Thursday, 15 January 2026

Conversas do Podcast Uniara - João Comito - filho do ex-Presidente da Associação Ferroviária de Esportes - Aldo Comito

 


Olá, pessoal. Hoje o podcast Uniara recebe João Comito, filho do lendário ex-presidente da Associação Ferroviária de Esportes, Dr. Aldo Comito.

Eu que te agradeço a lembrança. Fiquei muito feliz e é sempre bom relembrar, ainda mais quando se trata do meu pai. Ele não foi muito reconhecido, até hoje não é, e não sei por quê. Política é sempre complexa. Então fico muito feliz quando há esse tipo de lembrança.

Meu pai sempre foi uma figura agregadora. Gostava de reunir pessoas, montar grupos, criar eventos. Desde jovem, ele participava de tudo: ajudava no asilo, no Instituto dos Cegos, no CESC, sempre ativo. Foi diretor do time do Santana, junto com o Dr. Cross e outros. Nunca jogou bola, jogava mal, mas era um grande dirigente.

Ele virou presidente da Ferroviária em 1965, quando o time foi rebaixado. Era ferroviário, trabalhava na estrada de ferro, e já tinha um histórico lá dentro. Foi discípulo e amigo de Pereira Lima, fundador da Ferroviária. Tinham uma amizade de irmãos. Pereira Lima era uma sumidade, falava vários idiomas, tinha memória incrível e era muito inteligente.

Meu pai se espelhava nele. Quando Pereira Lima faleceu, foi um baque. Lembro que meu pai ficou muito abalado. Eles tinham uma relação de admiração mútua.

Meu pai aposentou cedo da Fepasa, com 46 anos, e foi estudar Direito na primeira turma da Uniara. Depois abriu uma imobiliária. Era um homem ativo, sempre criando e participando.

Ele montou grandes times na Ferroviária. Presidiu de 1965 a 1970 e voltou em 1985 como gerente de futebol, montando outro timaço. Tinha trânsito com empresários e jogadores, tratava diretamente com eles, sem intermediários. Revelou muitos talentos, como o Nei, que veio de Nova Europa.

Meu pai era muito econômico e honesto. Quando viajava com a diretoria, comiam pão com mortadela para não gastar o dinheiro do clube. Ele nunca me deu uma camisa da Ferroviária, porque achava que não devia tirar do time. As camisas eram reutilizadas, lavadas e passadas para o próximo jogo.

Fui gandula da Ferroviária em 1968 e 1969. Entrei em campo com o time e vi grandes jogadores de perto, como Pelé, Gerson e Pedro Rocha. Tenho fotos com eles. Vi o Pelé jogar várias vezes, inclusive em 1971, quando a Ferroviária ganhou do Santos por 4 a 1.

Como gandula, vivi muitas histórias. Uma vez, quase fui expulso por causa do Marinho Peres, da Portuguesa. Outra vez, fiz um “gol” acidental: a bola entrou por fora da rede, e eu chutei outra bola para dentro. O juiz deu o gol, e a Ferroviária empatou o jogo.

Meu pai tinha ótimo relacionamento com árbitros. Era político, educado, sabia lidar. Mandava frutas e presentes para o vestiário. Em 1966, quando a Ferroviária subiu para a primeira divisão, ele descobriu que o jogo estava armado para o 15 de Piracicaba ganhar. Foi até a Federação e exigiu que Armando Marques apitasse. A Ferroviária empatou o primeiro jogo e ganhou o segundo, subindo de divisão.

Ele tinha trânsito com todos os grandes clubes e dirigentes. Chegou a ser cotado para presidente da Federação Paulista, mas não quis se mudar para São Paulo.

Ganhou o troféu de melhor presidente de 1966, oferecido pela Folha de São Paulo. Sob sua gestão, a Ferroviária foi tricampeã do interior (1967, 1968 e 1969).

A diretoria era formada por nomes como Dr. Wellington Pinto, Dr. Augusto Cardillo, Dr. Lawand, Walter Ferreira, Genaro Granata, Vicente Miceli, Antônio de Pádua Lopes, Dorival Silvestre e Carlos Cotinho.

Ele tinha relação próxima com os jogadores, quase paternal. Cuidava da pensão no bairro São Geraldo, onde os atletas moravam. Ia pessoalmente resolver problemas, buscar jogadores na estação, garantir que tudo estivesse certo.

Trouxe grandes times para Araraquara, como Cruzeiro, Internacional e até o Napoli da Itália, que perdeu de 4 a 0 aqui. O goleiro era o lendário Dino Zoff, que veio, mas não jogou.

Em 1967, trouxe a atriz Jaqueline Mirna, estrela da TV Record, para dar o pontapé inicial em um jogo contra o São Paulo. A cidade parou. Houve festa na Praça Pedro de Toledo e recepção no restaurante Jimba.

Meu pai sempre promoveu eventos para atrair público. Fazia sorteios, promoções, desfiles. A Ferroviária sempre teve dificuldade de encher o estádio, mas ele dava um jeito.

Os jogadores recebiam em dia. Era tudo no fio do bigode. A Ferroviária era respeitada, revelava craques e mantinha uma estrutura sólida.

O futebol naquela época era mais romântico. A bola era pesada, o uniforme de algodão, o campo irregular. Mesmo assim, os jogadores eram geniais. O Pelé, por exemplo, jogava em qualquer condição e seria craque em qualquer época.

Meu pai cuidava até da grama do estádio. Soltava cabras no campo para aparar a grama naturalmente.

A Ferroviária era o orgulho da cidade. E meu pai, Dr. Aldo Comito, foi um dos maiores dirigentes da história do clube — um homem de visão, honestidade e amor pelo esporte.

 

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