Friday, 30 January 2026

Patrimonialismo em voo: o uso de aviões da FAB e o legado cultural da corrupção no Brasil

O uso de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) por autoridades públicas tem gerado debates sobre ética, moralidade e o uso do bem público. Casos recentes envolvendo Deputados, Senadores e membros do Judiciário brasileiro reacendem a discussão sobre o patrimonialismo - um traço histórico da política brasileira que confunde o público com o privado.

Os membros da Câmara Federal, do Senado e do Judiciário, costumam utilizar aeronaves da FAB para transportar familiares e amigos para passeios. Geralmente, as viagens são custeadas com recursos públicos. A utilização de aeronaves da FAB por parte desse pessoal, ilustra o comportamento de apropriação do Estado por parte de quem o administra, prática que Raymundo Faoro, em Os Dono do Poder, define como patrimonialismo - a confusão entre o público e o privado.

Recentemente, um nobre deputado utilizou um avião da FAB para comparecer a um casamento em Trancoso, na Bahia. O deputado justificou o ato alegando prerrogativas do cargo e afirmou não pretender devolver os valores gastos. A coincidência geográfica - Trancoso, região próxima ao Monte Pascoal, onde Pero Vaz de Caminha escreve ao rei pedindo um "emprego" para um parente - reforça simbolicamente a ideia de que o patrimonialismo é um traço cultural persistente desde o início da colonização.

Os episódios de utilização das aeronaves brasileiras por parte de políticos e de membros do judiciário para fins particulares, nos aponta que o patrimonialismo não é apenas um conceito teórico, mas uma prática enraizada na cultura política brasileira. A apropriação de bens públicos para fins privados demonstra a dificuldade de romper com um legado histórico que atravessa séculos.

A pergunta que emerge é inevitável: as leis conseguem superar o peso da cultura patrimonialista? a resposta talvez esteja nas ruas, na reação popular e na cobrança por transparência e ética na gestão pública.

O patrimonialismo, como descreve Faoro, continua a se manifestar nas atitudes de muitos representantes do  poder. Enquanto o uso indevido de recursos públicos for tratado com naturalidade, a corrupção permanecerá como herança cultural. Romper com esse ciclo exige não apenas leis mais rígidas, mas também uma mudança de mentalidade coletiva - um novo pacto ético entre Estado e sociedade.