Renata Crespi conta que seus pais eram cantores de coral e que seu primeiro contato com a
dança foi aos três anos, quando ganhou uma caixinha de música com uma bailarina
girando. Encantada, começou a imitar a bailarina e, em uma apresentação do
coral, entrou rodopiando com flores nas mãos. O maestro, impressionado, sugeriu
aos pais que ela estudasse balé.
A
partir daí, iniciou sua trajetória. Foi para Ribeirão Preto, onde um tio
artista a encaminhou para uma escola de dança. Mais tarde, em Araraquara,
começou a estudar com Cleusa de Souza Dias, bailarina do Teatro Municipal de
São Paulo, e descobriu sua grande paixão.
Aos
12 anos, recebeu uma proposta para dar aulas em Taquaritinga. Com a autorização
de um juiz, começou a lecionar e, no ano seguinte, fundou o Balé Renata Crespi.
Renata
relembra que, naquela época, Araraquara era uma cidade conservadora, mas sua
escola foi bem recebida. Ela destaca que o espaço sempre teve um ambiente
familiar e acolhedor, onde a dança é o centro, mas o afeto e a união são
fundamentais.
Com
o tempo, o balé clássico foi se transformando e incorporando novas vertentes,
como o balé neoclássico, a dança contemporânea e o sapateado. Renata ressalta
que hoje a dança é para todos os corpos e que a rigidez do passado deu lugar à
liberdade de expressão.
Ela
explica que, embora o balé clássico seja a base de todas as danças, cada aluno
encontra seu próprio caminho. Alguns seguem para o profissionalismo, outros
dançam por prazer. Para os que desejam seguir carreira, a dedicação é intensa,
com muitas audições e desafios.
Renata
também fala sobre o papel do artista e as dificuldades de reconhecimento e
patrocínio. Para ela, o artista é um trabalhador como qualquer outro, mas ainda
luta por valorização. Mesmo assim, ela se orgulha de seus 50 anos de escola e
de ter formado gerações de bailarinos e profissionais.
A
coreógrafa compartilha histórias sobre o processo criativo, que pode surgir de
qualquer lugar — de uma paisagem, de uma lembrança ou até de uma frase. Conta
que já criou espetáculos inspirados em cenas do cotidiano, como as estações do
ano representadas pelas esculturas do cemitério de Araraquara.
Durante
a pandemia, adaptou-se e produziu espetáculos virtuais, aprendendo sobre vídeo
e edição para manter viva a arte da dança. Em 2023, comemorou o jubileu de ouro
da escola com um espetáculo sincronizado com cortina de LED, resultado de meses
de trabalho e criatividade.
Renata
acredita que criar é um ato divino. Para ela, dançar é se conectar com Deus e
com a própria essência. Apesar de também ser diretora e professora, afirma que
nada se compara à emoção de estar no palco.
Leitora
assídua, diz que suas ideias surgem de livros, revistas, gibis e até bilhetes
de restaurante. Ensina seus alunos a ler e a transformar histórias em
movimento, incentivando a criatividade e a expressão pessoal.
Além
da escola, Renata atua há mais de 12 anos em um projeto social, onde usa a
dança como ferramenta de transformação. Lá, trabalha temas como respeito,
convivência e superação, ajudando crianças e adolescentes a se expressarem e
acreditarem em si mesmos.
Ela
faz questão de não diferenciar alunos bolsistas dos demais, acreditando que
todos devem ser tratados com igualdade e dignidade.
Renata
também compartilha experiências internacionais, como o período em que estudou
na Rússia e na Suécia, e fala sobre suas inspirações — entre elas, Rudolf
Nureyev e Mikhail Baryshnikov.
Para
ela, a dança é uma linguagem universal que ensina disciplina, respeito e
sensibilidade. E, acima de tudo, é uma forma de curar almas.
Renata
encerra dizendo que, se tivesse seguido o sonho de ser médica, talvez curasse
corpos, mas que, com a dança, curou muito mais corações.

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