Muito
obrigado. Eu fico muito honrado com esse convite, poder falar um pouco da minha
trajetória musical e da minha vida aqui em Araraquara, a cidade que escolhi
para morar e fazer minha vida profissional.
Eu
represento um pouco da cultura das músicas de barzinho de Araraquara.
Atravessamos os anos 80, 90 e 2000. Tenho toda uma trajetória desenvolvida
aqui.
A
minha história com a música começa desde criança. Eu vivia muito em casa pela
minha deficiência visual. Tive catarata congênita, fiz uma cirurgia e fiquei
com uma deficiência bastante profunda. Isso me deixou muito em casa, e eu
queria fazer coisas. Começou mais ou menos com Hermeto Pascoal. Eu pegava
facas, garfos, colheres e ficava batucando. Improvisava batucando. Eu queria
ser baterista naquela época.
Eu
fazia essas brincadeiras batendo faca nas cadeiras de madeira. Era interessante
porque precisava ser uma faca e uma colher, ou uma faca e um garfo, porque isso
dava sons diferentes. Eu nem conhecia Hermeto Pascoal na época e já tinha essa
percepção sonora.
Comecei
cantando em casa, depois participei de festivais de calouros na minha cidade.
Sou sul-mato-grossense, de Paranaíba. Morei também em Cassilândia, depois
passei por Ilha Solteira, São Paulo e Três Lagoas. Em 1985 vim para Araraquara,
onde de fato comecei minha vida profissional. Vim para fazer mestrado em
Letras, mas acabei não concluindo porque comecei a trabalhar com música em
bares.
O
primeiro bar em que trabalhei em Araraquara foi o Texas Bar, que ficava na Rua
Itália, esquina com a Avenida Brasil. Comecei cantando ali com a ajuda da minha
queridíssima Jusara Vargas, que também estava começando a cantar naquela época.
Meu
pai me deu um violão quando eu tinha uns 12 anos. Fiquei emburrado porque
queria uma bateria. Mas acabei aprendendo com um vizinho as primeiras notas e
comecei a tocar violão. Participei de festivais de calouros, tirava notas
baixas porque estava mudando a voz. Cantava músicas do lado B, aquelas que as
pessoas não conheciam.
Nunca
fui muito de estudar violão. Hoje me acompanho porque é necessário, mas sou
mais da emoção. Gosto mesmo é de cantar. Quando comecei a tocar em bares, fui
me entrosando com músicos como Bonini, Ailton Bonini, Johnny e Abi. Formamos
uma banda e tocamos bastante tempo. Depois, quando eles seguiram outros
caminhos, fui obrigado a tocar e cantar sozinho.
Nos
anos 80, com o surgimento do rock nacional, tocávamos muito em banda. Depois
voltei a trabalhar sozinho. Tenho também uma banda de samba, o Samba Trio, com
César Marelo e João Vieira. Tocamos sambas antigos de Paulinho da Viola,
Martinho da Vila e outros.
Curiosamente,
eu não gostava muito de samba. Aprendi a cantar e tocar com o tempo, ouvindo
João Gilberto e outros mestres. Fiz apresentações em Sescs de várias cidades e
no projeto Choro das Águas da Secretaria de Cultura.
Meu
repertório é variado: MPB, pop rock e um pouco de internacional. Quando se toca
em bar, é preciso navegar por todos os estilos. Isso ajuda a criar uma
linguagem própria.
Nos
anos 80, tocar na noite era muito diferente. Havia muitos bares e liberdade
para cantar o que quiséssemos. Hoje, o público quer ouvir sempre as mesmas
músicas. Para sobreviver, é preciso equilibrar o repertório: 70% de músicas
conhecidas e 30% de músicas que gostamos.
Tenho
40 anos de carreira na noite e continuo trabalhando. Acredito que é possível
mostrar ao público que existe um universo musical além do que toca nas rádios e
TVs.
Já
fui apresentador de rádio, no programa Estúdio, na Rádio Uniara, no
início dos anos 2000. Entrevistava artistas de várias áreas.
Hoje,
há muitos músicos bons, mas é preciso garimpar. As plataformas digitais ajudam
a descobrir novos talentos. Ainda há grandes nomes da MPB produzindo, e os
bares continuam tocando muito dos anos 80.
Sou
intérprete, não compositor. Já rabisquei algumas coisas, mas nunca finalizei.
Tenho vontade de gravar um projeto com compositores locais.
Minhas
influências são muitas: comecei ouvindo Jovem Guarda — Roberto Carlos, Leno,
Lílian — e depois conheci Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso,
Gilberto Gil e Paulinho da Viola. Milton foi um divisor de águas, me ensinou a
soltar a voz.
O
mercado musical em Araraquara é competitivo. Há muitos músicos, mas poucos
espaços para MPB e pop rock. O samba e o pagode voltaram com força.
Trabalho
com equipamentos de qualidade, porque acredito que o som é essencial. Os cachês
poderiam ser melhores, mas a alegria de cantar compensa.
A
Secretaria de Cultura tem projetos importantes, como o Choro das Águas e
apresentações em feiras. Os músicos concorrem por editais e precisam ter MEI.
Isso garante transparência e abre portas para outros editais.
Nos
restaurantes, a MPB ainda tem espaço. O samba domina os bares, mas a MPB
resiste. Muitos músicos têm outras profissões e conciliam com a música.
Hoje
ensaio mais do que antes, para manter o repertório afiado. Esquecer letras é
natural com o tempo, mas o importante é continuar.
Viver
de música no Brasil é difícil. Os cachês são baixos e o mercado é restrito. A
grande mídia massifica o gosto popular, e as rádios tocam pouco do que é novo e
autoral.
Ainda
assim, há muitos compositores bons surgindo. O problema é a visibilidade. A
inteligência artificial traz novas questões — já existem vozes criadas
digitalmente —, mas acredito que a música humana, feita com emoção, sempre terá
seu espaço.
As
plataformas digitais são práticas e acessíveis, mas ainda não sei como
funcionam financeiramente. Gosto de ouvir vinis e plataformas, cada um tem seu
valor.
O
futuro da música noturna em Araraquara depende da economia e da valorização da
cultura. Gostaria que houvesse mais espaços para estilos diferentes, mas sou
realista: o cenário deve continuar como está.
Os
bares que mais marcaram minha trajetória foram o Texas Bar, o Revanche e o
Celeiro. No Texas, tive liberdade total e até fiz uma noite brega. No Revanche,
toquei com banda. No Celeiro, fiquei muitos anos, e foi um dos lugares mais
importantes da minha carreira.
Minha
relação com os empresários sempre foi boa. Tive poucos problemas com pagamento.
Uma vez, não recebi e “paguei” o cachê bebendo whisky no bar.
Hoje,
sigo cantando, com a mesma paixão de sempre. Represento a cultura noturna de
Araraquara, com muito orgulho, e fico feliz em poder contar essa história.

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