Friday, 9 January 2026

O Troleibus número 8

 


Ele esperava ansioso o troleibus no ponto de ônibus. Chuteira Viola entre os dedos, mascando chicletes e andando de um lado para o outro na calçada. Era dia de jogo do campeonato infantil de futebol, que iria acontecer no estádio do ACCO, um campo de futebol que fica na Vila Xavier.

O caminho até lá era longo. A Vila Xavier ficava do outro lado da cidade, e ele precisava pegar o troleibus na Rua João Gurgel, entre as avenidas Cristóvão Colombo e São Geraldo, próximo aos secos e molhados da Dona Malvina, e cruzar Araraquara de ponta a ponta. O troleibus da linha Santana-Pinheirinho fazia esse trajeto quase inteiro, ligando mundos diferentes dentro da mesma cidade.

Ele torcia para vir o troleibus de número oito. Achava aquele o mais confortável, embora fosse mais velho e lento. Os troleibus antigos tinham as cores azul e branco, e os bancos de couro azul, que suavam as pernas durante o trajeto, pareciam parte da aventura. As janelas, com travas teimosas, às vezes emperravam e se recusavam a abrir. Era melhor passar calor do que insistir na abertura — afinal, o barulho do motor elétrico e o balanço suave já bastavam para distrair.

Andar de troleibus era uma experiência. Ainda hoje, ele se lembra do motorista de cabelo em moita, óculos grossos e bigode preto e branco. Um dia, os “chifres” do troleibus — aquelas hastes que ligavam o veículo aos fios elétricos — caíram no meio do caminho. O motorista, tomado por um ataque de fúria, desceu do veículo e começou uma batalha épica contra os cabos rebeldes. Palavrões voaram como bolas mal chutadas, e os passageiros, entre risos e espanto, assistiam à cena como se fosse parte do espetáculo da viagem.

O melhor da travessia até a Vila Xavier era encontrar a molecada. Durante o trajeto, subiam companheiros de time, às vezes adversários conhecidos pelos dribles e gols. Mesmo assim, o papo rolava solto. Todos carregavam chuteiras entre os dedos, e alguém sempre trazia laranjas para chupar no caminho. O troleibus virava uma arquibancada ambulante, cheia de sonhos e risadas.

Ao chegar ao ACCO, a turma se reunia sob as sombras das árvores, esperando o portão abrir e os treinadores chegarem. Antes dos jogos, não havia rivalidade: todos eram amigos, unidos pela espera e pela bola. Os treinadores vinham de bicicleta, equilibrando grandes sacos de uniformes sobre o guidão — sacos de arroz reaproveitados, cheios de camisas coloridas e esperança.

Naquela época, ele não entendia o que movia aqueles homens. Por que se sujeitavam a pedalar quilômetros, carregando uniformes para um bando de garotos que mal conheciam, sem quase nenhum retorno financeiro? Só mais tarde, já adulto, compreendeu que havia algo maior ali. Talvez fosse paixão, talvez fosse amor pelo futebol, talvez fosse apenas o prazer de ver a alegria estampada no rosto da molecada.

Hoje, ao lembrar do troleibus número oito, do motorista furioso e das chuteiras penduradas nos dedos, ele entende o que Shakespeare quis dizer: existem mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode imaginar. E, entre o céu e a terra de Araraquara, havia também um troleibus azul e branco, cheio de meninos sonhando com o próximo gol.