Olá,
pessoal. Hoje o podcast Uniara recebe João Comito, filho do lendário
ex-presidente da Associação Ferroviária de Esportes, Dr. Aldo Comito.
Eu
que te agradeço a lembrança. Fiquei muito feliz e é sempre bom relembrar, ainda
mais quando se trata do meu pai. Ele não foi muito reconhecido, até hoje não é,
e não sei por quê. Política é sempre complexa. Então fico muito feliz quando há
esse tipo de lembrança.
Meu
pai sempre foi uma figura agregadora. Gostava de reunir pessoas, montar grupos,
criar eventos. Desde jovem, ele participava de tudo: ajudava no asilo, no
Instituto dos Cegos, no CESC, sempre ativo. Foi diretor do time do Santana,
junto com o Dr. Cross e outros. Nunca jogou bola, jogava mal, mas era um grande
dirigente.
Ele
virou presidente da Ferroviária em 1965, quando o time foi rebaixado. Era
ferroviário, trabalhava na estrada de ferro, e já tinha um histórico lá dentro.
Foi discípulo e amigo de Pereira Lima, fundador da Ferroviária. Tinham uma
amizade de irmãos. Pereira Lima era uma sumidade, falava vários idiomas, tinha
memória incrível e era muito inteligente.
Meu
pai se espelhava nele. Quando Pereira Lima faleceu, foi um baque. Lembro que
meu pai ficou muito abalado. Eles tinham uma relação de admiração mútua.
Meu
pai aposentou cedo da Fepasa, com 46 anos, e foi estudar Direito na primeira
turma da Uniara. Depois abriu uma imobiliária. Era um homem ativo, sempre
criando e participando.
Ele
montou grandes times na Ferroviária. Presidiu de 1965 a 1970 e voltou em 1985
como gerente de futebol, montando outro timaço. Tinha trânsito com empresários
e jogadores, tratava diretamente com eles, sem intermediários. Revelou muitos
talentos, como o Nei, que veio de Nova Europa.
Meu
pai era muito econômico e honesto. Quando viajava com a diretoria, comiam pão
com mortadela para não gastar o dinheiro do clube. Ele nunca me deu uma camisa
da Ferroviária, porque achava que não devia tirar do time. As camisas eram
reutilizadas, lavadas e passadas para o próximo jogo.
Fui
gandula da Ferroviária em 1968 e 1969. Entrei em campo com o time e vi grandes
jogadores de perto, como Pelé, Gerson e Pedro Rocha. Tenho fotos com eles. Vi o
Pelé jogar várias vezes, inclusive em 1971, quando a Ferroviária ganhou do
Santos por 4 a 1.
Como
gandula, vivi muitas histórias. Uma vez, quase fui expulso por causa do Marinho
Peres, da Portuguesa. Outra vez, fiz um “gol” acidental: a bola entrou por fora
da rede, e eu chutei outra bola para dentro. O juiz deu o gol, e a Ferroviária
empatou o jogo.
Meu
pai tinha ótimo relacionamento com árbitros. Era político, educado, sabia
lidar. Mandava frutas e presentes para o vestiário. Em 1966, quando a
Ferroviária subiu para a primeira divisão, ele descobriu que o jogo estava
armado para o 15 de Piracicaba ganhar. Foi até a Federação e exigiu que Armando
Marques apitasse. A Ferroviária empatou o primeiro jogo e ganhou o segundo,
subindo de divisão.
Ele
tinha trânsito com todos os grandes clubes e dirigentes. Chegou a ser cotado
para presidente da Federação Paulista, mas não quis se mudar para São Paulo.
Ganhou
o troféu de melhor presidente de 1966, oferecido pela Folha de São Paulo. Sob
sua gestão, a Ferroviária foi tricampeã do interior (1967, 1968 e 1969).
A
diretoria era formada por nomes como Dr. Wellington Pinto, Dr. Augusto
Cardillo, Dr. Lawand, Walter Ferreira, Genaro Granata, Vicente Miceli, Antônio
de Pádua Lopes, Dorival Silvestre e Carlos Cotinho.
Ele
tinha relação próxima com os jogadores, quase paternal. Cuidava da pensão no
bairro São Geraldo, onde os atletas moravam. Ia pessoalmente resolver
problemas, buscar jogadores na estação, garantir que tudo estivesse certo.
Trouxe
grandes times para Araraquara, como Cruzeiro, Internacional e até o Napoli da
Itália, que perdeu de 4 a 0 aqui. O goleiro era o lendário Dino Zoff, que veio,
mas não jogou.
Em
1967, trouxe a atriz Jaqueline Mirna, estrela da TV Record, para dar o pontapé
inicial em um jogo contra o São Paulo. A cidade parou. Houve festa na Praça
Pedro de Toledo e recepção no restaurante Jimba.
Meu
pai sempre promoveu eventos para atrair público. Fazia sorteios, promoções,
desfiles. A Ferroviária sempre teve dificuldade de encher o estádio, mas ele
dava um jeito.
Os
jogadores recebiam em dia. Era tudo no fio do bigode. A Ferroviária era
respeitada, revelava craques e mantinha uma estrutura sólida.
O
futebol naquela época era mais romântico. A bola era pesada, o uniforme de
algodão, o campo irregular. Mesmo assim, os jogadores eram geniais. O Pelé, por
exemplo, jogava em qualquer condição e seria craque em qualquer época.
Meu
pai cuidava até da grama do estádio. Soltava cabras no campo para aparar a
grama naturalmente.
A
Ferroviária era o orgulho da cidade. E meu pai, Dr. Aldo Comito, foi um dos
maiores dirigentes da história do clube — um homem de visão, honestidade e amor
pelo esporte.

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