Wednesday, 14 January 2026

Josafá Dantas - Músico

 



Muito obrigado. Eu fico muito honrado com esse convite, poder falar um pouco da minha trajetória musical e da minha vida aqui em Araraquara, a cidade que escolhi para morar e fazer minha vida profissional.

Eu represento um pouco da cultura das músicas de barzinho de Araraquara. Atravessamos os anos 80, 90 e 2000. Tenho toda uma trajetória desenvolvida aqui.

A minha história com a música começa desde criança. Eu vivia muito em casa pela minha deficiência visual. Tive catarata congênita, fiz uma cirurgia e fiquei com uma deficiência bastante profunda. Isso me deixou muito em casa, e eu queria fazer coisas. Começou mais ou menos com Hermeto Pascoal. Eu pegava facas, garfos, colheres e ficava batucando. Improvisava batucando. Eu queria ser baterista naquela época.

Eu fazia essas brincadeiras batendo faca nas cadeiras de madeira. Era interessante porque precisava ser uma faca e uma colher, ou uma faca e um garfo, porque isso dava sons diferentes. Eu nem conhecia Hermeto Pascoal na época e já tinha essa percepção sonora.

Comecei cantando em casa, depois participei de festivais de calouros na minha cidade. Sou sul-mato-grossense, de Paranaíba. Morei também em Cassilândia, depois passei por Ilha Solteira, São Paulo e Três Lagoas. Em 1985 vim para Araraquara, onde de fato comecei minha vida profissional. Vim para fazer mestrado em Letras, mas acabei não concluindo porque comecei a trabalhar com música em bares.

O primeiro bar em que trabalhei em Araraquara foi o Texas Bar, que ficava na Rua Itália, esquina com a Avenida Brasil. Comecei cantando ali com a ajuda da minha queridíssima Jusara Vargas, que também estava começando a cantar naquela época.

Meu pai me deu um violão quando eu tinha uns 12 anos. Fiquei emburrado porque queria uma bateria. Mas acabei aprendendo com um vizinho as primeiras notas e comecei a tocar violão. Participei de festivais de calouros, tirava notas baixas porque estava mudando a voz. Cantava músicas do lado B, aquelas que as pessoas não conheciam.

Nunca fui muito de estudar violão. Hoje me acompanho porque é necessário, mas sou mais da emoção. Gosto mesmo é de cantar. Quando comecei a tocar em bares, fui me entrosando com músicos como Bonini, Ailton Bonini, Johnny e Abi. Formamos uma banda e tocamos bastante tempo. Depois, quando eles seguiram outros caminhos, fui obrigado a tocar e cantar sozinho.

Nos anos 80, com o surgimento do rock nacional, tocávamos muito em banda. Depois voltei a trabalhar sozinho. Tenho também uma banda de samba, o Samba Trio, com César Marelo e João Vieira. Tocamos sambas antigos de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros.

Curiosamente, eu não gostava muito de samba. Aprendi a cantar e tocar com o tempo, ouvindo João Gilberto e outros mestres. Fiz apresentações em Sescs de várias cidades e no projeto Choro das Águas da Secretaria de Cultura.

Meu repertório é variado: MPB, pop rock e um pouco de internacional. Quando se toca em bar, é preciso navegar por todos os estilos. Isso ajuda a criar uma linguagem própria.

Nos anos 80, tocar na noite era muito diferente. Havia muitos bares e liberdade para cantar o que quiséssemos. Hoje, o público quer ouvir sempre as mesmas músicas. Para sobreviver, é preciso equilibrar o repertório: 70% de músicas conhecidas e 30% de músicas que gostamos.

Tenho 40 anos de carreira na noite e continuo trabalhando. Acredito que é possível mostrar ao público que existe um universo musical além do que toca nas rádios e TVs.

Já fui apresentador de rádio, no programa Estúdio, na Rádio Uniara, no início dos anos 2000. Entrevistava artistas de várias áreas.

Hoje, há muitos músicos bons, mas é preciso garimpar. As plataformas digitais ajudam a descobrir novos talentos. Ainda há grandes nomes da MPB produzindo, e os bares continuam tocando muito dos anos 80.

Sou intérprete, não compositor. Já rabisquei algumas coisas, mas nunca finalizei. Tenho vontade de gravar um projeto com compositores locais.

Minhas influências são muitas: comecei ouvindo Jovem Guarda — Roberto Carlos, Leno, Lílian — e depois conheci Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola. Milton foi um divisor de águas, me ensinou a soltar a voz.

O mercado musical em Araraquara é competitivo. Há muitos músicos, mas poucos espaços para MPB e pop rock. O samba e o pagode voltaram com força.

Trabalho com equipamentos de qualidade, porque acredito que o som é essencial. Os cachês poderiam ser melhores, mas a alegria de cantar compensa.

A Secretaria de Cultura tem projetos importantes, como o Choro das Águas e apresentações em feiras. Os músicos concorrem por editais e precisam ter MEI. Isso garante transparência e abre portas para outros editais.

Nos restaurantes, a MPB ainda tem espaço. O samba domina os bares, mas a MPB resiste. Muitos músicos têm outras profissões e conciliam com a música.

Hoje ensaio mais do que antes, para manter o repertório afiado. Esquecer letras é natural com o tempo, mas o importante é continuar.

Viver de música no Brasil é difícil. Os cachês são baixos e o mercado é restrito. A grande mídia massifica o gosto popular, e as rádios tocam pouco do que é novo e autoral.

Ainda assim, há muitos compositores bons surgindo. O problema é a visibilidade. A inteligência artificial traz novas questões — já existem vozes criadas digitalmente —, mas acredito que a música humana, feita com emoção, sempre terá seu espaço.

As plataformas digitais são práticas e acessíveis, mas ainda não sei como funcionam financeiramente. Gosto de ouvir vinis e plataformas, cada um tem seu valor.

O futuro da música noturna em Araraquara depende da economia e da valorização da cultura. Gostaria que houvesse mais espaços para estilos diferentes, mas sou realista: o cenário deve continuar como está.

Os bares que mais marcaram minha trajetória foram o Texas Bar, o Revanche e o Celeiro. No Texas, tive liberdade total e até fiz uma noite brega. No Revanche, toquei com banda. No Celeiro, fiquei muitos anos, e foi um dos lugares mais importantes da minha carreira.

Minha relação com os empresários sempre foi boa. Tive poucos problemas com pagamento. Uma vez, não recebi e “paguei” o cachê bebendo whisky no bar.

Hoje, sigo cantando, com a mesma paixão de sempre. Represento a cultura noturna de Araraquara, com muito orgulho, e fico feliz em poder contar essa história.

No comments: