionais não conseguem trabalhar para diminuir as diferenças sociais.
Tanto a felicidade quanto a liberdade são conceitos que precisam ser trabalhados, pois seus conteúdos estão vazios – é necessário sobretudo qualifica-los. A virtude do conceito de progresso está centralizado sobre a liberdade – nesse contexto, Dupas expõe a dificuldade do conceito de liberdade se expor, tendo em vista que as condições colocadas pela realidade é desigual. Como conciliar liberdade e desigualdade social? Se liberdade está atrelada à concepção de luta ou seja, do esforço do indivíduo para conquistar determinada posição social ou para conseguir ser um “cidadão moderno”, como analisar o processo educacional? Se é a educação que dá a capacidade do indivíduo de tomar as rédeas do próprio destino – compete salientar, esse sistema educacional perpetrado pelo conceito de progresso trabalha para que as diferenças sociais diminuam e o indivíduo tenha a capacidade de outorgar a sua própria liberdade?
Dupas é pessimista quanto ao modelo de educação vigente e estabelece que é necessário organizar reformas quanto à sua forma e conteúdo, tendo em vista que trabalha apenas para perpetuar as diferenças de classes sociais na perspectiva de treinar mão de obra para o mercado emergente e ampliar o exército proletariado de reserva.
Tendo em vista a criticidade que permeia a obra de Dupas, sua obra é de leitura obrigatória para todos aqueles que estão devidamente preocupados com o destino da humanidade. O mito do progresso, não é uma obra restrita apenas aos estudantes de ciências humana, ela possui um alcance científico infindável.
Embora a sua leitura possa ser um pouco cansativa e suas críticas ao modelo possa ser deveras ácidas, a sua leitura é devidamente recomendável.








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